Revista Torpor capta a vitalidade da arte durante a “travagem brusca” do confinamento

O editor João Paulo Cotrim foi ao encontro de um mundo pulsante de criatividade nas redes sociais, nas quais mergulhou para recolher pedaços e juntá-los numa revista digital, um espaço experimental e de memória.

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Desenho de death_by_pinscher para acompanhar ensaio de Filipe Homem Fonseca no terceiro bloco da revista death_by_pinscher

Torpor. Passos de voluptuosa dança na travagem brusca” é o nome da revista digital gratuita criada e disponibilizada pela editora abysmo, de João Paulo Cotrim, que procura captar o efeito que a crise pandémica e o confinamento tiveram “tanto nas artes como na vida”.

A revista é fruto dessa experiência e não foi planeada previamente: “resultou de sucessivos diletantes passeios pelas redes”, nas quais João Paulo Cotrim descobriu um mundo que palpitava criação artística, contou o editor à Lusa. “De súbito, a noite iluminava-se com pequenos palcos, páginas, imagens onde se reconhecia gente a pulsar e a criar. Tendo em conta que, apesar de serem a memória do mundo, as redes são voláteis e instáveis, tratava-se de recolher-caçar e dar a ler.” A Torpor nasce, então, da necessidade de ter um repositório onde compilar e guardar, para hoje e para memória futura, a arte nascida do confinamento.

A abysmo cedo se apercebeu, na crise pandémica, que os seus autores usavam as redes sociais para ensaiar novas formas de contar ou para publicar, e que não tinham parado de produzir: poemas, contos, pensamento, desenho, pintura, humor, muitas vezes misturando-se vários géneros e linguagens.

A par dos autores da casa, “um sem número de amigos ia comentando, produzindo e jogando nas redes, pelo que se afigurava urgente não se perder no fluxo aquilo que era bastante mais que espuma dos dias. A estes juntaram-se depois outros com trabalhos inéditos ou feitos propositadamente”, acrescenta João Paulo Cotrim.

A partir do convite inicial lançado pela editora, e muito depois, já na fase da divulgação, “surgiram ligações e contra-propostas, diálogos, desafios, até entre os autores”, como por exemplo a escritora Inês Fonseca Santos, que “respondeu” ao poema de Rita Taborda Duarte. Contas feitas, cerca de 30% dos conteúdos são inéditos. E neste contexto surgiram “vozes a que importa dar atenção”.

Sobre o título da revista, o escritor explica que é preciso “mergulhar nas palavras, que não se esgotam na sua superfície gasta. Torpor pode bem ser próximo, como a preguiça, ou o oposto: a dança”.

A revista digital foi lançada no dia 20 de Maio e é composta por seis “blocos”, ou números, que vão sendo disponibilizados de dois em dois dias, sempre em dias pares, até 30 de Maio. Já com quatro blocos disponíveis, a Torpor tem direcção editorial de João Paulo Cotrim e imagem gráfica de José Teófilo Duarte, e conta com a colaboração de artistas plásticos, pintores, ilustradores, fotógrafos, escritores, psicanalistas, divulgadores científicos, ensaístas, jornalistas, poetas, tradutores, designers, produtores, “criadores de toda a espécie”. Alberto Pimenta, António de Castro Caeiro, António Jorge Gonçalves, Nuno Saraiva, João Fazenda, Sérgio Godinho, Filipe Homem Fonseca ou António Mega Ferreira são alguns dos nomes presentes neste projecto. 

A reacção dos leitores “tem sido surpreendente e generosa”, afirma João Paulo Cotrim, “tendo em conta que tudo nasceu do nada, de um impulso, sem estrutura ou planeamento”. Para que tudo acontecesse, foi fundamental o trabalho de uma outra rede, a das ajudas e parcerias, a começar pela equipa de designers DDLx, que deu “forma ao objecto volúvel”. “Tem crescido o número de leitores que regressa para continuar no labirinto. Há muito por explorar, nascem subtilezas em todos os cantos”, assinala o editor. 

Os seis blocos, que não são estanques, têm temas: “A abrir”, “A pessoa primeiro”, “Quatro ou mais paredes”, “Voar baixinho”, “E mais além” e “Enfim”. A revista está disponível em www.torpor.abysmo.pt.

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