Maria de Sousa (1939-2020), uma vida sem muros

A sua geografia científica decorreu entre Inglaterra, Escócia, Estados Unidos e Portugal, onde regressou em 1984, quando a ciência portuguesa estava muito pouco desenvolvida. A sua geografia de vida incluía muitos mundos, da cidadania às artes.

Maria de Sousa
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Maria de Sousa em Maio de 2014 Nuno Ferreira Santos

A imunologista Maria de Sousa morreu na noite desta terça-feira, aos 81 anos, nos cuidados intensivos do Hospital São José (em Lisboa), vítima de covid-19 e depois de uma semana de internamento. Professora emérita da Universidade do Porto, Maria de Sousa percebeu a migração organizada dos linfócitos, células do sistema imunitário, e tem hoje por essa descoberta o seu nome em qualquer manual sobre o sistema imunitário. Tal como também tem o seu nome indissociável de uma visão inovadora sobre a conversa entre o sistema imunitário e o metabolismo do ferro.

Nasceu em Lisboa em 1939. Depois de se ter formado em Medicina em 1963, pela Faculdade de Medicina de Lisboa, começou a sua carreira dedicada à investigação científica. Inglaterra, Escócia, Estados Unidos e Portugal – assim se pode desenhar em traços largos a geografia científica da sua vida.

Entre 1964 e 1966, esteve nos Laboratórios de Biologia Experimental em Mill Hill, em Londres, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi em Londres que fez uma grande descoberta que consta hoje em qualquer manual de imunologia.

Até 1964, pensava-se que todos os tipos de linfócitos – células do sistema imunitário fundamentais no combate a doenças e infecções – vinham do timo, uma glândula situada no peito, entre o esterno e o coração. Pensava-se ainda que, depois do nosso nascimento, os linfócitos migravam do timo e iam proliferar e amadurecer nos órgãos linfáticos periféricos, como os gânglios linfáticos e o baço. Maria de Sousa percebeu que não era bem assim.

Fez experiências em ratinhos, aos quais foi removido o timo logo a seguir ao nascimento. Verificou então que esses ratinhos sem timo continuavam, afinal, a ter linfócitos nos órgãos linfáticos periféricos. Mais: percebeu que nestes órgãos linfáticos periféricos dos ratinhos desprovidos de timo havia espaços deixados vazios – ou seja, espaços destinados precisamente aos linfócitos do timo. Portanto, nos órgãos linfáticos periféricos havia assim áreas para os linfócitos do timo (os linfócitos T) e áreas para outro tipo de linfócitos, que estavam ocupadas por eles. Por outras palavras, havia áreas nos órgãos linfáticos periféricos dependentes dos linfócitos que migravam do timo. Essa zona reservada aos linfócitos do timo é hoje conhecida por Área T.

Estas descobertas foram publicadas na revista Journal of Experimental Medicine e na revista Nature, respectivamente em Janeiro e Dezembro de 1966. O título do primeiro artigo científico com as descobertas de Maria de Sousa é precisamente “Áreas dependentes do timo nos órgãos linfáticos em ratinhos recém-nascidos timectomizados”.

Mais tarde, em 1971, Maria de Sousa deu um nome ao fenómeno de migração dos linfócitos de diferentes origens – tanto do timo como da medula óssea, onde se forma outro tipo de linfócitos – com destino a microambientes específicos nos órgãos linfáticos periféricos para aí se organizarem em áreas bem delineadas. Chamou-lhe “ecotaxis”.

Em suma, a viagem dos linfócitos tem lugar reservado à partida.

Em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, publicada em 2014 no PÚBLICO, Maria de Sousa falava das suas descobertas relativas à Área T e à ecotaxis. “Creio que todos saberão que temos linfócitos a circular. O que muitos não saberão é que os linfócitos não são uma população homogénea, com a mesma pátria. Uns nasceram no timo e saíram para a circulação no período a seguir à nascença (período neonatal), outros fora do timo, na medula óssea. Essa distinção não era clara em 1964. Ainda se pensava que talvez viessem todos do timo”, explicava então.

“O meu trabalho consistiu na observação de lâminas de cortes de órgãos linfáticos periféricos de ratinhos que tinham tido o timo removido no período neonatal. As minhas observações demonstravam que esses animais timectomizados à nascença ainda tinham linfócitos. E mais, os espaços vazios de linfócitos eram distintos dos espaços onde havia linfócitos, o que significava que as células pareciam saber para onde ir.” Mais tarde, estes resultados foram demonstrados por uma técnica (a auto-radiografia) que permitia seguir células marcadas radioactivamente. “As do timo iam para o território a que chamámos ‘área dependente do timo’ e que hoje é conhecida por Área T. E achei esse fenómeno de as células saberem para onde vão tão importante que lhe dei um nome: ecotaxis.”

