Medidas de contenção podem já estar a notar-se nos números mas é preciso cautela

Doentes com covid-19 nos hospitais e centros de saúde vão passar a estar separados dos outros pacientes a partir da próxima semana. Os que forem transferidos para os lares de idosos terão agora de ser sempre testados à entrada. E os profissionais de saúde passam auto-monitorizar-se diariamente para se perceber se estão infectados.

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Rui Gaudencio

O crescimento da curva de novos casos de infecção pelo novo coronavírus está a abrandar em Portugal há três dias seguidos, um sinal de que as medidas de contenção decretadas há uma semana, como o encerramento de escolas, discotecas e outros estabelecimentos, poderão estar a começar a dar frutos. Mas ainda passou pouco tempo. Por isso, é preciso olhar para estes dados com cautela e insistir na mensagem de que não podemos ser complacentes e relaxar, uma vez que o “perigo é muito real”, avisa André Peralta Santos, da direcção da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP).

É necessário ainda ter em conta o tempo de incubação da doença covid-19, que é de cinco dias em média, e somar a este período pelo menos mais dois dias até que a pessoa comece a ter sintomas e procure os serviços de saúde, para se perceber com maior segurança como irá evoluir a situação. Por enquanto “os indicadores parecem ser bons” mas é preciso olhar para estes dados “com precaução” até pela “natureza da dinâmica da epidemia”, reitera o especialista.

O “abrandamento da inclinação da curva epidémica do surto” do novo coronavírus foi justamente destacado este sábado pela ministra da Saúde, Marta Temido, na conferência de imprensa diária para balanço da situação. Lembrando que os números nacionais apontam para um crescimento menos abrupto de casos confirmados e de casos suspeitos nos últimos dias em Portugal face aos dias anteriores, Marta Temido adiantou que esta evolução, associada aos “cálculos das estimativas epidemiológicas disponíveis”, permitem avançar uma data “previsível” para a ocorrência do pico da curva epidémica que se deve situar “à volta de 14 de Abril”. Ou seja, dentro de cerca de três semanas.

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É possível prever com esta precisão o pico do surto de covid-19 em Portugal? Sem ter acesso aos estudos que deram origem a esta projecção, André Peralta Gomes observa que um modelo matemático é sempre “uma interpretação da realidade” e explica que, “quanto maior for o tempo de projecção, maior é a incerteza”. O que se pode fazer é olhar e avaliar o que aconteceu na China e na Coreia do Sul, países actualmente com muito poucos novos casos, e tentar prever o que vai acontecer cá, diz. Para já, a ANMSP (que se baseia nos dados do boletim da Direcção-Geral da Saúde) limita-se a apresentar na sua página na Internet uma projecção para os próximos três dias, na qual antecipa que próxima terça-feira, dia 24, o número de novos casos confirmados ascenderá a 732 num só dia.

Olhando para o passado, o que os dados indicam é que, depois de ter começado a subir lentamente no início de Março, o número de casos positivos em Portugal tem estado a crescer exponencialmente. Passou de 1020 na sexta-feira para 1280 neste sábado, quando o total de casos suspeitos se aproximou já dos 10 mil. O aumento  de casos confirmados é da ordem dos 25% face a sexta-feira, ainda assim longe do ritmo de subida observado em dias anteriores, em que ultrapassou os 40% (num dia foi mesmo superior a 50%).

Olhando para o mapa do país, a região Norte é de longe a mais afectada, com um total de 644 casos positivos e quatro das 12 vítimas mortais, seguida de Lisboa e Vale do Tejo e do Centro . Questionada pelos jornalistas sobre se sente algum arrependimento, tendo em conta as medidas que foram sendo adoptadas no Norte do país, Marta Temido admitiu que se pode sempre “olhar para trás” e pensar que “aqui ou ali” era possível “ter feito de uma forma diferente”, mas enfatizou que tem “sempre seguido as orientações da OMS e olhado para os outros países”.

Numa altura em que as equipas de saúde pública no terreno estão em “aprendizagem constante”, as estratégias podem ser diferentes de região para região, retorquiu a directora-geral da Saúde, Graça Freitas. “Num sítio será um cordão sanitário, no outro pode ser minimizar a importação de novos casos”, exemplificou.

Taxa de letalidade de 1%

De resto, os números disponíveis para Portugal enquadram-se no padrão de evolução da epidemia observado noutros países. Por enquanto, apenas 1% do total dos doentes (35) estão internados em unidades de cuidados intensivos, devido à gravidade do seu estado clínico, ainda que representem quase um terço do total dos pacientes hospitalizados, que constituem uma minoria. Por terem sintomas mais ligeiros, 88% dos doentes com covid-19 estão a ser acompanhados no seu domicílio. 

A taxa de letalidade é agora de cerca de 1%, bem “aquém” de números registados noutros países — em Itália ronda os 8% e em Espanha, 4% —, mas a directora-geral da Saúde avisa que pode evoluir “para outros valores” porque Portugal continua a ter “muito poucos doentes com história de internamento muito prolongado”, uma vez que apenas começou a detectar e a internar casos a 2 de Março. Os pacientes hospitalizados são sobretudo idosos com com morbilidades, com patologias como cancro, obesidade, doença cardíaca. Das vítimas mortais, a mais nova tinha 64 anos e a mais velha, 94.

As estratégias de combate ao novo coronavírus também vão evoluindo, à medida que o número de casos cresce no país. A partir da próxima semana, os pacientes com covid-19  nos hospitais e nos centros de saúde vão passar a ficar separados dos que não têm a doença, em áreas separadas e seguirão circuitos diferentes. Este novo “modelo de abordagem” vai começar a ser aplicado a partir da próxima quinta-feira para dar tempo aos serviços para se adaptarem, explicou a ministra. Ao mesmo tempo, os doentes que forem transferidos de hospitais para lares de idosos a partir de agora passam a ser sempre testados à chegada, de forma a garantir que não estão infectados, e terão que ficar “o mais isolados possível”.

Depois de uma fase inicial em que o número de diagnósticos laboratoriais era muito reduzido, a ordem agora é multiplicar os testes. A capacidade para efectuar testes é de cerca de nove mil no Serviço Nacional de Saúde e ronda 17 mil nos laboratórios privados, revelou Marta Temido. Em “números grosseiros”, precisou Graça Freitas, estão actualmente a ser feitos pelo menos 1400 testes por dia.

Debaixo de muitas críticas e à medida que se se multiplicam as notícias de contágios entre profissionais de saúde — que em alguns hospitais continuaram a trabalhar apesar de terem contactado com doentes com covid-19 —, a DGS emitiu também este sábado uma orientação. A partir de agora, estes devem passar a realizar uma auto-monitorização todos os dias, incluindo a medição e o registo da temperatura, para que seja possível identificar precocemente eventuais sintomas da doença. Caso isso se verifique, passam a ser considerados casos suspeitos, vão para uma área de isolamento e são submetidos a testes. Passam a estar definidos três graus de risco de exposição a doente com covid-19 — baixo, médio e alto — e o profissional de saúde nesta última situação terá que ficar em isolamento profiláctico e em vigilância activa durante 14 dias.

Notícia actualizada: O crescimento da curva de novos casos de infecção pelo novo coronavírus está a abrandar em Portugal não há dois mas sim há três dias seguidos

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