,Unidade de Tratamento Intensivo
Reuters/Rosem Morton

Um dia a combater o coronavírus: profissionais de saúde partilham os momentos mais difíceis

Os enfermeiros e os médicos de um hospital em Maryland, nos Estados Unidos, relatam os momentos mais difíceis dos seus dias. Em tempos de pandemia, a covid-19 leva os profissionais de saúde a fazerem turnos de mais de 12 horas.

Os turnos são longos e os momentos desoladores dentro de um hospital em Maryland, nos Estados Unidos, onde enfermeiras e médicos tratam pacientes com covid-19 há semanas, impossibilitados de deixar as famílias entrarem para visitar os seus entes queridos às portas da morte. Depois de terminar o que para muitos foi um turno de mais de 12 horas, alguns enfermeiros e médicos de um hospital partilharam com a Reuters os momentos mais difíceis dos seus dias. O hospital pediu para não ser identificado.

Os profissionais de saúde concordam que uma das partes mais difíceis do trabalho — mais do que o horário exaustivo ou a adaptação ao trabalho numa nova unidade — é testemunhar o impacto nos doentes e nas famílias. Kimberly Bowers fez mais um turno de 13 horas e conta que o momento mais difícil do seu dia foi ver “uma jovem a morrer e a família não poder estar com ela”. 

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Julia Trainor, 23 anos, enfermeira que está a cuidar de pacientes com covid-19 numa unidade de cuidados intensivos cirúrgicos (UCI), posa para uma fotografia após um turno de 14 horas a 8 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton
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Kimberly Bowers, 44 anos, enfermeira que cuida de pacientes com covid-19 numa unidade de cuidados intensivos (UCI), posa para uma fotografia após um turno de 13 horas a 2 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

Nos últimos dias, um dos momentos mais difíceis para a enfermeira Julia Trainor foi entubar uma paciente “que já não conseguia respirar sozinha” e, depois, ligar para o marido para que pudesse falar com a esposa, já que a sua entrada no hospital não foi permitida. “Tive que lhe ligar e segurar o telemóvel junto ao ouvido da paciente, enquanto ele lhe dizia que a amava. Depois tive de lhe limpar as lágrimas”, conta Trainor, que trabalha numa unidade de cuidados intensivos (UCI) cirúrgicos. “Estou habituada a ver pacientes graves e a morrer, mas não há nada como isto.” Apesar de tudo, sente que o mais difícil para os pacientes é terem que enfrentar a doença com a “sensação de que estão sozinhos”.

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Kaitlyn Martiniano, 25 anos, enfermeira que trabalha numa unidade de bioconfinamento de pacientes com covid-19, posa para uma fotografia após um turno de 12,5 horas a 12 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

A doença altamente infecciosa covid-19, causada pelo novo coronavírus, já infectou 1.111.062 pessoas nos Estados Unidos e matou quase 65.000. No estado de Maryland, onde os residentes receberam indicações para ficar em casa desde 30 de Março de forma conter a propagação da doença, 24.473 testaram positivo para o vírus e 1.156 morreram. A enfermeira Kaitlyn Martiniano explica que, apesar de terem muitos pacientes e muitos estarem gravemente doentes neste momento, ainda não foram tão fortemente atingidos como Nova Iorque ou Seattle porque “muitas coisas estão fechadas e muitas pessoas estão em casa.”

Uma vez que o hospital não permite visitantes, o pessoal médico deve cuidar das necessidades físicas dos pacientes e oferecer o máximo de apoio emocional possível na ausência das famílias. “O momento mais difícil do meu turno é ver os pacientes infectados com covid-19 a morrer desamparados e sozinhos, sem os que amam ao seu lado “, diz Ernest Capadngan, enfermeiro na unidade de contenção biológica do hospital. Lisa Mehring, por sua vez, conta que o pior é ver as mães infectadas com filhos recém-nascidos, impedidas de os alimentar e acarinhar.

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Lisa Mehring, 45 anos, enfermeira que trabalha numa unidade de bioconfinamento de pacientes com covid-19, posa para uma fotografia após um turno de 12,5 horas a 2 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton
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Ernest Capadngan, 29 anos, enfermeiro que trabalha numa unidade de biocontenção para pacientes com covid-19, posa para uma fotografia após um turno de 12 horas a 3 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

Comunicar com as famílias das vítimas é um peso muito grande para os profissionais de saúde: não podem infringir as regras que proíbem as visitas, mesmo quando a família liga em desespero. “Hoje tive um paciente que caiu da cama e tive de ligar à esposa dele e dizer-lhe que não o podia visitar, apesar de ela ter implorado repetidamente para vir vê-lo”, diz Tracey Wilson, enfermeira. 

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Tracey Wilson, 53 anos, enfermeira que cuida de pacientes com covid-19 numa unidade de cuidados intensivos (UCI), posa para uma fotografia após um turno de 12 horas a 3 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

"Um dos momentos mais difíceis foi ter de ver um familiar de um paciente com covid-19 a despedir-se através de um iPad”, diz Tiffany Fare, enfermeira da unidade de contenção biológica. “Foi difícil, não consigo imaginar o quão difícil deve ser despedirem-se. Não podes ver os teus entes queridos e depois eles desaparecem para sempre.” Fare tem 25 anos e acabou um turno de 13 horas. “A minha equipa tem sido muito boa. Não nos conhecíamos, viemos todos de unidades diferentes dentro do hospital e para nos unirmos e trabalharmos tão bem enquanto equipa foi uma jornada, mas acho que é isso que me está a dar esperança”, diz.

