Editorial

A Europa a resgatar as suas raízes e a sua visão

Se o país, lá para o final do ano, puder contar com um programa de 26 mil milhões de euros para injectar na sua economia e na sua protecção social, haverá sem dúvidas mais razões para acreditarmos que os danos da crise serão mais bem e mais facilmente superados

Os sinais de que a UE estava disposta a transformar os riscos da pandemia numa oportunidade para relançar a alma do projecto europeu não eram novos. Num curto espaço de tempo, o Eurogrupo definiu as regras de um pacote de 540 mil milhões de euros; há cerca de um mês, o Conselho Europeu aprovou as bases de um programa de recuperação; mais tarde, Merkel e Macron juntaram-se para defender um programa com pelo menos 500 mil milhões de euros para conceder subvenções e empréstimos aos Estados-membros em função das suas necessidades; esta quarta-feira, a Comissão foi mais longe: propôs uma iniciativa de 750 mil milhões de euros, financiada por empréstimos, como complemento ao Orçamento europeu, que será mantido 1,1 biliões de euros. A União poderá dispor de 2,4 biliões de euros para se reerguer.

Não sabemos ainda se o cinismo do grupo dos “frugais”, a força dos populismos, as suspeitas Norte/Sul ou Leste/Oeste vão tornar real a proposta da Comissão. Sabemos, sim, que a discussão sobre as visões do futuro na União recuperou uma parte essencial da memória histórica do continente e inspirou-se na visão solidária, humanista e esperançosa das suas raízes.

Basta ouvir o discurso de Ursula von der Leyen aos eurodeputados nesta quarta-feira para se perceber que parece haver um reencontro da Europa consigo própria, com as suas necessidades e com o seu destino: “Ou enfrentamos o problema individualmente, deixando países, regiões e pessoas para trás e aceitando uma União de ‘favorecidos’ e de ‘desfavorecidos’, ou percorremos o caminho unidos”.

O caminho abriu-se, mas ainda falta percorrê-lo. Ainda vamos ter de lidar com os profetas do antieuropeísmo da extrema-direita, do PCP ou do Bloco a falar em mais dependência, em oportunismo dos ricos, a fazer contas às transferências líquidas, ou, provavelmente, a considerar que esta resposta europeia é um tiro de “pressão de ar”. 

Certo é que se o país, lá para o final do ano, puder contar com um programa de 26 mil milhões de euros para injectar na sua economia e na sua protecção social, haverá sem dúvidas mais razões para acreditarmos que os danos da crise serão mais bem e mais facilmente superados. Chegará, então, o dia de discutir a forma como se vai aproveitar esta oportunidade para se reconfigurar o país.

Se se vai apostar no ambiente, na digitalização, na ciência ou economia real dos que criam riqueza ou se se persistirá em exclusivo na agenda do conformismo patrocinado pelo Estado que nos encanta há tantos anos. Mas essa será outra, e sem dúvida interessante, discussão.