O homem que descobriu que lavar as mãos salvava vidas – e foi ridicularizado por isso

Ignaz Semmelweis, um médico húngaro do século XIX, percebeu como combater uma misteriosa febre pós-parto que estava a matar muitas mulheres numa enfermaria. A culpa era dos seus colegas que não lavavam as mãos. Acabou ostracizado num manicómio.

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Daniel Rocha

A imagem de um homem careca de bigode com olhos de sono usando um fato e laço antigos apareceu na homepage do Google. Era um boneco de Ignaz Semmelweis, um médico húngaro do século XIX que ficou conhecido como o pioneiro da lavagem das mãos. Descobriu que esta prática de higiene básica, considerada hoje completamente normal, obteve resultados fantásticos ao conseguir interromper a propagação de uma infecção em 1847, durante uma experiência realizada na enfermaria da maternidade de um hospital em Viena.

Mas se Semmelweis fosse vivo, ficaria provavelmente admirado por perceber que vários milhões de pessoas ouviam hoje as suas súplicas por causa de uma pandemia que já causou milhares de mortos em todo o mundo. Isto porque naquela altura nem mesmo os médicos se preocupavam em lavar as mãos. A maioria dos seus contemporâneos não chegou a ouvir os avisos de Semmelweis.

Hoje, quando “lavar as mãos” é gritado por todas as bocas das autoridades de saúde pública, dos anúncios luminosos nas auto-estradas aos apelos dos médicos em todo o mundo, a história da descoberta anti-séptica de Semmelweis ganhou uma nova ressonância. Os conselhos deste homem, que já foi descrito como um mártir em vida e um herói esquecido, só se tornaram uma boa prática depois da sua morte precoce. Como o Google sublinhou na sua homenagem, o médico húngaro influenciou “várias gerações seguintes, ao mostrar que lavar as mãos é uma das formas mais eficazes de prevenir a disseminação de doenças”.

“Infelizmente, é preciso uma situação como a que estamos a viver para Semmelweis receber o que lhe é devido”, comenta ao The Washington Post o médico norte-americano Jordan H. Perlow, um obstetra de Phoenix que ensina na Faculdade de Medicina da Universidade do Arizona. “É o tipo de coisa que, da nossa perspectiva do ano de 2020, nos faz pensar ao olhar para trás: ‘Como é que algo tão primitivo, básico e fundamental como lavar as nossas mãos foi visto de uma maneira tão negativa?’”

Ignaz Philipp Semmelweis nasceu na Hungria em 1818 e começou a exercer na maternidade do Hospital Geral de Viena em 1846, depois de ter estudado Medicina. Passado pouco tempo, sentiu-se muito perturbado pela taxa de mortalidade materna extraordinariamente elevada registada numa das enfermarias. Num espaço onde trabalhavam médicos e estudantes de Medicina, 13% a 18% das novas mães morriam de uma misteriosa doença conhecida como “febre pós-parto”, ou febre da puérpera, segundo o artigo da revista British Medical Journal que sintetiza a sua investigação. Por comparação, na enfermaria nas mãos das parteiras, apenas 2% das mulheres morriam da febre. Ninguém conseguia explicar a discrepância.

Semmelweis começou a investigar. Escrutinou tudo, das condições ambientais às multidões que entravam em cada enfermaria, tentando apontar factores que pudessem provocar um surto de casos de febre. Mas a única diferença óbvia estava nas parteiras.

O que é que os médicos faziam de diferente das parteiras? “Tudo estava em questão; tudo parecia inexplicável; tudo era duvidoso”, escreveu, em 1861, no seu livro A Etiologia, Conceito e Profilaxia da Febre Pós-Parto. “Só o número de mortes era uma realidade inquestionável.”

Finalmente, percebeu o que se passava depois de um colega médico ter morrido com aquilo que parecia ser um caso de febre pós-parto a seguir a ter-se cortado com um bisturi utilizado durante uma autópsia realizada numa das mulheres. Os médicos, apercebia-se Semmelweis, dissecavam cadáveres infectados com as mãos nuas e desprotegidas. Depois, com essas mesmas mãos contaminadas, iam fazer partos. “Os médicos estavam a inocular os seus doentes com a bactéria”, diz Perlow. “Estavam literalmente imersos em pus durante horas.” 

