De casa para o hospital: como é dar à luz em plena pandemia?

Nancy Pedroza foi mãe pela primeira vez em pleno surto de covid-19. Queria ter o bebé em casa, mas algumas complicações obrigaram-na a fazer o parto num hospital no Texas, Estados Unidos. “É assustador pensar que vais estar num ambiente contaminado que te pode pôr a ti ou ao teu bebé em risco.”

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Mãe pela primeira vez e sem ideia do que esperar, Nancy Pedroza estava convencida de que o hospital era o sítio mais seguro para ter o seu bebé.

Mas essa convicção transformou-se numa dúvida quando, no final de Março, a maioria dos estados norte-americanos ordenaram que os residentes ficassem em casa e que hospitais e médicos tomassem novas precauções para proteger mulheres grávidas e os seus bebés contra o surto de coronavírus que abala o país.

Grávida de 40 semanas, Nancy pediu então a uma parteira que a ajudasse a dar à luz em casa. Ela e o companheiro, Ryan Morgan, estavam prestes a tornar-se pais em plena pandemia.

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Nancy abraça Ryan enquanto tem contracções. Com eles está a doula Nichollette Jones. Reuters/ Callaghan O'Hare

“As coisas estão a mudar tão rapidamente”, diz Nancy, 27 anos, que vive com Ryan em casa dos seus pais, em Forth Worth, no Texas. Nancy teve que ir sozinha às consultas de obstetrícia, quando antes podia levar Morgan, o seu pai ou a sua doula, uma “assistente de parto”.

Mas o que realmente assustou Nancy foi a incerteza acerca de quem seria autorizado a estar ao seu lado no hospital, quando o seu bebé viesse ao mundo. Teria que escolher entre Ryan ou a sua doula, porque o hospital apenas permitia um acompanhante — e avisou-a de que a política podia mudar e passar a não permitir nenhum acompanhante.

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“Foi assustador pensar que poderia ter que o fazer sozinha”, afirma, sublinhando que os médicos e enfermeiros não foram aqueles que a apoiaram durante a gravidez. “Não há nada como ter alguém de quem gostas, e que gosta de ti, que está disposto a segurar-te na mão e dizer-te que vai ficar tudo bem.”

Enquanto a covid-19 põe o mundo inteiro em pausa e muda todos os aspectos do quotidiano, mulheres entram na maternidade com uma mistura de ansiedade, medo e frustração. Em alguns países, apesar de não estar a acontecer nos Estados Unidos, estão a ser banidos todos os acompanhantes da sala de parto. Outros separam as mães dos recém-nascidos.

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No início de Abril, com o tempo de gestação a terminar e ao saber que a Medicaid (programa de saúde social dos EUA) não cobria um nascimento em casa, Nancy considerou fazê-lo na mesma, sem qualquer assistência médica.

Entrou em contacto, através do Facebook, com a parteira Susan Taylor — que não só baixou o preço de assistência, como também ofereceu a sua casa quando soube que a mãe de Nancy tinha ficado desconfortável com a ideia de o neto nascer no seu quarto ou casa de banho.

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Nancy e a sua doula, Nichollette Jones. REUTERS/Callaghan O'Hare

Mas Nancy estava a ficar sem tempo. Legalmente, a parteira teria que transferir os cuidados a Nancy para um hospital, caso fossem ultrapassadas as 42 semanas de gravidez. Além de que uma ecografia mostrou que os fluidos do bebé estavam baixos, o que poderia causar complicações durante o parto.

Depois de um rastreio de membrana, uma sessão de quiropraxia, uma vigorosa caminhada e a utilização de uma bomba de extracção de leite para estimular o parto, as contracções começaram.

Após várias horas de trabalho de parto numa banheira em casa de Susan, Nancy começou o parto — mas os batimentos cardíacos do bebé caíram de 130 para 30, o que obrigou a parteira a chamar uma ambulância.

Começam as contracções. REUTERS/Callaghan O'Hare
Nancy começa a ter contracções dentro de uma banheira. REUTERS/Callaghan O'Hare,REUTERS/Callaghan O'Hare
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São utilizadas bombas de extracção de leite para acelerar o parto. REUTERS/Callaghan O'Hare
A ambulância chega para levar Nancy. REUTERS/Callaghan O'Hare
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De máscaras na cara, os paramédicos colocaram Nancy numa maca, levaram-na para a ambulância — acompanhada de Ryan —, que seguiu para o Texas Health Harris Methodist Hospital Southwest. Era uma da manhã.

Susan também seguiu com Nancy na ambulância, sempre atenta aos batimentos do bebé. Mas quando chegaram ao hospital, a parteira não a pôde acompanhar.

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“Depois de me ter sido administrada a epidural e de me ter acalmado um pouco, percebi que ainda poderia fazer o parto sem ter que fazer uma cesariana. Ao mesmo tempo, ouvir os batimentos do bebé trouxe-me tanto conforto que já nem quis saber se estava num hospital”, refere Nancy, que trabalhava como massagista antes de engravidar.

Depois de um parto que durou muitas horas, às 5h55 de 8 de Abril, nasceu um bebé saudável: Kai Rohan Morgan, com 3,770 quilos.

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Susan Taylor mede a temperatura a Kai Rohan Morgan. REUTERS/Callaghan O'Hare

O hospital deu máscaras a Nancy e Ryan, para que usassem sempre que alguém entrasse no quarto. Os profissionais também usaram máscaras e luvas quando ajudaram com a amamentação e quando foram verificar os sinais vitais do bebé.

“É assustador pensar que vais estar num ambiente contaminado que te pode pôr a ti ou ao teu bebé em risco”, diz Nancy. “O que me deixa ansiosa é ver toda a gente com aquela indumentária e a serem tão inflexíveis sobre a sua utilização.”

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Já em casa, Nancy amamenta o filho. REUTERS/Callaghan O'Hare