Jim Mattis acusa Trump de dividir americanos e Obama elogia protestos

Críticas do ex-secretário da Defesa surgem depois de o seu sucessor rejeitar a ideia de enviar o Exército para as ruas. Barack Obama elogiou os manifestantes que pedem justiça para Georgle Floyd, que, revela a autópsia, teve covid-19.

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Militares guardam a zona monumental de Washinton Reuters/KEVIN LAMARQUE
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Manifestantes junto ao Capitólio, em Washington D.C. REUTERS/Jonathan Ernst

O antigo secretário da Defesa dos EUA Jim Mattis, que se demitiu no final de 2018 da Administração Trump depois de o Presidente norte-americano ter anunciado que iria retirar as tropas da Síria, quebrou o silêncio e acusou Donald Trump de dividir o país, por causa da forma como está a lidar com os protestos anti-racistas após a morte do afro-americano George Floyd durante a detenção por agentes da polícia de Mineápolis.

“Donald Trump é o primeiro Presidente, durante a minha vida, que não tenta unir o povo americano – e nem sequer finge tentar”, afirmou Mattis, no texto publicado pela revista The Atlantic. “Em vez disso, tenta dividir-nos. Estamos a testemunhar as consequências de três anos desse esforço deliberado. Estamos a testemunhar as consequências de três anos sem uma liderança madura”, acrescentou. 

O texto de Mattis surgiu horas depois de o actual secretário da Defesa, Mark T. Esper, ter contrariado Trump e defendido que uma intervenção militar para conter os protestos que continuam nas ruas de cerca de 140 cidades norte-americanas, por causa da morte de George Floyd, assassinado por um polícia de Mineápolis, deve ser o último recurso. Apesar disso, o Presidente norte-americano continua a ameaçar invocar a Lei da Insurreição para ignorar os governadores e enviar o Exército para todo o território norte-americano.

No artigo na The Atlantic, o general Jim Mattis afirmou que os “protestos estão a ser definidos por dezenas de milhares de pessoas conscientes”.  “Não nos devemos distrair com um pequeno número de incumpridores da lei”, enfatizou.

“Devemos rejeitar a concepção das nossas cidades como um ‘local de batalha’ que os nossos militares sejam chamados a ‘dominar’”, declarou Mattis, referindo-se directamente a palavras usadas pelo presidente Trump.

O ex-secretário da Defesa, que esteve quase sempre em desacordo com Trump em termos de política externa enquanto esteve na Casa Branca, lamentou ainda que soldados estejam a ser enviados “para violar os direitos constitucionais dos seus concidadãos” e mostrou-se revoltado com o episódio da passada terça-feira, quando Donald Trump atravessou a Praça Lafayette para tirar uma fotografia com uma bíblia, depois de a polícia ter aberto caminho entre manifestantes pacíficos com gás lacrimogéneo.

“Sabemos que somos melhores do que o abuso da autoridade executiva que testemunhámos na Praça Lafayette [em Washington]. Devemos rejeitar e responsabilizar todos aqueles que fazem chacota da nossa Constituição”, afirmou o general na reforma.

“As vossas vidas importam”

Praticamente ao mesmo tempo que o texto de Jim Mattis era publicado, o ex-presidente Barack Obama participou numa mesa-redonda virtual com o ex-procurador-geral Eric H. Holder Jr. e com um grupo de activistas de Mineápolis.

Assumindo uma postura conciliadora e sem se referir directamente ao presidente Donald Trump, Obama mostrou-se solidário com os manifestantes e afirmou que só uma pequena percentagem dos que protestam nas ruas contra a morte de George Floyd é violenta. “Para todos os que têm falado dos protestos, lembrem-se que este país foi fundado por um protesto – chamam-lhe a Revolução Americana”, disse Obama.

O primeiro Presidente negro dos Estados Unidos agradeceu a todos os manifestantes que “estão lá fora, de forma pacífica e disciplinada, a fazer a diferença”, e falou directamente para os jovens negros: “Quero que saibam que importam. Quero que saibam que as vossas vidas importam, que os vossos sonhos importam, e, quando vou para casa e olho para a cara das minhas filhas, Sasha e Malia, e quando olho para os meus sobrinhos e sobrinhas, vejo potencialidades sem limites que merecem florescer e prosperar.”

Obama considera que os tumultos nos Estados Unidos são reflexo de “desafios e problemas estruturais”, como a escravatura e o racismo institucional, e pediu reformas na polícia e apelou aos governadores para tomarem medidas para acabar com a violência policial: “Apelo a todos os governadores para que revejam as vossas políticas de uso da força na vossa comunidade e que se comprometam a fazer reformas.”

George Floyd teve covid-19

Na quarta-feira foi revelada a autópsia completa à morte de George Floyd, feita a pedido da família e, segundo o The New York Times, os resultados revelaram que teve covid-19 no início de Abril, dois meses antes da sua morte. No entanto, segundo Andrew Baker, médico responsável pela autópsia, não há indícios de que a doença tenha tido algum papel na morte, uma vez que, no momento em que foi assassinado, estava assintomático.

Depois de conhecidas as acusações de cumplicidade aos três agentes – J. Alexander Kueng, Thomas K. Lane e Tou Thao que assistiram à morte de George Floyd e do agravamento para homicídio simples da acusação a Derek Chauvin, polícia que sufocou o afro-americano com o joelho, os protestos continuaram nas ruas norte-americanas, onde se pediu que as acusações sejam transformadas em sentenças.

Até à hora do recolher obrigatório imposto em várias cidades, os manifestantes aglomeram-se em Washington e em Nova Iorque, na sequência do que tem acontecido nos últimos dias. Com a chegada da noite, viveram-se alguns momentos de maior tensão, com confrontos entre polícias e manifestantes, que resultavam em dezenas de detenções. Em Brooklyn e Manhattan, em Nova Iorque, a polícia dispersou manifestantes que não cumpriram o recolher obrigatório.

Esta quinta-feira realiza-se a primeira de três cerimónias fúnebres em homenagem a George Floyd. Em Mineápolis, são esperadas centenas de pessoas para o funeral, numa altura em que estas cerimónias são raras, devido à pandemia de covid-19. A cerimónia será conduzida pelo reverendo Al Sharpton.