As abelhas sem ferrão são “como cachorrinho” para comunidades na Amazónia

Projecto do Instituto Peabiru com abelhas nativas, que produzem um mel muito líquido, de cor clara, e com menor quantidade de açúcar, dá uma fonte de rendimento às populações locais.

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Abelhas da espécie Uruçú Amarela Instituto Peabiru/Rafael Araújo.

“Hoje a gente espera que todo o fundo de quintal tenha galinha, porco e abelha”, diz João Meirelles, do Instituto Peabiru, resumindo, satisfeito, o sucesso do projecto para a produção de mel com as abelhas nativas – e sem ferrão – do Brasil. 

As comunidades indígenas dão-lhes nomes como uruçu, jataí, mandaçaia. São abelhas nativas sem ferrão (melíponas) e só na Amazónia há 114 espécies identificadas, calculando-se que por todo o Brasil existam mais de 250 espécies.

Apesar de não picarem, estas abelhas produzem mel e é esse bem precioso que está no centro do projecto do Instituto Peabiru. “Essa descoberta das abelhas nativas tem pouco mais de 50 anos. Foi um investigador, o Paulo Nogueira-Neto, que as fez virar tema”, conta João Meirelles, director do Peabiru. Elas existem em regiões tropicais e subtropicais e ao longo da sua evolução foram tendo o ferrão atrofiado.

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As caixas das abelhas vieram mudar as vidas dos membros da comunidade Instituto Peabiru

O problema é que muitas dessas abelhas acabavam mortas porque as populações “não sabiam manejar” e muitas vezes destruíam os ninhos ao tentar tirá-los das árvores. Com a introdução de caixas de madeira que permitem a multiplicação periódica das colmeias, o projecto propôs-se ensinar a tratar as abelhas “como um animal doméstico” e criar uma cadeia de valor a partir deste mel, suave e de cor clara. Daí que, no tal “fundo de quintal”, elas tenham passado a coexistir com os outros animais.

As caixas especiais usadas como colmeias tornaram-se um elemento habitual das casas e uma fonte de rendimento, sobretudo para as mulheres, que são quem mais se dedica a esta tarefa. “O manejo não tem nada a ver com as apis [com ferrão, que foram introduzidas no Rio de Janeiro em 1839 pelo padre português António Carneiro], as caixinhas são pequenas, não precisa de roupa especial, vai ver as crianças abrindo a caixinha, tirando o mel, as pessoas tratam como cachorrinho.”

O desaparecimento das abelhas, pelo menos na Amazónia, está ligado ao desmatamento. “É fogo todo o ano, vinte anos de fogo acabam com as abelhas, o solo endurece”, explica Meirelles. “Muito do meu trabalho pessoal é contra a presença do boi no planeta. As abelhas são uma das alternativas. Ninguém acreditava que a gente ia substituir cada boi por uma caixinha de abelha. É uma alegoria, mas é a realidade. Não tem mais espaço para tanto boi no planeta. É um animal de altíssimo impacto, e a abelha é de baixíssimo impacto.”

Um exemplo de como o desmatamento é contraditório: “Sem abelha nativa, não há produção de açaí. Hoje, o açaí é uma febre, as pessoas fazem o desmatamento selectivo, achando que tendo mais áreas de açaí por hectare, têm mais produção, o que não é verdade porque você tirou a árvore onde a abelha ficava.”

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As colmeias Instituto Peabiru

Metade dos alimentos têm uma relação directa ou indirecta com a polinização, sublinha Meirelles. “O assunto polinização era tratado separado da agricultura. Agora começa a haver uma conexão. No maracujá usa-se muito agrotóxico, mataram a abelha específica que polinizava e hoje têm que polinizar à mão, que é caríssimo.”

O problema, conclui, é que “a gente transformou a floresta em boi e agora em soja para alimentar animais que vão alimentar uma elite do planeta”. O mel é uma das formas de contrariar esse percurso destrutivo. De cor clara, mais líquido e com menor nível de açúcar, o mel das abelhas sem ferrão, comercializado pela Peabiru Produtos da Floresta (que até ao final do ano incluirá também farinha de mandioca e produtos de cacau), interessou já alguns chefs do Brasil e está a ajudar a mudar a vida de muitas comunidades da Amazónia.

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