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Maria de Sousa em Maio de 2014 Nuno Ferreira Santos

Quando deu o nome à migração dos linfócitos, Maria de Sousa já tinha partido de Londres rumo à Escócia, em 1967. Na Universidade de Glasgow doutorou-se então em Imunologia em 1972, permanecendo na Escócia até 1975. Daí seguiu para os Estados Unidos – para o Instituto Sloan Kettering para a Investigação do Cancro (em Nova Iorque), a Faculdade de Medicina de Cornell (em Nova Iorque) e a Faculdade de Medicina de Harvard (em Cambridge, Boston).

O regresso a Portugal

A partir de 1978 começou a dedicar-se ao estudo de uma possível função do sistema imunitário na protecção da toxicidade do ferro. Este interesse conduziu-a a estudos do sistema imunitário em doentes com uma doença genética de sobrecarga de ferro – a hemocromatose hereditária, doença mais frequente no Norte de Portugal do que no resto do país. É esta linha de investigação que a traz ao Porto.

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Maria de Sousa a ser entrevistada nas Jornadas Nacionais de Investigação Científica e Tecnológica em 1987, em Lisboa DR

Em 1984, regressou a Portugal, tendo vindo a contribuir para o desenvolvimento científico e académico do país, integrando como professora o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e como investigadora o Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), actual Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), ambos no Porto.

Logo em 1985 tornou-se professora catedrática de Imunologia no ICBAS. Também a partir de 1985 criou uma equipa de investigação na área da hemocromatose, repartida por três instituições da Universidade do Porto: o ICBAS, o Hospital Geral de Santo António e o então novo IBMC. Ainda em 1985, iniciou no ICBAS o mestrado de Imunologia.

“Em 2018 celebrámos os 40 anos do postulado dela, que veio depois a confirmar-se, de que o sistema imunitário era importante para o controlo da toxicidade do ferro – uma visão completamente inovadora do sistema imunitário. Foi uma área totalmente nova no mundo”, sublinha a hematologista Graça Porto, lembrando que Maria de Sousa criou no IBMC um grupo de investigação sobre o ferro e o sistema imunitário. “Com o tempo, vários grupos internacionais se interessaram e hoje é um tópico de referência. Não há nenhuma conferência da área da biologia do ferro que não tenha o tópico do ferro e do sistema imunitário. Para ela deve ter sido um gosto enorme ter este trabalho reconhecido e propagado. Não vai parar nunca”, frisa Graça Porto, que começou a trabalhar com Maria de Sousa assim que ela veio para Portugal. Quando Maria de Sousa se jubilou, foi precisamente formado um novo grupo no i3S para continuar o trabalho de investigação clínica e básica em biologia do ferro, que Graça Porto coordena.

Foi a 16 de Outubro de 2009, aos 70 anos, que se jubilou da actividade docente no ICBAS, dando a sua última aula, intitulada “Uma escola sem muros”.

Muito destacado por muita gente foi o contributo de Maria de Sousa para o desenvolvimento da ciência em Portugal graças à criação, em 1996, do Programa Graduado em Áreas da Biologia Básica e Aplicada (GABBA, na sigla em inglês). Em 1996, o mestrado de Imunologia do ICBAS fundiu-se com três outros mestrados da Universidade do Porto, nas faculdades de Medicina e de Ciências, resultando no primeiro programa doutoral de uma universidade portuguesa em biologia básica e aplicada. Maria de Sousa foi uma das fundadoras do GABBA, que já permitiu a centenas de investigadores fazerem o doutoramento.

Também se destaca o seu contributo para a implantação da avaliação externa e independente dos centros de investigação portugueses, que não existia na década de 1980 em Portugal, ao ter sido convidada para coordenar esse processo na área das ciências da saúde por José Mariano Gago (1948-2015), então presidente da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), que deu origem à actual Fundação para a Ciência e a Tecnologia, a principal financiadora pública do sistema científico português.

Nesse sentido, ficaram memoráveis as Jornadas Nacionais de Investigação Científica e Tecnológica, em 1987, organizadas por Mariano Gago e que reuniram a pequena comunidade científica portuguesa no Fórum Picoas, em Lisboa. Mariano Gago ouviu durante essas jornadas a comunidade científica, as suas propostas de desenvolvimento da ciência no país, as suas necessidades, dificuldades, atrasos, e depois lançou o Programa Mobilizador de Ciência e Tecnologia, para financiar projectos de investigação. Consideradas hoje um dos marcos da política de ciência e investigação em Portugal, Maria de Sousa esteve presente nas jornadas de 1987, tal como esteve presente em 2017 na celebração dos 30 anos desse encontro da comunidade científica.

