Economia só reabre se as pessoas sentirem confiança para voltar à rua

No final da reunião com os economistas, o Governo revelou que há uma ideia partilhada por todos: as pessoas precisam de se sentir seguras no regresso à normalidade. E é essa a chave para a reabertura da economia. O uso de máscara social parece cada vez mais certo no novo normal.

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Nuno Ferreira Santos
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A economia só reabre se as pessoas tiverem confiança para voltar à rua para trabalhar e consumir sem correrem o risco de ficarem doentes com covid-19. E esta é a chave do plano que o Governo quer pôr no terreno dentro de “algumas semanas” para o levantamento gradual das restrições. No fim de reuniões que duraram o dia todo desta terça-feira com mais de 20 economistas, o ministro da Economia não avançou com uma data para a reabertura da actividade económica, nem antecipou se o próximo estado de emergência já vai conter medidas de alívio ao confinamento, mas sinalizou que a saída do isolamento pode ser feita através da utilização de máscaras comunitárias. “Uma medida de protecção em grande escala que até ao momento não dispúnhamos verdadeiramente”, disse.

Pedro Siza Vieira falava aos jornalistas em São Bento depois de uma reunião entre o Governo, economistas e as entidades que fazem previsões para a economia portuguesa. “De uma maneira geral, há uma partilha importante da ideia de que temos de ir construindo uma confiança colectiva na capacidade que tivermos de proteger as populações, de proteger os elementos mais frágeis da população, à medida que nos formos preparando para o levantamento das restrições à actividade económica e à circulação dos cidadãos. Isso é uma componente muito importante da nossa estratégia de transição”, disse Pedro Siza Vieira.

O ministro explicou que é preciso “criar na população, nas empresas, a confiança de que estão reunidas as condições para o retorno da actividade gradual progressiva mas que irá sendo feita”, justificou, referindo que “daqui a algumas semanas, quando se começar a equacionar o levantamento destas restrições a mesma autodisciplina, a mesma capacidade de gerir o risco” será pedida às pessoas mas também às empresas que têm de ter capacidade de assegurar um ambiente de trabalho em que as pessoas se sintam protegidas de uma possível contaminação. 

O ministro não entrou em detalhes sobre como isso será feito mas deixou alguns sinais ao destacar que nesta terça-feira foram conhecidas normas técnicas que permitem a construção de máscaras sociais com maior protecção e que as empresas portuguesas já têm capacidade de as fabricar em “grande quantidade” e que “poderão ser distribuídas pelos circuitos de comercialização”.

Siza Vieira salientou ainda que as decisões que o Governo vier a tomar sobre reabertura da actividade vão incidir sobre as actividades em que houve decisão administrativa de fecho. Ou seja, o comércio. As restantes actividades como a indústria ou a hotelaria mantêm-se abertas uma vez que as empresas que fecharam foi por falta de fornecimento ou de procura. 

A reunião de Costa com os economistas aconteceu no dia em que foram conhecidas novas previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) de acordo com as quais o PIB deverá cair este ano 8%, um cenário bem mais pessimista que o apresentado no final de Março pelo Banco de Portugal que apontava para uma descida do PIB até 5,7%. Um inquérito feito pelo Banco de Portugal e pelo Instituto Nacional de Estatística, divulgado também ontem, mostra o impacto das medidas de isolamento: na semana antes da Páscoa, 82% das empresas estavam a produzir ou a funcionar, mas mais de um terço com uma quebra de produção superior a 50% na facturação.

Siza Vieira admitiu que os números vão ser “duros” mas lembrou que, na entrevista que deu à TVI, o ministro das Finanças defendeu que a quebra anual do PIB não deverá ser superior a dois dígitos. 

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Reunião com economistas foi por videoconferencia

O que disseram os economistas a Costa

Um dos temas mais falados no encontro foi o da confiança, confirma Susana Peralta, professora na Nova SBE. “Esta crise, além de tudo o resto, deixa um lastro de desconfiança das pessoas no sistema, e portanto, quando se fala em reactivar a economia tem de se perceber como é que se transmite confiança”, afirma a economista. A este nível, a ideia de que o que causa a crise económica não são as medidas de contenção, mas sim a pandemia foi referida para tornar claro que, se o Governo optar por abrir demasiado cedo as actividades, isso só terá resultado se as pessoas se sentirem confiantes. “Em Portugal conseguiu-se conquistar alguma confiança em relação à capacidade que temos para lidar com a pandemia, não se pode desperdiçar isso”, diz Susana Peralta.

Na sua intervenção, a economista centrou-se principalmente nas questões de mais longo prazo, tentando dar contributos para uma questão fundamental: Em que é que podemos basear na nossa economia agora que alguns sectores importantes como o turismo podem estar perante uma alteração muito significativa da procura. A professora da Nova defendeu que deve aproveitar-se a oportunidade que constitui a consciencialização entre os portugueses do que significa um risco sistémico.

“Finalmente percebemos o que é um risco a sério, um daqueles que vira tudo do avesso, em que o nosso modo de vida deixa de ser igual. E assim podemos estar mais dispostos a investir para nos protegermos doutros riscos da mesma natureza, como o risco das alterações climáticas ou o risco de terramotos”, afirma, defendendo que um eventual plano de relançamento económico europeu poderia ser usado em Portugal para investir na orla costeira e para preparar as cidades para um sismo, por exemplo. Outra ideia bastante referida pelos economistas foi a de que Portugal deve tentar, desta vez, “não fazer uma retoma baseada no trabalho de má qualidade”, já que a crise económica agora pode ser mais dolorosa e profunda por causa das desigualdades existentes ou dos vínculos precários.

João Cerejeira, professor da Universidade do Minho, especialista em questões relacionadas com o mercado de trabalho, diz que outra das preocupações expressas nas intervenções dos economistas foi a possibilidade de a crise de liquidez que agora se vive se poder transformar a prazo numa verdadeira crise de solvabilidade para as empresas. E refere também os alertas de que se poderá estar perante a necessidade de uma transformação estrutural da economia, em que alguns sectores perdem o seu peso enquanto outros o ganham. “Vai-se assistir ao encerramento de empresas e vai ter de se fazer uma reorientação das pessoas. O sector do turismo a médio prazo, por exemplo, dificilmente vai ter o volume de procura que tinha até agora, e será preciso encontrar uma solução”, afirma o economista, assinalando que “será necessário apostar fortemente em políticas de requalificação”.

Em relação à resposta mais imediata à crise, João Cerejeira defendeu, na sua intervenção, que as políticas públicas devem ser previsíveis, simples, “para não deixar ninguém de fora por questões administrativas ou tecnológicas”, e flexíveis, já que “se se impõem demasiadas condicionalidades aos apoios, há um conjunto de agentes que ficam de fora”. Uma ideia sugerida foi a criação de um “crédito estatal básico”, em que quem o desejar pode receber um empréstimo do Estado que depois é pago como adicional do IRS dos anos seguintes. Seria uma forma, defende o economista, de responder ao problema de liquidez que muitos portugueses enfrentam, por exemplo, os mais de metade dos desempregados que não se qualificam para o subsídio de desemprego.

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