O teletrabalho chegou à administração pública e há um guia para ajudar os funcionários a viver a pandemia

Documento pretende apoiar nos desafios sentidos pelos cerca de 64 mil funcionários públicos que estão a trabalhar a partir de casa.

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As escolas públicas fazem parte dos serviços que estão encerrados e com os funcionários a trabalhar a partir de casa Ricardo Lopes

Desde o início de Março que há milhares de portugueses em teletrabalho. Na administração pública, são cerca de 64 mil os funcionários que viram as suas vidas profissionais alteradas e levaram o trabalho para casa. No sentido de “proporcionar informação e recursos a esses trabalhadores, para garantir um equilíbrio num contexto completamente novo e introduzido de uma forma muito rápida”, foi lançado o Guia “Trabalhar a Partir de Casa e Cuidar da Saúde Mental”, anuncia a secretária de Estado para a Inovação e Modernização Administrativa ao PÚBLICO.

O documento desdobra-se em diferentes áreas que vão desde um conjunto de informações gerais sobre o vírus, dicas para melhorar as rotinas de trabalho, mas também apoiar nas dinâmicas pessoais e familiares, dando conselhos que vão da saúde e bem-estar à situação financeira.

Segundo Maria de Fátima Fonseca, a multidisciplinaridade dos colaboradores das 11 entidades que apoiaram a construção deste documento foi “determinante para a riqueza de conteúdos que o guia tem”. Da equipa fizeram parte dirigentes, não dirigentes, pessoas com diferentes backgrounds académicos e outras sem formação superior, tudo isso de forma a “trazer um conjunto de perspectivas e experiências vividas durante a pandemia”, descreve.

O enfoque dado a diversas áreas da vida dos trabalhadores revela-se particularmente importante nesta fase, diz a secretária de Estado, uma vez que “da organização do trabalho à vida pessoal, é preciso reforçar as competências a diversos níveis de forma a atingir um equilíbrio sobretudo psicológico e emocional”.

O guia, de 115 páginas, faz parte dos 22 projectos produzidos para o Plano de Trabalho Colaborativo para a Administração Pública que tem como objectivo apoiar o trabalho a partir de casa. “É preciso garantir que a Administração Pública continua a funcionar, e continua. Mas é também preciso não esquecer neste percurso que estamos a falar de pessoas que estão a desempenhar funções num contexto exigente”, defende a governante.

A secretária de Estado diz ser “particularmente gratificante conseguir evidenciar que a Administração Pública é mais moderna do que se pode pensar” e diz esperar que o trabalho colaborativo, como o que ocorreu na criação deste documento, possa ser implementado no sector.

Moderar expectativas

A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) foi parte integrante da equipa que produziu o documento e, segundo o bastonário Francisco Miranda Rodrigues, existe nesta altura um “risco acrescido da ocorrência de mais situações de stress e burnout”.

Por isso, “este guia é extremamente importante não só pelas dicas e recomendações directas que dá aos trabalhadores quanto ao gerir das suas emoções, mas também pelos conteúdos que aborda nas áreas da vida pessoal e familiar que podem ter um grande impacto na saúde mental”, lembra.

Desde a gestão da componente financeira, que acarreta maior ansiedade nesta altura, até à importância do desporto e da cultura, que ajudam a desanuviar, o bastonário saúda a iniciativa. É “uma das primeiras iniciativas de âmbito nacional que se fazem para a Administração Pública em matéria de promoção da saúde mental” nos locais de trabalho. Por isso, é importante que este exemplo chegue a todo o país, na “promoção da saúde mental nos locais de trabalho que, até hoje, ainda não existiu”, deseja.

O guia, afirma o bastonário, não deve ser visto como um manual, pois “pode servir também como um ponto de partida com inúmeros recursos e contactos para outro tipo de ajudas”, como por exemplo, linhas de apoio psicológico ou de apoio em caso de violência doméstica.

Francisco Miranda Rodrigues alerta que “é muito importante que sejam moderadas as expectativas quer pelos líderes de equipas, quer pelos trabalhadores em geral” no que toca aos índices de produtividade. “Estarmos à espera de que numa situação destas possamos ter exactamente o mesmo tipo de rendimento no trabalho e que não haja perdas”, seria um erro, avisa.

Por isso, devem ser as próprias lideranças a “dar o exemplo no sentido de mostrarem compreensão e aceitação sobre as limitações que existem em termos de rendimento, limitações estas que variam individualmente no caso de cada trabalhador”.