Depois de A Guerra dos Tronos, Nathalie Emmanuel vai a Quatro Casamentos e um Funeral “onde ninguém acaba queimado por dragões”

Criada por Mindy Kaling, a série homónima do filme de 1994 traz um toque moderno e mais diverso: “É uma lufada de ar fresco ter um elenco inteiro que é verdadeiramente inclusivo”, diz a actriz Nathalie Emmanuel, em entrevista ao PÚBLICO. Depois de sete anos a ser Missandei em A Guerra dos Tronos, estava pronta para rumar a novos papéis — e quanto mais diferentes, melhor.

,Quatro Casamentos e um Funeral
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Nesta série, a actriz britânica Nathalie Emmanuel faz o papel da norte-americana Maya AMC

Nathalie Emmanuel não hesita em dizer que A Guerra dos Tronos mudou a sua vida. “Eu estava a trabalhar numa loja de roupa quando consegui o papel, portanto sair dessa experiência e ter tantas oportunidades é algo que não tomo como certo e que quero aproveitar ao máximo”, conta a actriz britânica ao PÚBLICO, por telefone. Uma dessas oportunidades foi o convite para ser a protagonista da série Quatro Casamentos e um Funeral (inspirado no filme homónimo de 1994), que se estreia esta terça-feira em Portugal no canal AMC, às 22h10. Além de ser o contraste que ansiava a nível profissional, a produção tem Mindy Kaling aos comandos e é também “uma lufada de ar fresco por ter um elenco que é verdadeiro inclusivo”.

“Quis desafiar-me e tentar a minha sorte o mais longe da [personagem] Missandei que conseguisse”, explica Emmanuel. A sorte bateu-lhe à porta quando viu o guião da comédia romântica Quatro Casamentos e um Funeral: “Interpreto uma americana, sou a protagonista, que é complexa, e tenho muito mais responsabilidades do que estava habituada a ter”, explica a actriz de 31 anos. “Segui uma comédia romântica em que basicamente ninguém acaba decapitado, queimado por dragões ou outra coisa verdadeiramente dramática”, brinca, referindo-se ao enredo de fantasia da série inspirada nos livros de George R. R. Martin. “E isto levou-me para fora da minha zona de conforto.”

A série começa da mesma forma que o filme — com uma sequência de “oh, fuck!” proferidos ao longo dos primeiros minutos. Há semelhanças entre as duas produções — e em ambas há quatro casamentos e um funeral — mas seguem rumos diferentes. Nathalie Emmanuel diz ser fã do filme que serviu de inspiração, e reconhece que a longa-metragem se destacou na altura em que foi feita por ter como protagonista uma personagem feminina com várias camadas que fugia do ideal de perfeição (Andie MacDowell). “E ainda que seja inevitável comparar os dois, cada um tem a sua própria identidade. Tanto um como o outro têm temas interessantes como a amizade, o amor, a lealdade, perdão, família e todos estes temas importantes — mas agora re-imaginados para uma audiência de 2019. Tornou-se em algo próprio e tem uma abordagem muito interessante”, comenta.

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Nathalie Emmanuel (Maya) e Nikesh Patel (Kash) AMC

Amizades cruzadas e amores não correspondidos

A comédia romântica em formato série chega a Portugal em Maio de 2020, mas já se estreou no ano passado nos Estados Unidos (na plataforma de streaming Hulu) e no Reino Unido — pouco depois do agridoce final de A Guerra dos Tronos e 25 anos depois do filme em que é baseado. A obra original de 1994 foi realizada por Mike Newell e escrita por Richard Curtis, com os papéis principais a serem ocupados por Hugh Grant e Andie MacDowell.

Agora, Nathalie Emmanuel interpreta Maya, directora de comunicação da campanha de um senador em Nova Iorque que regressa a Londres para o casamento da sua melhor amiga. A narrativa desenrola-se sobretudo em torno de um grupo de quatro amigos que estudaram juntos na faculdade e em dez episódios — exibidos semanalmente — há mais espaço para aprofundar as personagens do que em duas horas de filme. Há ainda mais espaço para amizades cruzadas, amores não correspondidos, rivalidades, traições e uma boa dose de drama. No elenco entra também Nikesh Patel, Rebecca Rittenhouse, John Reynolds, Brandon Mychal Smith, Zoe Boyle e Sophia La Porta.

