Opinião

Factos, falácias e equívocos

Estes tipos de enviesamentos, que são apenas alguns de entre centenas que são conhecidos, resultam principalmente da nossa incapacidade para analisar de forma fria e objectiva a informação que temos disponível.

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O cérebro humano evoluiu, há centenas de milhares de anos, na savana africana, para avaliar situações em condições profundamente diversas daquelas que a sociedade global de hoje apresenta. Essa é uma das razões pelas quais somos muitas vezes incapazes de avaliar a real dimensão dos diversos riscos e oportunidades a que estamos expostos. Estes fenómenos, de sistematicamente subavaliarmos ou sobreavaliarmos a probabilidade de diversos eventos são amplamente conhecido e são designados de enviesamentos ou falácias cognitivas.

Um enviesamento cognitivo corresponde a um desvio sistemático, numa direcção específica, da nossa percepção de um certo fenómeno. Existem, literalmente, centenas de tipos diferentes de enviesamentos cognitivos, estudados pelos psicólogos, economistas e outros profissionais, amplamente documentados em artigos científicos e na Internet. Porém, alguns são tão comuns e recorrentes que é útil ter consciência de quão profundamente eles afectam a nossa vida do dia a dia e nos impedem de tomar decisões racionais.

Um dos mais comuns está relacionado com a acessibilidade e a novidade da informação. Tendemos, sistematicamente, a preocuparmo-nos mais com informação que está facilmente disponível, à qual tivemos acesso recentemente ou da qual nos lembramos com frequência. Desta forma, tópicos que são foco de notícia nos media tornam-se num foco de preocupação, aos quais damos uma importância desmesurada face ao seu actual impacto. Quando um determinado tópico ou assunto é discutido e abordado repetidamente, em cascata, o enviesamento tem características próprias e uma designação específica, conduzindo a um pensamento de grupo, onde as preocupações dos diversos membros de uma comunidade se reforçam mutuamente, conduzindo a grandes exageros na avaliação de situações ou mesmo a profundas crises sociais.

Um outro tipo de enviesamento cognitivo muito comum é a nossa tendência para nos focarmos mais nas eventuais componentes negativas de um fenómeno do que nas positivas. Este fenómeno, conhecido como o enviesamento da negatividade, está relacionado com uma das mais fortes emoções, o medo, e conduz a uma sobreavaliação dos riscos e, muitas vezes, à tomada de decisões erradas. Curiosamente, este enviesamento está provavelmente relacionado com uma outra falácia muito comum, e documentada desde há milénios, a ideia de que a civilização humana está em declínio e de que o futuro será pior que o passado.

Um terceiro tipo de enviesamento resulta de ignorarmos as estatísticas globais e concentrarmo-nos, pelo contrário, em casos particulares, dando um peso desmesurado a casos específicos e esquecendo que o risco global é muito baixo. Quando acoplado ao enviesamento da confirmação (a tendência para darmos mais atenção aos factos que confirmam as nossas crenças ou predisposições do que aos outros), um ou dois exemplos concretos podem ter mais peso do que estatísticas que envolvem milhares ou milhões de casos.

Estes tipos de enviesamentos, que são apenas alguns de entre centenas que são conhecidos, resultam principalmente da nossa incapacidade para analisar de forma fria e objectiva a informação que temos disponível. Porém, são muito amplificados pelo actual estado da tecnologia e da sociedade. Por um lado, os media, pressionados pela necessidade de vender conteúdos e de chamar a atenção do público, dão um peso desmesurado a notícias bombásticas e negativas, omitindo informação mais objectiva mas menos sensacionalista. Por outro lado, as redes sociais, nas suas mais diversas formas, reforçam o pensamento de grupo e o enviesamento que resulta da acessibilidade e da repetição em cascata. Assuntos que, de um ponto de vista objectivo, têm um reduzido impacto, podem atingir proporções enormes quando são reforçados pelos media e pelas redes sociais.

Um assunto como o coronavírus tem o potencial para cavalgar todas estas formas de enviesamentos cognitivos. O potencial para sucessivas notícias sobre uma doença fatal, a possibilidade de a civilização humana colapsar por força de uma pandemia incontrolável, a cascata de desinformação propagada pelos títulos bombásticos e pelas redes sociais são apenas alguns dos factores que levam a que a avaliação que cada um de nós faz dos riscos causados por este vírus seja errada

 Para controlar este medo irracional e melhorar a tomada do processo de decisão, é importante combater, de forma racional e explícita, cada um dos enviesamentos a que estamos inevitavelmente sujeitos. Para combater o enviesamento da acessibilidade, importa manter presente que o coronavírus é apenas um de muitos riscos de saúde que existem, a maioria dos quais não recebem cobertura mediática. Morrem, por ano, cerca de 18 milhões de pessoas com doenças cardiovasculares, 10 milhões por cancro, 1,2 milhões em desastres de automóvel e 2,5 milhões com pneumonia. O coronavírus, que pode provocar a morte causando pneumonias entre outras complicações, matou até agora cerca de 3000 pessoas, ou seja cerca de 0.1% das mortes anuais devidas a pneumonias e cerca de 0.005% das mortes devidas a todas as causas.

 Mas, argumentar-se-á, ecoando o medo causado por uma possível pandemia, o número de infectados está a crescer rapidamente e, com taxas de letalidade na ordem dos 2 a 3%, poderão morrer milhões de pessoas, dezenas de milhar só em Portugal. Também aqui, a pesquisa de informação que possa combater a irracionalidade do medo é importante. Existem, de facto, dezenas de tipos de coronavírus, conhecidos desde a década de 60 do século passado, dos quais sete espécies usam o ser humano como hospedeiro. As taxas de letalidade variam com o tipo, e são difíceis de calcular, uma vez que apenas após um surto é possível estimar o número de pessoas que foi infectada, através da análise da presença de anticorpos específicos numa amostra significativa da população. Durante o surto, não é possível fazer esta análise. Desta forma, as estimativas da fracção de pessoas que morre devido a este vírus (letalidade) variam dentro de uma gama relativamente grande. Porém, a letalidade é provavelmente maior que a da gripe comum mas menor que a de algumas doenças causadas por outros coronavírus.

Acresce que a maior parte das doenças respiratórias como as que são causadas por este coronavírus propagam-se com mais facilidade durante o Inverno, por uma variedade de razões. A chegada da Primavera ao hemisfério norte irá, provavelmente, travar a propagação do vírus, mantendo-se a infecção dormente até ao próximo Inverno, altura em que os sistemas de saúde estarão melhor preparados. Existem, assim, poucas razões para temer uma situação catastrófica global e muito menos uma ameaça para a civilização.

Porém, como em todos os surtos de gripe, existem todas as razões para tomar medidas que evitem o contágio e a propagação do vírus, seguindo as instruções que foram amplamente divulgadas, de seguir práticas de higiene, evitar situações de exposição e limitar os contactos com familiares e terceiros, se tiver sintomas. O risco mais grave causado por este vírus, tal como pela gripe comum, será a eventual sobrecarga dos sistemas de saúde, limitando a capacidade de resposta e reduzindo a qualidade do serviço prestado.