Como combater uma epidemia de desinformação? OMS tenta controlar efeitos colaterais do coronavírus

O infecciologista Jaime Nina diz aos seus alunos que há “a epidemia do novo coronavírus e a epidemia de histeria à volta do novo coronavírus”.

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Ao mesmo tempo que tenta conter o alastrar da epidemia do novo coronavírus (Covid-19), a Organização Mundial de Saúde (OMS) empenha-se no combate ao vírus da desinformação que já designado como “infodemic” (infodemia em tradução à letra). O esforço compreende-se: a epidemia global de informações falsas ou pouco rigorosas que se espalha a um ritmo vertiginoso sobretudo através das redes sociais coloca um problema sério para a saúde pública. “Sabemos que cada surto será acompanhado por uma espécie de tsunami de informação, mas no meio desta informação há sempre desinformação, rumores”, sublinha à The Lancet  Sylvie Briand, responsável pelo departamento de preparação para o risco de infecções da organização.

Se sempre foi assim, “até na Idade Média”, a diferença agora é que, com as redes sociais, este fenómeno é amplificado e alastra de uma forma muito rápida. Por isso não basta divulgar informação. “É preciso ter a certeza de que as pessoas estão informadas para agir de forma apropriada”, preconiza a especialista.

Este trabalho começou há algum tempo. Depois de a Covid-19 (designação da doença) ter sido declarada uma emergência de saúde pública de âmbito internacional, a equipa de comunicação de risco da OMS lançou uma nova plataforma designada WHO Information Network for Epidemics (EPI-WIN) que visa partilhar informação adaptada a grupos alvo específicos. Com a colaboração de cerca de duas dezenas de consultores, esta equipa que inclui especialistas em redes sociais e em comunicação de risco em cada um dos escritórios regionais da organização está a tentar controlar os efeitos colaterais causados pela epidemia de desinformação.

Aleksandra Kuzmanovic, a responsável pelo contacto com as redes sociais no departamento de comunicação da OMS, também citada no artigo da The Lancet,  adianta que está a trabalhar com o Facebook, Twitter, Pinterest, TikTok e também com a equipa no escritório na China que lida de perto com as plataformas de redes sociais do país onde o surto do novo coronavírus surgiu em Dezembro de 2019.

Numa estratégia de privilegiar fontes com informação verificada e rigorosa, a OMS está também empenhada em assegurar que, seja onde for o ponto do mundo as pessoas se encontrem, quando pesquisam por “coronavírus” ou “Covid-19” na Internet, sejam direccionadas para uma fonte credível, o site da OMS ou o das autoridades de saúde do seu país, acrescentou a especialista. 

No Google isto já acontece. Quando se escreve a palavra coronavírus, os primeiros resultados remetem para o site da OMS, que reporta diariamente o evoluir da situação a nível mundial, elenca recomendações e desmistifica alguns dos dados e informações falsas que pululam na Internet.

Mas a divulgação incorrecta e alarmista não pode ser unicamente ser atribuída às redes sociais, enfatiza Carlos Navarro, responsável pelo controlo de emergências de saúde pública na Unicef, também citado no artigo. Os media tradicionais também o fazem, critica. “Muitas vezes escolhem as fotografias mais dramáticas que conseguem encontrar (...) e dessa forma transmitem a mensagem errada”.

"Epidemia de histeria"

“Aos meus alunos de pós-graduação digo que temos a epidemia do novo coronavírus e a epidemia de histeria à volta do novo coronavírus”, corrobora Jaime Nina, infecciologista do Hospital Egas Moniz e professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa.

“A informação que tem sido avançada é muito parcial, acredito que não de forma propositada, mas torna-se um pouco alarmista”, lamenta. Jaime Nina propõe, a propósito, um exercício simples para se perceber até que ponto as informações e as notícias acabam por ter um efeito pernicioso quando são fornecidas sem a contextualização adequada. No site da OMS, na parte que inclui os dados sobre os novos casos de infecção pelo novo coronavírus registados diariamente, há um “pico artificial” em 15 de Fevereiro - o dia em que a China mudou os critérios e passou a notificar também os casos prováveis apenas por diagnóstico clínico por não conseguir testar laboratorialmente todos.

Quando se olha para os dados dos outros dias, percebe-se que o número de novos casos nem sequer estará a crescer a um ritmo tão alucinante nem a taxa de letalidade é tão elevada como parece transparecer, frisa. São “dados cumulativos desde o princípio da epidemia” e há milhares de casos de doentes que recuperaram entretanto, lembra.

Mas isto não significa que a preocupação das autoridades de saúde não se justifica, avisa. Mesmo uma taxa de letalidade baixa, se esta se mantivesse em cerca de 1%, o que é difícil de calcular porque não se sabe com rigor quantas são as pessoas realmente infectadas, caso a epidemia do novo coronavírus desse a volta ao mundo como aconteceu com a pandemia de gripe A (H1N1) de 2009, e afectasse uma percentagem idêntica à da população mundial que aquela atingiu, milhões de pessoas seriam afectadas.

Há um outro problema que este tsunami de informação muitas vezes incorrecta implica - o da pressão que coloca sobre o sistema de saúde. Mesmo sem epidemias, “as urgências já estão cheias, os doentes já aguardam horas para serem observados por um médico”, lembra o médico. “Se uma pessoa infectada for a uma urgência, corre-se o risco de uma parte substancial dos doentes ficarem contagiados e os hospitais arriscam-se assim a ser agentes de disseminação do vírus em vez de agentes de contenção”.

A agravar, no caso português, “a epidemia chega numa péssima altura, porque o Serviço Nacional de Saúde está a viver a ressaca de 12 anos de desinvestimento”. Mas Jaime Nina acredita que Portugal poderá não mergulhar no caos que neste momento assola Itália: “Comparados com eles somos muito organizados.”