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Quando o mundo sente esse “enjoo perante o futuro que se chama inquietação”

É impossível não reler A Peste, de Albert Camus, e não estabelecer paralelos estreitos no que descreve sobre a dificuldade em reconhecer oficialmente, entre dúvidas e espanto, a natureza da doença, como terá acontecido em Wuhan, na China.

A citação é do livro A Peste escrito por Albert Camus, publicado em 1947, e que voltou a suscitar releituras e diferentes análises por cá, como se lê, por exemplo, aqui, aqui ou aqui. Lá fora, como assinalou o Guardian,  as vendas dispararam a partir de Janeiro, passando a obra à condição de best-seller pelo decalque entre a pandemia do novo coronavírus que nos assola e a história que narra, centrada em Orão, uma cidade “vulgar”, de gente “franca, simpática e activa”, que se vê confrontada, primeiro, com mortes inexplicáveis que acontecem sem prevenir e, depois, com a realidade “verdadeiramente incrível” que se impõe de uma epidemia de peste.

Relido agora, é impossível não estabelecer paralelos estreitos no que descreve sobre a dificuldade em reconhecer oficialmente, entre dúvidas e espanto, a natureza da doença, como terá acontecido em Wuhan, na China, ou na opção das autoridades por medidas menos draconianas para não inquietar a opinião pública, retardando a declaração do estado de peste e o encerramento da cidade ao ponto em que a escalada de mortes não deixava outra saída. Um movimento que parece similar ao que terá acontecido em Itália, em Espanha, em França ou mesmo em Portugal.

Mas há outros paralelos. Sobre como lidamos com um flagelo: por não estar “à medida do Homem, diz-se então que o flagelo é irreal, que é um mau sonho que vai passar”. Por esquecermos, como, por ventura, tantos jovens o fizeram naquela corrida descontrolada aos areais, que “nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos”. Sobre as relações de amor e amizade, que não tiveram tempo para se tornarem histórias e que, interrompidas, ficarão reduzidas a “instantes”. Sobre a privação material e uma economia em crise que já se anuncia e, inevitavelmente, sobre o sofrimento e a morte, que se multiplica e tolhe pobres e ricos, jovens e velhos, homens e mulheres, e não escolhe entre nós e os outros, como as estatísticas que lemos nos lembram diariamente.

É certo que a A Peste também nos fala sobre a capacidade de mobilização colectiva, de que a entreajuda e a solidariedade manifestada entre vizinhos portugueses é um bom exemplo, da resiliência e da dedicação do médico Bernard Rieux, que podemos estender a tantos profissionais de saúde e tão bem simbolizada neste retrato da enfermeira italiana Elena Pagliarini.

Essa inquietação, em que sentimos que o futuro próximo se suspende, sem sabermos até quando e como se retomará, senti-a quando recebi a indicação para ficar em casa. Apesar de A Peste nos deixar a esperança de uma vacina e do controlo da pandemia, os tempos que se avizinham serão de contradições, dureza e imprevisibilidade.

Não creio, como ouvi, que esses tempos possam ser de alegria por estarmos em teletrabalho – o mesmo que quando era possível nos era negado por desconfiança na nossa disciplina e capacidade de o fazermos bem em casa –, sabe-se lá com que equipamentos e condições técnicas.

Espera-se que os nossos filhos e filhas dispam, cada dia, os pijamas às 7h para continuarem as suas rotinas, como se fossem as mesmas, que não são, e que compensem a ausência de contacto social com mais WhatsApp e Houseparty, ontem nocivos para o seu desenvolvimento e de utilização a limitar. Que nos possamos manter em forma a fazer ioga como no YouTube, que nunca fizemos, e que os casais vejam os benefícios de estreitar laços, confinados 24 horas sobre 24 horas em alguns metros quadrados, quando há dias mal aguentavam três ou quatro horas de convívio diário. Tudo isto sob o espectro de uma nova hecatombe económica, quando muitos nunca se reergueram da anterior, de um salário que porventura vai emagrecer e que, se calhar, daqui a um mês já não vem.

Não haverá rosas. N'A Peste diz-se que “é a lucidez que nos permite enfrentar melhor este combate”. Resta-nos esperar o que “se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar”.

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