“Para mim, as melhores comédias românticas são aquelas em que as mulheres não são este ideal em que são certinhas, inocentes e puras, mas sim aquelas em que as mulheres são mais complexas do que isso e têm camadas — nem sempre boas —, o tipo de mulher com que nos podemos identificar”, acredita a protagonista. É isso que diz acontecer em Quatro Casamentos e um Funeral.

Por trás desta adaptação está a criadora e produtora-executiva Mindy Kaling, cujo nome tem chegado aos ecrãs tanto enquanto actriz (Kelly Kapoor em The Office e Mindy Lahiri em The Mindy Project) como realizadora: Eu Nunca, The Mindy Project e alguns episódios de The Office. Sem poupar elogios, Nathalie Emmanuel diz que a realizadora “é um verdadeiro exemplo do que é uma mulher na liderança”, considerando-a “brilhante enquanto ser humano e enquanto profissional. Os bastidores acolhem um grupo muito diverso e nota-se a “sensibilidade diferente” de Kaling: “Sente-se a diferença na escrita e na energia de uma peça, nota-se que é escrito por uma mulher e por uma mulher de cor.”

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Nathalie Emmanuel e Rebecca Rittenhouse (Ainsley) AMC

“Ela pensou ‘vou fazer uma comédia romântica e vou pôr no centro dessa história duas pessoas de cor’ — o que é raro, para ser franca”, contextualiza. “Não é uma pessoa de cor que está num papel periférico. É uma lufada de ar fresco ter um elenco inteiro que é verdadeiramente inclusivo, até na forma como foi feito o casting, nas referências culturais, na forma como foi escrito, e na própria equipa que escreveu”, afirma.

Um processo de luto

Pode parecer desarmónico que seja uma britânica a vestir a pele de uma norte-americana no ecrã, mas Nathalie Emmanuel diz ter “adorado o desafio” — e que já o queria fazer há algum tempo. “Eu cresci a ouvir música americana, a ver filmes americanos. Não foi difícil, sinto que já estive a imitá-lo toda a minha vida, até quando éramos crianças e brincávamos ao faz-de-conta”, argumenta. “Sinceramente, era um objectivo meu a nível profissional” e está feliz por poder riscá-lo da lista. Mas ter uma pronúncia diferente num programa de entretenimento não é brincadeira de crianças. “Acaba por ser mais técnico, tenho de trabalhar com uma orientadora de dialecto para ajudar a polir alguns dos erros mais comuns”, conta. Ouvindo todas as suas palavras, a sua orientadora ia atentando nos sons das vogais e das consoantes e dando conselhos. “É como um músculo, é preciso prática e leva algum tempo”, resume.

Ter alguém a perscrutar a forma como fala não é algo propriamente novo para si: em A Guerra dos Tronos, a actriz que dá vida a Missandei tinha treinadores vocais cujo trabalho era garantir que o alto valiariano (um dos idiomas criados pelo autor George R.R. Martin e pelo linguista David J. Peterson, tal como o dothraki) estivesse a ser falado de forma correcta — mesmo sendo uma língua inventada.

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Nathalie Emmanuel como Missandei em A Guerra dos Tronos HBO

Foram seis temporadas, num total de 38 longos episódios, em que Emmanuel interpretou Missandei, a confidente e intérprete da rainha dos dragões Daenerys (Emilia Clarke). Admite que houve um processo de luto pela sua personagem do mundo ficcional de Essos e Westeros que interpretou ao longo de sete anos, com a qual sentia uma ligação forte, mas “estava preparada para descansar e experimentar coisas novas”. Além desta série, Nathalie Emmanuel também entra no filme F9 (da saga Velocidade Furiosa, em que já participou em 2015), previsto para 2021.

Por causa da pandemia de covid-19, a vida profissional de Emmanuel está, por enquanto, em suspenso, mas reconhece estar numa situação privilegiada sobretudo porque sabe que “há pessoas em situações tão complicadas que nem estão a conseguir dar sustento às suas próprias famílias”. Deixa o seu agradecimento aos profissionais de saúde, às pessoas que trabalham em lojas e que conduzem transportes públicos, “todas as pessoas que estão a manter os nossos países a funcionar e que são pessoas que não seriam consideradas essenciais no passado”, vinca. “Estão a pôr em risco as suas vidas e as vidas das suas famílias ao irem trabalhar todos os dias e estou muito grata por isso.” À distância, tem tentado manter o contacto com familiares e amigos, mais não seja ao ligar-lhes, para “criar esta rotina e estrutura de que todos precisamos”. E até tem dado aulas de ioga virtuais aos seus amigos e família.