Covid-19: E se o investimento militar fosse para a saúde? É o que reclama uma petição mundial

O International Peace Bureau denuncia que os gastos militares são “hoje 50% maiores que no fim da Guerra Fria” e pede uma inversão das prioridades a favor da saúde, para se combater a pandemia de coronavírus. Avançou com uma petição mundial que será entregue a 1 de Setembro deste ano à Assembleia-Geral das Nações Unidas.

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O investimento no sector militar tem atingido recordes desde o fim da Guerra Fria LUSA/Valda Kalnina

Teme-se que os serviços de saúde públicos não aguentem o embate da pandemia da covid-19 e receia-se os efeitos que a paralisação da economia terá na vida de milhares de milhões de pessoas, preparando-se pacotes económicos nunca antes vistos. Mas os Estados continuam a investir enormes recursos na compra e venda de armas e há quem peça que as prioridades se invertam, para se priorizar a saúde em vez da guerra. 

O International Peace Bureau (IPB), a organização não-governamental pacifista mais antiga do mundo, avançou com uma campanha mundial para se abandonar a prioridade da guerra a favor da saúde e de gastos sociais, alicerçados num novo contrato social mundial, para se fazer um combate alargado à pandemia e suas consequências. Para isso, está a promover uma petição que será entregue à Assembleia-Geral das Nações Unidas a 1 de Setembro, na sessão de abertura dos trabalhos. 

“Estamos a testemunhar as consequências de decisões políticas irresponsáveis que levaram a um subinvestimento na saúde. Os sistemas de saúde estão, por todo o mundo, a atingir os limites da sua capacidade e os heróicos profissionais de saúde estão na linha da frente sob imensa pressão”, lê-se na petição. “Privatizações, medidas de austeridade e o sistema neoliberal levaram a que sistemas de saúde nacionais, regionais e locais estejam à beira do colapso”, continua o documento, sublinhando que a saúde é um direito humano. 

O coronavírus já infectou mais de um milhão e meio de pessoas por todo o mundo e matou mais de 100 mil, de acordo com a contagem da americana Universidade Johns Hopkins. Os Estados Unidos, país com fraca protecção na saúde, tem o maior número de casos no mundo (475 mil e 17.925 mortes) e o epicentro da pandemia é a Europa, ao ter mais de 800 mil casos e superar as 60 mil mortes. 

Mas a situação pode inverter-se nas próximas semanas e meses. A Organização Mundial de Saúde tem alertado para os riscos de a pandemia se alastrar sem freios na América do Sul e em África, atingido os mais pobres, que perfazem a grande maioria das populações. Os muito frágeis cuidados de saúde e a impossibilidade de respeitarem as orientações de isolamento social, uma vez que vivem em casas sobrelotadas e com poucas condições de higiene, faz com que o cenário seja assustador. O isolamento social é nesses países um privilégio ao qual a maioria não tem acesso. 

Daí que o investimento massivo na saúde deva ser uma prioridade, argumenta o IPB, fundada em 1891 em Berlim, na Alemanha. Os Estados do G20 devem pôr o “desarmamento e a paz no centro das suas decisões políticas e desenvolver uma nova agenda para o desarmamento que inclua a proibição das armas nucleares” e avançar com uma estratégia mundial em prol da saúde e contra a pobreza. “O mundo gasta um trilião de dólares em gastos militares todos os anos e vai gastar um trilião de dólares em novas armas nucleares nos próximos 20 anos. A militarização é o caminho errado para o mundo tomar”, continua a petição. 

“Quanto dinheiro dedicámos à saúde e quanto dinheiro ao campo militar e à compra de armas?”, questionou Jordi Calvo, vice-presidente do IPB, em declarações ao jornal espanhol Público. "Pedimos aos países mais ricos do mundo para se questionarem sobre o que fizeram até agora: demasiados recursos foram dedicados à nossa militarização. Devemos agora usá-los para enfrentar crises de saúde”.

O IPB calcula que o aumento em gastos militares é “hoje 50% maior que no fim da Guerra Fria”, alimentando conflitos regionais e nacionais por todo o mundo. A venda de armas “está nuns espantosos 1,8 triliões de dólares por ano, enquanto a NATO exige mais gastos aos seus Estados-membros”, criticou Calvo, referindo-se ao investimento mínimo de 2% de Produto Interno Bruto de todos os membros da Aliança Atlântica, acordado em 2014 e desde então reafirmado a cada cimeira de líderes.

A lista é liderada pelos Estados Unidos, perfazendo 36% dos gastos mundiais (649 mil milhões de dólares), de acordo com um relatório de Abril de 2019 do Stockholm International Peace Research Institute. Segue-se a China, com 14% dos gastos mundiais (250 mil milhões, aumento consecutivo nos últimos 24 anos), a Arábia Saudita, a Índia e a França. 

Mas se a lista for alargada para incluir os Estados do G20, conclui-se, continua Calvo, que representam “82% dos gastos militares mundiais”, tendo no seu território “98% das armas nucleares”, sector militar que exige um investimento muito significativo. Daí o foco da organização estar nesse grupo de países que até ao momento se recusou a discutir a inversão de prioridades nas suas cimeiras. 

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