Editorial

O Governo e o medo das palavras

Querer chamar às respostas que se exigem uma simples “estabilização” é, por isso, pura poesia. O programa que aí vier vai ter de responder a um cenário de emergência económica e social.

O primeiro-ministro anunciou há mais de uma semana o lançamento de um programa de emergência económico e social, mas, nos últimos dias, decidiu tirar-lhe a carga dramática e trocou a “emergência” pela bem mais anódina e pacífica “estabilização”. Na política, como na vida, as palavras valem o que valem e é impossível não reconhecer na evolução do nome do programa uma certa vontade de suavizar a realidade para lhe dispensar medidas drásticas. O Governo, que no momento do confinamento não teve receio de chamar as coisas pelo nome, pode estar agora a regressar aos velhos rituais da política, que não dispensam a dissimulação e o palavreado oco. É um risco: se o programa que o Governo prepara esta semana com uma ronda pelos partidos for vazio e frágil, o país que resistiu ao choque com o vírus pode soçobrar no combate pela economia e pela paz social.

Os passos que vamos ter de dar nas próximas semanas exigem a mesma noção de emergência que o Governo, sob forte pressão do Presidente da República, acolheu pela primeira vez a 18 de Março. Os ministros da área económica e financeira e o próprio António Costa não se têm cansado de nos dar conta do número de empresas paradas, de trabalhadores em layoff ou já no desemprego e, por muito que as imagens de gente nas praias, o aumento do trânsito nas cidades ou o regresso de uns tantos aos restaurantes tendam a sublinhar a sensação de uma suposta normalidade, o país permanece no fio da navalha. Querer chamar às respostas que se exigem uma simples “estabilização é, por isso, pura poesia. O programa que aí vier vai ter de responder a um cenário de emergência económica e social.

Pode pensar-se que tudo se resume a uma questão semântica. Mas, vale a pena insistir, na política, como na vida, as palavras contam. Um programa de emergência confronta-nos com uma gravidade e uma urgência que são reais. O sublinhar de um estado de excepção confere a todos os partidos ou parceiros sociais uma obrigação e atribui-lhes um sentido de responsabilidade que a “estabilização” não dá. Nos últimos meses, o país provou que sabe viver sem medo das palavras. Em vez de aprender essa notável lição, o Governo dispensa-a e tenta regressar à política normal, talvez com o intuito de acalmar as hostes e limpar com seda uma realidade rugosa. É um erro.