Crónica

Covid-19: e quando isto tudo acabar?

Antes da chegada do vírus cujo nome, ao melhor estilo Voldemort, não me apetece pronunciar, nós tínhamos planos.

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Jordan Whitt/Unsplash

Olho para a rua e vejo que continuam a brincar. O mais pequeno corre atrás de uma bola cor de laranja, de bracinhos no ar, e o mais velho pedala à velocidade da luz num triciclo que, claramente, não foi fabricado para suportar tamanho entusiasmo. Brincam sozinhos, como tem acontecido ao longo das últimas semanas, protegidos do mundo e dos outros pelos muros brancos do quintal. E eu, mesmo sem querer, pergunto-me como será quando tudo isto acabar.

Antes da chegada do vírus cujo nome, ao melhor estilo Voldemort, não me apetece pronunciar, nós tínhamos planos. Não eram planos excêntricos, reparem, mas queríamos levar o mais pequeno ao Jardim Zoológico pela primeira vez por estes dias, eu deveria estar na Feira do Livro de Lisboa e tínhamos combinado que, no final do ano, viajaríamos em família para um mercado de Natal numa cidade com neve. Mas a verdade é que, depois disto tudo, não sei quais destes planos farão sentido ou, pior ainda, não sei quais destes planos o medo me vai deixar cumprir.

Sei que o optimismo é importante para a nossa sanidade mental e que, eventualmente, as coisas acabarão por se normalizar. Mas não sei quando, e isso assusta-me. Não sei quando é que vou voltar a estar absolutamente tranquila com os meus filhos num parque infantil cheio de crianças, não sei quando é que vou voltar a utilizar transportes públicos sem prender a respiração, não sei quando é que vou conseguir voltar a um aeroporto sem sentir um aperto forte no peito. Temo que o meu medo seja mais duradouro do que a pandemia.

Ao contrário do que se tem apregoado, não sei se tudo o que estamos a viver agora nos vai mudar para melhor. Acredito que possa servir para valorizarmos mais algumas coisas, para nos reorganizarmos enquanto sociedade… Mas também acredito que esta ansiedade acabará por deixar marcas, pelo menos a curto prazo, até mesmo nas coisas mais insignificantes, como a bolacha que os nossos filhos deixam cair ao chão e voltam a comer ou os beijinhos que damos de forma quase indiscriminada.

Há bocado, curiosamente, li uma publicação que perguntava qual é a primeira coisa que vamos fazer quando este pesadelo acabar. Quase todas as respostas eram óbvias: abraçar os pais que são também avós, passear à beira-mar, fazer uma jantarada com amigos... E eu quero muito fazer todas essas coisas. Mas antes de qualquer uma delas preciso de respirar fundo, muito fundo, uma e outra vez. Preciso de abraçar estes dois que agora disputam a posse de um carrinho de brincar e aceitar que a liberdade é uma bênção e que não vou poder mantê-los afastados do mundo, presos pelos muros do quintal, para sempre.

Quando tudo isto acabar, terei de aceitar que protegê-los é deixá-los livres e que a vida continua. Com mais ou menos medo. Com mais ou menos ansiedade. Quando finalmente pudermos abrir novamente as portas de casa e da vida, com mais ou menos cicatrizes, teremos que seguir caminho. Mesmo que doa um bocadinho e que estes dias sejam sempre uma sombra, uma espécie de marca indelével de medo e angústia.

Quando tudo isto acabar, os dois meninos que brincam no quintal terão que reaprender muitas coisas. E eu também.

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