Economia portuguesa deve sofrer impacto negativo de 4,5% do PIB ou superior

Estudo de Nuno Fernandes, professor de finanças no IESE e ex-director da Católica Lisbon School of Business and Economics antevê uma contracção da economia de cerca de 2,9% este ano num cenário “suave”.

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Orçamento do Estado para 2020 foi aprovado mas já está datado Nuno Ferreira Santos

A economia portuguesa prepara-se para entrar em recessão em 2020, ano em que, num cenário “suave” de impacto do novo coronavírus, em que o país fica parado um mês e meio, se assistirá a uma retracção da ordem dos 2,9%. Para se ter uma ideia da velocidade a que as mudanças estão a ocorrer, o Orçamento do Estado promulgado esta segunda-feira pelo Presidente da República - e já claramente datado - aponta para um crescimento do PIB de 1,9%.

A estimativa é de Nuno Fernandes, professor de finanças na IESE. De acordo com os cálculos deste economista, ex-director da Católica Lisbon School of Business and Economics, divulgados esta segunda-feira, nesse mesmo cenário o impacto económico será da ordem dos 4,5% do PIB (perto de 10 mil milhões de euros).

O modelo, no entanto, não contabiliza gastos directos ou indirectos com saúde, pelo que “pode subestimar os verdadeiros impactos negativos na economia”, refere-se no documento. Entre outras coisas, não inclui também eventuais efeitos adversos no sector financeiro (neste campo, os bancos estão a avançar com moratórias de pagamentos).

“Quanto mais elevado for o peso do turismo, maior o impacto” do novo coronavírus, lê-se na análise, pelo que as estimativas apontam para que países como Portugal, Espanha, Itália e Grécia estejam entre os mais afectados. No caso de Espanha, por exemplo (é o maior parceiro comercial de Portugal), a contracção será de 3,9% neste cenário. A Alemanha assistiria a -3,6% e a Grécia a -4,6%.

Crise sem paralelo

Para Nuno Fernandes, é possível que o impacto económico vá além dos 1,5 meses até porque, nos países ocidentais que impuseram encerramentos e restrições, haverá “extrema cautela” na sua remoção.

Assim, num cenário em que o período de shutdown passa de 1,5 para três meses, a economia portuguesa pode assistir a uma contracção do PIB de 6,8%, e já nem a China se safa. Em Espanha seria - 5,8%, com a Alemanha na mesma ordem de grandeza. Se o período de impacto for alargado para 4,5 meses, isto é, até ao final de Julho (meio do Verão), a queda em Portugal já será da ordem dos 6,9% (-5,8% no caso de Espanha, seguida de perto pela Alemanha).

O autor destaca que, nas crises anteriores, os bancos centrais tinham um conjunto de instrumentos para prevenir o aprofundamento dos danos. Neste caso, diz, o ponto de partida são taxas de juro muito baixas, e em alguns casos negativas. “Não é possível comparar com outras crises globais, como a de 2008”, destaca, até por questões como a integração da economia mundial e o facto de se estar a assistir a uma destruição da procura e da oferta.

Para Nuno Fernandes, se esta crise “durar até ao fim do Verão, a economia mundial enfrenta a maior ameaça dos últimos dois séculos”. Cabe aos principais responsáveis, como governos e bancos centrais, garantir que os piores cenários não se concretizam.

Católica vê desemprego nos 8,5%

Esta segunda-feira, o Católica Lisbon Forecasting Lab/NECEP divulgou a sua nova estimativa de crescimento económico para Portugal este ano, com três cenários: um cenário central em que a fase crítica da epidemia dura cerca de três meses, um cenário pessimista em que o controlo da epidemia dura seis meses e um cenário optimista em que essa fase crítica não se prolonga muito para além de Abril.

No mais optimista, de acordo com Lusa, o PIB cai 4% em 2020 e taxa de desemprego sobe para 8,5%. Isto tendo em consideração, diz o documento citado pela Lusa, “medidas adicionais e mais incisivas para além daquelas já anunciadas pelo Governo”.

No cenário central a contracção passa para cerca de 10%, e o desemprego sobe para 10%. Já no caso mais gravoso a queda do PIB passa para 20% e o desemprego atinge os 13,5%.

“Qualquer um dos cenários corresponderá a um agravamento significativo do desemprego e em termos de perda do rendimento das famílias”, sublinha o núcleo de economistas da Católica, referenciado pela Lusa.