Coronavírus

Milão: “Se calhar, não compensa destruir o Sistema Nacional de Saúde”

Milão é uma cidade paralisada. Paolo Marelli fotografou as primeiras semanas da epidemia na cidade e crê que, agora, se vivem momentos de tensão e reflexão. "Os próximos seis meses serão bastante duros.”

©Paolo Marelli
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As praças icónicas da cidade de Milão estão vazias, paralisadas – uma situação “rara, totalmente nova e nunca antes documentada”, refere o fotógrafo Paolo Marelli, em entrevista ao P3 a partir de Milão, a cidade onde nasceu e onde, actualmente, reside. A última vez que saiu para a rua foi a 20 de Março. “Agora, depois do endurecimento das regras [de confinamento], torna-se mais difícil justificar estar fora de casa para fotografar”, justifica.

Paolo tem retratado a vida na cidade desde o início do surto do novo coronavírus, que em Itália tem atingido proporções devastadoras, com mais de 92 mil casos de infecção e 10 mil mortos. Os primeiros casos foram identificados a 31 de Janeiro em dois turistas chineses de visita a Roma e só 20 dias mais tarde, a 22 de Fevereiro, seria confirmado o primeiro caso de contaminação interna; no entanto, as autoridades italianas acreditam que o novo coronavírus terá entrado no país muito antes. 

“No início, tudo foi vivido como algo ligeiro”, explica o fotógrafo. “As pessoas começaram a falar de uma espécie de gripe, mas, pouco a pouco, tudo se foi transformando. Os números de contágio cresceram consistentemente (…) e, progressivamente, todas as lojas foram encerrando. Nos primeiros dias houve uma corrida aos supermercados, como se a comida fosse acabar. Como se o mundo fosse acabar! De repente, qualquer pessoa podia ser contagiada e gerou-se um ambiente de desconfiança.”

O individualismo, sugere Paolo, torna-se mais evidente em situação de crise. “O vírus está a pôr à prova o carácter das pessoas.” Há quem se encerre em casa, quem tema expor-se ao perigo e quem se dedique a ajudar os mais vulneráveis. “Existe um grupo chamado Brigate Volontarie per L’Emergenza, coordenado pela [organização não-governamental] Emergency, que entrega comida e medicamentos a pessoas que não podem, ou não querem, sair de casa, em geral grupos de idosos.”

Ninguém do círculo directo do fotógrafo foi infectado pelo vírus, motivo pelo qual tem uma percepção ainda “longínqua” do problema. Acredita que muita gente já teve a doença sem se aperceber, “porque, para muitos, os sintomas são idênticos aos de como uma gripe comum”. São sobretudo as consequências psicológicas, sociais e económicas da pandemia que preocupam o fotógrafo. “Acho que os próximos seis meses serão bastante duros”, lamenta. “Não estamos habituados a paralisar completamente a economia e o sistema produtivo. Ainda irá tardar até que tudo retome a normalidade.” O turismo sofrerá uma grande quebra, refere. “Já se fala, nos meios de comunicação social italianos, em mais de 90% de cancelamentos de reservas turísticas, o que será muito grave para as pessoas que trabalham nesse sector.” E para todos os sectores que dependem, indirectamente, desse tipo de negócio.

Este é um período de reflexão. “Talvez a crise nos leve a repensar o modelo de funcionamento em que estamos assentes, enquanto sociedade – um modelo que gera pobreza, desigualdade, poluição, doenças, individualismo, fracos laços de solidariedade.” Paolo sublinha que, nos últimos 30 anos, foram despedidas 40 mil pessoas do Sistema Nacional de Saúde italiano, fecharam-se vários hospitais e registaram-se cortes dramáticos no orçamento público. “O problema mais grave, aqui, não é o vírus, mas sim a falta de camas, de ventiladores, de recursos humanos, etc.” Talvez algo de positivo surja desta crise. “Se calhar, vamos perceber que não compensa destruir o Sistema Nacional de Saúde.”

De acordo com a leitura de Paolo, a União Europeia (UE) e os governos que lideraram Itália entre 2008 e o presente têm uma quota parte de responsabilidade na situação que hoje se vive no país. "A Saúde e a Educação foram os sectores públicos mais prejudicados durante os anos da crise económica. Em nome da redução do défice [imposta pela UE], e à boleia de um sistema neoliberal, as privatizações dos serviços públicos aumentaram e houve redução no número de hospitais e funcionários públicos da área da saúde – redução que se traduz, hoje, em menos camas, menos recursos, numa resposta menos eficaz." Paolo relembra que, "nos anos 80, havia 642 centros de saúde locais e que, em 2017, apenas 101". Não há coincidências. "Só entre 2010 e 2012, a título de exemplo, a redução da dívida pública gerou poupança de 25 mil milhões de euros."

Para o fotógrafo, todas as crises são oportunidades de mudança. "Os governos italiano e espanhol estão a investir muito dinheiro no controlo desta epidemia, dinheiro que provém de uma Europa dividida. Resta a esperança de que, graças a esta experiência, as pessoas percebam a importância da manutenção do serviço público."

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