Covid-19: com as morgues cheias, Nova Iorque enterra os mortos não reclamados em valas comuns

A cidade de Nova Iorque já não guarda por 30 dias os corpos não reclamados por temerem a sobrelotação das morgues e estão a ser abertas valas comuns no cemitério da ilha de Hart. A cidade tem mais casos e mortes por coronavírus que a China.

Hart Island
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O cemitério da ilha de Hart foi referido, num relatório de 2008, como um dos locais para se enterrarem corpos em contexto de pandemia LUCAS JACKSON/Reuters

Devido à covid-19 e à sobrelotação das morgues, a cidade de Nova Iorque deixou de guardar os corpos não reclamados e tem enterrado todos os dias dezenas em valas comuns no cemitério da ilha de Hart. O estado de Nova Iorque, o epicentro da pandemia nos Estados Unidos, registou na quinta-feira mais dez mil infecções de coronavírus, totalizando mais de 159 mil, e mais de sete mil mortos. 

Trabalhadores com fatos de protecção biológica escavaram pelo menos duas valas comuns, de acordo com imagens de drone divulgadas pela imprensa internacional, e têm enterrado duas dúzias de corpos por dia, cinco dias por semana, diz a Reuters. Antes do enterro, os corpos são envoltos em sacos de plástico e colocados em caixões de pinho, com o nome do morto a ser rabiscado em letras grandes em cada caixão, para facilitar uma possível exumação no futuro. 

De acordo com um relatório de 2008 redigido pelo médico legista da cidade de Nova Iorque na época, Charles Hitch, a ilha de Hart foi identificada como um potencial local para depositar corpos em contexto de uma pandemia com 2% de letalidade, matando entre 51 mil a 200 mil pessoas numa população de 8,2 milhões da cidade. Mas, avisou o documento, o cemitério teria “limitada capacidade de enterro” em semelhante contexto. 

As autoridades nova-iorquinas costumavam guardar em câmaras frigoríficas os corpos não reclamados por 30 dias, mas, em contexto de pandemia, garantem que continuar a fazê-lo ameaça sobrecarregar as morgues, com capacidade para 800 a 900 corpos nas suas instalações e para outros quatro mil nos seus 40 camiões frigoríficos, estacionados na ilha de Randall, a sul da ilha de Hart. 

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Camiões frigoríficos, estacionados na ilha de Randall. BRENDAN MCDERMID / Reuters

O estado de Nova Iorque registou na quinta-feira quase mais dez mil infecções, totalizando 161 mil (mais de 84 mil só na cidade de Nova Iorque), mais que Espanha ou Itália. Mais de sete mil pessoas morreram em todo o estado, das quais mais de cinco mil apenas na cidade de Nova Iorque. O estado é o centro da pandemia nos EUA, que, de acordo com a Universidade Johns Hopkins, tem 475 mil casos e 17.925 mortes confirmadas – é o país com o maior número de infectados

Desde o século XIX que o cemitério da ilha de Hart, onde apenas se chega por barco, é o local privilegiado para se enterrar os corpos de mortos não reclamados ou quando os familiares não têm capacidade financeira para custear um funeral. Por semana, antes da pandemia, eram enterrados à volta de 25 corpos. Os trabalhos estavam a cargo dos presos de uma das prisões da ilha de Rikers, mas o risco da pandemia obrigou as autoridades a contratarem trabalhadores. 

Mas nem sempre foi assim. Num primeiro momento, a cidade de Nova Iorque ofereceu um salário de seis dólares por hora (valor elevado para o normal nas prisões) e toda a protecção individual aos reclusos de Rikers Island, das prisões com piores condições no estado de Nova Iorque, diz o Intercept. Apenas os reclusos já condenados receberam a proposta. 

“[Nas prisões de Rikers] os protocolos que estão a chegar do Centro de Controlo de Doenças não podem ser cumpridos: há lavatórios partidos, não há desinfectante para as mãos, as pessoas não têm acesso a sabão e, num momento em que lhes pedem distanciamento social, há um ambiente em que 100 pessoas dormem numa cela”, denunciou ao Intercept Justine Olderman, directora executiva da organização Bronx Defenders. 

O primeiro caso de coronavírus foi detectado em meados de Março na prisão de Rikers, num guarda prisional que morreu e outros da sua unidade apresentaram sintomas da doença (tosse), tendo entrado em contacto com reclusos. Desde esse primeiro caso, 287 presos e 441 funcionários do sistema de prisões nova-iorquino, no qual se incluem as prisões de Rikers, testaram positivo para coronavírus. 

Há semanas que defensores de direitos civis têm alertado para a existência de uma tempestade perfeita nas prisões, devido ao ambiente propício à disseminação da doença. Para diminuir a sobrelotação, as autoridades libertaram na quinta-feira mais 28 reclusos, depois de já terem aberto as portas a outros 755.