Opinião

O jornalismo brasileiro entre a isenção e a omissão

Até quando a imprensa dará voz ao estapafúrdio para cumprir a missão de parecer imparcial?

Uma das primeiras lições que aprendemos no jornalismo é a obrigatoriedade de ouvir os dois lados de uma história. É isso que nos dá a impressão — repito, impressão — de sermos isentos e imparciais. No entanto, em tempos sombrios, como os que pairam sobre o Brasil, essa fórmula parece trabalhar contra os factos. Torna-se não apenas engessada pela tradição, mas não-condizente com a nossa obrigação: informar.

Diariamente, lemos ou vemos declarações recolhidas pela imprensa que reconsideram tudo: a terra ser redonda, a existência real de uma pandemia e até os efeitos positivos de uma ditadura militar. Falas que passam a ser normalizadas pelos media, que procuram estar abastecidos de declarações dos pólos políticos opostos para usar o contraponto. Porém, a questão que surge é: isso é jornalismo?

Recentemente, uma fábula do professor Jonathan Foster, da Universidade de Sheffield, em Inglaterra, tornou-se famosa. “Se alguém lhe diz que está a chover e outro diz que não está a chover, o nosso trabalho não é publicar os dois lados. O nosso trabalho é olhar para a janela e descobrir o que é verdade”. Infelizmente, a grande imprensa do Brasil parece estar numa casa sem vista para lá para fora.

Os nossos microfones, em nome de uma falsa isenção, continuam apontados para personalidades que não agregam com informações ou visões. Destinamos espaço e holofotes para pensamentos, no mínimo, não-republicanos. Confundimos opinião com ciência. Normalizamos o absurdo. Pode falar a favor da tortura, da censura ou do fascismo: os nossos gravadores estão ligados para o ouvir!

Na semana em que o Brasil atingiu os dez mil mortos pelo coronavírus, continuamos a dar espaço a quem considera a pandemia uma “gripezinha”. No dia em que ultrapassamos a dezena de milhares de mortos, o nosso Presidente disse que faria um churrasco. Na manhã seguinte, desmentiu a sua própria declaração. E nós, o corpo jornalístico, como já passou a rotina, aceitamos o modus operandis.

Todos os dias, bem cedo, o Presidente do Brasil sai do Palácio da Alvorada para cumprir os compromissos da sua agenda. Antes disso, arranja um tempo para conversar com um grupo de apoiantes que, diariamente, amontoa-se à frente da residência presidencial. É durante esse acto — que até já passou a fazer parte do turismo político de Brasília — que Jair Bolsonaro aproveita para fazer teatro. Sabedor que todas as câmaras de televisão estão apontadas para si, ouve os manifestantes e aproveita para encurralar a imprensa. Os jornalistas, por sua vez, são alocados numa pequena cerca ao lado dos manifestantes. É dali que dezenas de microfones esperam uma possível declaração do Presidente.

Às vezes para, em outras apenas vai embora. Facto que, na prática, faz pouca diferença, já que o espaço serve apenas para discursos e não para conferências de imprensa. É nesta altura que Jair Bolsonaro distribui insultos, gestos obscenos e discursos agressivos sob aplausos dos apoiantes. É o momento em que todas as emissoras tornam-se no veículo oficial do Governo, a exibir a versão do seu agrado. O sucedido que se repete faz-me questionar: por que a imprensa insiste em estar ali?

Entendo que Jair Bolsonaro é o Presidente do Brasil e que sua voz é relevante. No entanto, ele não quer conversar com a imprensa. Ele rejeita os jornalistas. Ele manda-os “calarem a boca”. Por que é que estamos ali? Para servir, ao mesmo tempo, de personagem e plateia para o show do Messias? Para não perdemos a audiência dos 33% da população que ainda o apoia?

Nas palavras de membros dos próprios média, estamos ali para demonstrar isenção. Dizer que ouvimos todos os lados. No entanto, apenas assinamos e propagamos mensagens de ódio. Todos os dias, somos espancados, mas estamos prontos, arrumados e ansiosos para o nosso encontro com o Presidente.

