Preparativos para o “Brexit” já custaram 4,4 mil milhões de libras ao Governo britânico

Relatório do Gabinete Nacional de Auditoria refere que o dinheiro foi gasto em contratação de staff, novas infra-estruturas, consultoria externa e publicidade. Orçamento total é de 6,3 mil milhões de libras.

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Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido Reuters/POOL

O Governo britânico já gastou perto de 4,4 mil milhões de libras (cerca de 5 mil milhões de euros) nos preparativos para a saída do Reino Unido da União Europeia. Segundo o relatório do Gabinete Nacional de Auditoria (NAO, na sigla em inglês), publicado esta sexta-feira, a maioria das verbas foi utilizada na contratação de funcionários, na construção e remodelação de infra-estruturas, em consultoria externa e em campanhas de publicidade.

Segundo o órgão responsável pela auditoria das contas do executivo, respectivos ministérios e agências do Estado britânico, que é independente e autónomo do Parlamento, o Governo conservador utilizou, até ao momento, 70% do orçamento total de 6,3 mil milhões de libras que disponibilizou para preparar o país para o “Brexit”, no período decorrente entre o referendo de Junho de 2016 e o dia da saída daUE, 31 de Janeiro deste ano

Fora destas contas – que o NAO esclarece que não pretendem fazer qualquer juízo de valor à estratégia ou às prioridades de Downing Street na distribuição e utilização das verbas – ficam os 39 mil milhões de libras que o Reino Unido terá de pagar à UE, nos termos do acordo de divórcio.

“Este relatório oferece, pela primeira vez, uma imagem clara de quanto gastou o Governo e onde foi gasto o dinheiro”, afirmou o director do NAO, Gareth Davies, citado pela BBC. “Nos preparativos para a saída da UE, os departamentos governamentais planearam múltiplos desfechos potenciais, que tiveram em conta calendarizações variáveis e a incerteza”.

Com o Reino Unido e a União Europeia oficialmente em negociações para um novo acordo de parceria económica e face a um cenário potencial de no-deal no final de Dezembro deste ano, resta saber se os 6,3 mil milhões serão suficientes para cobrir as despesas daí decorrentes. Até porque esse montante foi alocado pelo Tesouro até ao final deste mês, pelo que terá de ser reavaliado. E na próxima semana é apresentado o Orçamento de Estado.

Mais de metade do dinheiro foi gasto por três departamentos: Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais; Interior; e Alfândega e Assuntos Fiscais.

De acordo com o relatório, dos 4,4 mil milhões desembolsados, 1,9 mil milhões serviram para contratar staff, sendo que, em Outubro do ano passado atingiu-se o número máximo de pessoal envolvido nos preparativos, estimado em cerca de 22 mil funcionários públicos.

Foram ainda gastos 1,5 mil milhões de libras na construção e melhoramento das infra-estruturas e vias de comunicação em redor dos principais portos do país, particularmente no condado de Kent, no Sudeste inglês, e nos acessos entre a cidade portuária de Dover, onde chega grande parte dos navios e camiões de mercadorias, vindos da Europa.

Nesse departamento, mas fora do âmbito dos investimentos em infra-estruturas, foram alocados 50 milhões de libras às empresas de ferry e 33 milhões ao Eurotúnel – que liga Folkestone (Inglaterra) a Calais (França).

Meg Hillier, que preside à comissão de Contas Públicas da Câmara dos Comuns do Parlamento britânico, mostrou-se satisfeita com a publicação do relatório e criticou o Governo de Boris Johnson por estar constantemente a “esconder” os números aos contribuintes britânicos.

“A população tem sido mantida na ignorância sobre aquilo que Governo anda a fazer. A informação é limitada e o Tesouro parece estar pouco preocupado com a falta de transparência”, acusou a deputada do Partido Trabalhista.

O deputado e porta-voz dos Liberais-Democratas para o “Brexit”, Alistair Carmichael, foi mais longe, lamentando as prioridades do executivo, em detrimento de outras crises que o país enfrenta: “Tendo em conta as inundações enormes e a ameaça do coronavírus, devemos questionar se o Governo sabe quais são as suas prioridades em matéria de despesa”.