Manuel Heitor, o actual ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, relembra agora num texto publicado no PÚBLICO que foi com Maria de Sousa, juntamente com o neurocientista Fernando Lopes da Silva, “que aprendemos a ser sujeitos em Portugal a uma avaliação científica independente, quando José Mariano Gago era presidente da JNICT no final dos anos 1980”: “Inicialmente testada para as ciências da vida sob a liderança da Maria, esta prática que hoje nos parece tão óbvia só viria a ser alargada a todas as outras áreas científicas há 25 anos, com a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia.”

Outros mundos

No rol de distinções e reconhecimento público incluem-se o Grande Prémio Bial de Medicina em 1995, o Prémio Estímulo à Excelência em 2004 e a Medalha de Ouro de Mérito Científico em 2009, ambos atribuídos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Seguiram-se, por exemplo, o Prémio Universidade de Coimbra 2011 e o Prémio Universidade de Lisboa 2017.

Ao mais alto nível, foi condecorada por três presidentes da República: em 1995 por Mário Soares com o grau de grande-oficial da Ordem Infante D. Henrique; em 2012 por Aníbal Cavaco Silva com o grau de grande-oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada; e em 2016 por Marcelo Rebelo de Sousa com a grã-cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, insígnia destinada a distinguir o mérito literário, científico e artístico.

O Presidente da República destaca não só a carreira académica e científica “brilhante” como também o “exemplo de cidadania” de Maria de Sousa. “Deixa um legado incontornável na ciência e um exemplo maior de rigor, de exigência e de compromisso cívico e cultural”, pelos quais o Presidente da República “gostaria de agradecer em nome de Portugal”.

“Na ciência, foi fundamental no desenvolvimento de várias instituições de referência em Portugal, bem como em todos os passos importantes na consolidação do sistema científico português ao longo das últimas três décadas. Nesse papel, soube sempre combinar, de modo inigualável, uma grande exigência científica com um elevado sentido crítico”, refere a mensagem. “Era uma mulher inconformada e persistente, procurando sempre transmitir um sentido de exigência a todos”, sublinha ainda Marcelo Rebelo de Sousa, que recentemente visitou Maria de Sousa. “Era também alguém que tinha uma visão ampla do mundo, que não se confinava à academia, mas que abraçava com entusiasmo a relação entre conhecimento e sociedade, ciência e arte.”

Essa visão vasta do mundo que incluía a sociedade, a ciência e a arte manifestou-se numa amplitude de interesses. Desde a música – estudou piano no conservatório nacional – até à poesia que escrevia. Do lado mais pessoal, a hematologista Graça Porto ressalta “a própria personalidade da professora Maria de Sousa”: Ficará recordada como uma das maiores cientistas da sua geração. Sempre pôs a ciência à frente de uma vida de conforto pessoal. Nunca esteve preocupada com cargos ou títulos, mas a sua influência como líder acabava por ser inevitável, tal era o seu espírito visionário em todas as áreas – na ciência, no ensino e até nas relações pessoais.”

Era importante o lugar da cultura na sua vida. “Era uma apreciadora de música, de literatura e de artes em geral e era ela própria autora de extraordinários poemas e textos de reflexão. Nunca é de mais ler os textos de Maria de Sousa e reflectir sobre eles. Mesmo as prosas são poesias. Esta maneira de se exprimir também se reflectia na sua escrita científica”, considera Graça Porto.

Em relação a livros científicos, tem dois – Lymphocyte Circulation (de 1981) e Iron in Immunity, Cancer and Inflammation (de 1989) – que correspondem grosso modo às suas grandes marcas científicas, a circulação dos linfócitos e o ferro. Quanto à poesia, publicou A Hora e a Circunstância (1988, Gradiva). Também em 1988, a Gradiva publicou a tradução portuguesa de um livro que tem Maria de Sousa como protagonista, Um Mundo Imaginado: Uma História de Descoberta Científica, da escritora e socióloga June Goodfield, que durante cinco anos acompanhou o dia-a-dia da vida de uma imunologista portuguesa nos Estados Unidos. Maria de Sousa não quis que o seu nome aparecesse na primeira edição e escolheu ela própria o pseudónimo Anna Brito, sendo a sua identidade revelada em edições posteriores. Em 2014, Maria de Sousa publicou Meu Dito Meu Escrito – De Ciência e Cientistas com um Monólogo da Caneta (Gradiva), com as suas intervenções públicas.

Quando José Mariano Gago morreu, dedicou-lhe o poema “JMG, 17 de Abril de 2015”: “Há os que passam e os que ficam/Há os que ficam onde os seus restos mortais ficarem ou/ cinzas forem dispersas/ (…)/Só um ou outro raro e belíssimos no fazer e no fazer-se/Ficará./Como este assim/Que será sempre encontrado no tempo todo/Na história da ciência na Europa/E neste nosso país (…).”