Facto curioso e exemplo desse fenómeno é que a imprensa brasileira tornou-se surda quando é conveniente. É o que acontece com o ex-presidente Lula da Silva, que parece ainda estar preso para boa parte dos meios de informação. Ele, por si só, como um ex-líder que deixou o governo com 87% de aprovação popular, é uma voz que merece ser ouvida. E essa obrigação torna-se ainda mais clara por Lula ser o principal opositor do governo Bolsonaro. Sem a voz dele, existem meros sussurros ou cartas de repúdio — manifestações rotineiras para os brasileiros em tempos de pandemia. 

Entendo que o contra-argumento é que Lula é um condenado da Justiça. No entanto, mesmo que nos ceguemos sobre qualidade das provas que o condenaram, pergunto: qual é o manual de redacção ou o acordo jornalístico que indica essa prática? Por que é que a imprensa não faz o mesmo com Michel Temer – também ele ex-Presidente e condenado por corrupção? Acredite, até Fernando Collor de Melo, o Presidente que confiscou as poupanças dos brasileiros, voltou a ser uma fonte de opinião nos dias actuais. 

Aliás, a imprensa brasileira especializou-se em ouvir Fernando Henrique Cardoso, ex-Presidente do Brasil que decidiu levar a vida como um diplomata de um bairro de elite de Paris. Há anos que não é uma figura activa na política nacional, mas passou a ser considerado para cada nova polémica insurgente de Brasília. Quase como um guardião da democracia. 

Indago-me quando é que nós, os jornalistas, vamos prestar contas com o público?

A imprensa ficou em cima do muro no golpe de 2016 e, na mesma época, aprendeu a rir das polémicas declarações de um deputado do baixo clero. Político este que se elegeu com esses discursos, que hoje é o Presidente do Brasil e que faz questão de demonstrar que continua com os mesmos pensamentos:

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, um lema da ditadura militar brasileira, que lembra o “Alemanha acima de tudo”, do nazismo alemão. “O Estado é laico, mas ele é cristão”, renegando as outras religiões. “E daí?”, disse após o Brasil atingir a marca de cinco mil mortos pela covid-19. Essas são apenas algumas das dezenas de declarações fascistas de Bolsonaro.

Um governo que teve um ex-secretário da Cultura que copiou, num vídeo oficial, parte de um discurso e da cenografia de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazi. Um governo que tem como actual secretária da Cultura uma actriz que cantarola músicas da ditadura militar quando o Brasil alcançava a marca de dez mil mortos na pandemia e que abandona uma entrevista por não aceitar responder a perguntas. Um governo que, resumidamente, retira o status de Ministério da Cultura e trata-a como uma mísera secretaria do Ministério do Turismo. 

Aliás, com frequência assistimos o governo a flirtar com o nazismo. O último caso aconteceu no sábado, dia 9 de Maio, numa publicação no Twitter. Ao listar as medidas de combate à pandemia da covid-19, a Secretaria de Comunicação usou o seguinte lema: “o trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil”. A frase gerou revolta nas redes sociais, por ter muitas semelhanças com “o trabalho liberta”, utilizada nas fachadas de campos de concentração alemães. No entanto, o governo – outra vez – negou a coincidência. 

Pergunto-me quando é que a imprensa irá começar a considerar o governo fascista e antidemocrático. Quantas manifestações pró-ditatura militar o Presidente brasileiro ainda terá que incitar? Quantos ataques aos outros poderes governamentais ele ainda terá que fazer? Quantas afrontas à democracia ainda terão que existir? Existe a necessidade de ser tolerante com os intolerantes?

Segundo um dos principais manuais de redacção do Brasil, a palavra “ditador” aplica-se à “dominação de uma sociedade por meio de um governo autoritário exercido por uma pessoa ou um grupo, com repressão e supressão ou restrição de liberdades individuais”. O governo Bolsonaro não preenche todos os requisitos, mas cumpre, à risca, muitos deles. E pior: demonstra trabalhar para preencher os outros. Quando é que começamos a considerar este governo ditatorial?

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