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Tiffany Fare, 25 anos, enfermeira que trabalha numa unidade de biocontenção para pacientes com covid-19, posa para uma fotografia após um turno de 13 horas a 6 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

O médico especializado em emergências Kyle Fischer explica à Reuters a incerteza que vive todos os dias. “Como é um novo vírus, não temos qualquer experiência com ele. Estou habituado à maioria das doenças e sei como as tratar, mas isto, não tenho nenhum ponto de referência. Sei o que ouço de Nova Iorque, sinto que já li todos os jornais, mas ninguém sabe quais as respostas correctas, por isso há uma enorme incerteza e as pessoas estão muito, muito doentes. É fácil duvidar se estás ou não a fazer a coisa certa quando pensas que estás, porque nunca se sabe bem”, reflecte Fischer.

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Kyle Fischer, 35 anos, médico especializado em emergências que está a cuidar de pacientes com covid-19, posa para uma fotografia após um turno de 12 horas a 10 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

Jacqueline Hamil saiu de um turno de 12 horas em que esteve no comando do serviço de urgência. O momento mais difícil do seu turno foi ter uma paciente muito doente e, devido ao risco de contágio, ter que pôr apenas uma enfermeira a cuidar dela. “Acabou por estar na sala umas seis ou sete horas com pausas mínimas e foi difícil para mim estar no comando e saber que ela estava presa na sala e realmente não havia nada que eu pudesse fazer para a ajudar”, diz Hamil.

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Jacqueline Hamil, 30 anos, enfermeira registada que cuida de pacientes covid-19 num serviço de urgência, posa para uma fotografia após um turno de 12 horas a 6 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

Há muito poucas oportunidades para descansar durante o turno, mesmo com os colegas a olharem uns pelos outros e a tentar revezarem-se quando alguém precisa de uma pausa. Cheryll Mack, uma enfermeira nas urgências, diz que tenta sair 15 minutos durante o dia para respirar. "A propagação da covid-19 afectou muito o sustento e a vida de muitas pessoas. Por isso gostaria de pedir não apenas a uma pessoa, mas a todas as pessoas em todo o mundo, que se juntem, porque isto é algo que ninguém pode combater individualmente”, continua Mack, com 46 anos e a fazer turnos de 12 horas.

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Cheryll Mack, 46 anos, enfermeira registada que cuida de pacientes covid-19 no serviço de urgência, posa para uma fotografia após um turno de 12 horas a 10 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

Cada turno termina com um processo de descontaminação. Os enfermeiros e médicos devem retirar o equipamento de protecção individual e tomar banho o mais rapidamente possível, antes de entrarem em contacto com a família em casa. “Tomo um duche muito longo e com a água muito quente. Depois costumo sentar-me no sofá e ler um livro ou assistir a algum reality show despreocupado para tentar aliviar a tensão”, diz Martine Bell.

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Martine Bell, 41 anos, enfermeira que cuida de pacientes covid-19 num serviço de urgência, posa para uma fotografia após um turno de seis horas a 6 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

A enfermeira conta que “o mais difícil em tudo isto tem sido cuidar de outros profissionais de saúde”. “Atinge-te em cheio e é assustador quando vês alguém que poderias ser tu a dar entrada e agora estás a tomar conta dele.” Bell acrescenta, ainda, que é assustador pensar no que acontecerá quando os profissionais de saúde começarem a adoecer: “Quem vai cuidar do público?” “É muito stressante, estamos todos no limite. Não sabemos quem vem a seguir, ou quão doentes vão ficar, ou se vamos ter um monte de pessoas, ou se não vamos ter ninguém. É um momento muito stressante e completamente incomum para todos nós.”

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Laura Bontempo, 50 anos, médica especializada em emergências que está a tomar conta de pacientes covid-19, exibe ainda o seu equipamento de proteção pessoal que usa quando vê pacientes, enquanto posa para uma fotografia após um turno de nove horas a 5 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

Laura Bontempo, médica das emergências, diz que retira a roupa e o equipamento de trabalho numa tenda de descontaminação que instalou à porta de casa, envolve-se numa toalha e corre para dentro para tomar banho. Depois coloca as batas sozinhas na máquina de lavar para não contaminar as outras roupas. “Estou habituada a tratar doentes, trato doentes o tempo todo. Mas é muito diferente saber que o paciente que estás a tratar é um risco para ti também. Esta é a principal diferença aqui. Ninguém que trabalhe em hospitais tem medo de tratar pessoas doentes, só querem manter o pessoal seguro e os pacientes seguros ao mesmo tempo”, diz Bontempo, com 50 anos.

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Meghan Sheehan, 27 anos, enfermeira que cuida de pacientes covid-19 num serviço de urgência, posa para uma fotografia após um turno de 12 horas a 6 de Abril de 2020. Reuters/Rosem Morton

Meghan Sheehan tem 27 anos e é enfermeira. Acabou mais um turno de 12 horas: “O mais difícil é o medo que vive dentro de todos nós. Há muita coisa desconhecida neste momento. Tememos o que vai acontecer amanhã, qual vai ser o aspecto do serviço de emergência quando chegarmos na próxima semana. Temos receios pelos nossos próprios colegas, se vão adoecer. Também tememos ser portadores assintomáticos e trazer este vírus para casa, para as nossas famílias e para os nossos entes queridos. Tem havido muito medo sobre os mantimentos, se os mesmos vão acabar. E depois, obviamente, há o medo de ver os pacientes e não ser capaz de fazer nada do que normalmente podemos fazer para ajudar a salvar-lhes a vida.”

Vai para casa todas as noites sem ligar o rádio e usa o tempo tranquilo para pensar sobre o turno e os seus pacientes. Quando chega, esforça-se por não o fazer mais e não reviver o dia. “Entro em casa, tomo banho imediatamente e tento jantar com a minha família, sempre sem falar sobre isso”, diz. “A noite é definitivamente a parte mais difícil, porque estás constantemente a pensar no que o dia seguinte te trará.”

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