A bactéria ainda não tinha sido compreendida como agente patogénico, mas Semmelweis aproximava-se da reposta ao problema: ele acreditava que os médicos que realizavam autópsias deviam estar a espalhar à sua volta partículas invisíveis de “matéria orgânica animal em decomposição” através dos seus dedos. Por isso, pediu a todas as pessoas que tivessem que examinar uma mulher na sala de partos para lavarem as suas mãos com uma solução de hipoclorito de sódio (lixívia) antes de entrarem, especialmente aqueles que tinham acabado de tocar em cadáveres.

Em poucos meses, o resultado desta simples mudança higiénica era evidente e surpreendente: a taxa de mortalidade materna desceu para 1% a 2%, igualando a das mulheres da enfermaria das parteiras.

Contra a teoria miasmática

Mas podia o simples acto de lavar as mãos ser responsável pelo salvamento daquelas vidas? A alguns colegas de Semmelweis, soava simplesmente a loucura que a culpa fosse das partículas invisíveis nas mãos dos médicos.

Dana Tulodziecki, professora de Filosofia da Ciência na Purdue University, explicou ao The Washington Post por que é que estas ideias pareciam tão radicais à luz do que a ciência da época defendia. As pessoas acreditavam na “teoria miasmática”, que dizia que os odores tóxicos que flutuavam no ar eram os principais responsáveis pela propagação das doenças. Se se preocupavam em lavar as mãos, defende Tulodziecki, era porque estavam a tentar ver-se livre do cheiro, e não das partículas.

“Ninguém quis pensar que a responsabilidade pela morte de todas aquelas mulheres era dos médicos”, afirma Tulodziecki. “Ninguém gostou disso. Especialmente porque a enfermaria com as parteiras tinha uma taxa de mortalidade baixa, quando os médicos deveriam saber mais do que elas.”

De qualquer forma, a professora de Filosofia da Ciência sublinha que o médico húngaro não estava sozinho ao ter identificado a possível ligação entre a febre pós-parto e as práticas pouco higiénicas dos médicos. Em 1843, o norte-americano Oliver Wendell Holmes escreveu um artigo científico em que defendia essa relação e o britânico James Young Simpson também a estudou, de uma forma independente, na mesma altura que Semmelweis.

Junto da comunidade médica da época, Semmelweis tinha um problema de comunicação e tinha alguma dificuldade em explicar por que é que lavar as mãos resolvia o problema. Não se expressava bem em alemão, explica Perlow, por isso evitava falar da sua descoberta em conferências médicas ou escrever em revistas médicas. No hospital, deixou que fossem os seus colegas que viram os benefícios nas enfermarias a espalhar a boa nova. Mas os seus superiores ridicularizaram as suas ideias, ignoraram a sua investigação e continuaram a defender a teoria dos miasmas. Em 1849, Semmelweis abandonou o hospital.

Como o artigo da British Medical Journal notava em 2004, também não ajudou que Semmelweis insultasse aqueles com opiniões diferentes e que “acusasse os seus superiores de causar a morte das mães”. Nem que só tivesse publicado detalhadamente os resultados da sua investigação em 1861, passados 14 anos sobre as suas experiências. O livro, descrevem os seus críticos, incluindo Tulodziecki, sofre de falta de objectividade e de um raciocínio científico pouco rigoroso.

Em 1865, depois de sofrer um “esgotamento cerebral”, Semmelweis foi internado num manicómio. Morreu de sépsis aos 47 anos, depois de uma ferida na mão ter infectado. As teorias sobre o que aconteceu ao médico no final da sua vida oscilam entre aqueles que acreditam que o ostracismo a que foi votado pelos círculos médicos contribuiu para a sua deterioração mental e os que pensam que sofria de demência precoce.

Anos depois da sua morte, no seguimento do desenvolvimento da teoria microbiana das doenças e de muitos avanços no campo da esterilização, a investigação de Ignaz Semmelweis foi finalmente aceite. Não se esqueçam de lavar as mãos.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

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