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Murray Bell não se cansa de procurar novas casas para o design — e a próxima será no Porto

Depois de Nova Iorque, Estocolmo ou Londres, é a vez do Porto receber a primeira edição portuguesa do Semi Permanent, o conceituado festival de artes visuais. Após múltiplas visitas, o fundador não esconde a admiração que nutre pela cidade onde, garante, até as placas de toponímia são arte.

Corria o ano de 2001 e a Internet comercial dava os seus primeiros passos. Era o início dos websites como hoje os conhecemos, o correio electrónico afirmava-se como meio de comunicação e no horizonte vislumbrava-se um futuro submerso no digital. Por essa altura, os dias de Murray Bell, com 21 anos, eram passados nas praias de Sydney, onde surfava diariamente. Conseguiu, inclusive, fazer do surf a sua profissão, até que um dia percebeu que o seu tempo como surfista podia estar contado. O futuro ganhou forma de incógnita para o jovem que aprendeu a ver no mar o seu workspace.

Depois uma ou outra frustração, concluiu que as respostas que procurava poderiam estar mais perto do que imaginava — onde sempre estiveram. Na prancha e no restante material que carregava diariamente, nas revistas que lia sobre a modalidade ou até nos edifícios pelos quais passava durante a viagem de comboio que o levava até ao seu reduto espiritual. Ali estavam representadas as diversas formas de criatividade e de design que inspiraram Murray a criar a plataforma Semi Permanent, que a 30 e 31 de Outubro chega ao Porto para o seu primeiro evento em solo português.

Desde esse início agitado, muito mudou. Na altura, lembra o australiano ao telefone com o P3, a “palavra design fazia apenas referência ao design gráfico”, enquanto que ao longo das duas últimas décadas o conceito passou a incluir áreas como “arquitectura, publicações, comunicação e muitas outras”. Outra mudança que, para Murray, estaria prestes a ocorrer seria a revolução do digital, esse meio onde passaríamos a viver quase na totalidade.

Perante as transformações que se avizinhavam, Murray entendeu estar na altura de reunir as tropas e ouvir o que os profissionais da área tinham a dizer – algo que lhe agradava particularmente. “A ideia de reunir as pessoas de modo a promover a partilha e uma maior ligação entre elas” fascinava-o. Por isso, consegue facilmente apontar as diferenças entre o que é “relacionarmo-nos com alguém através de um artigo, de um filme ou algo do género” e de “uma experiência em que conseguimos ver os artistas, a maneira como eles se vestem, como falam ou usam as mãos”. A segunda opção será “muito mais interessante, já que através dela podes aprender muito mais sobre os artistas, sobre ti e como o que acabaste de ouvir ou experienciar se reflecte em ti”, conclui o australiano.

O dito encontro, que seria o primeiro com selo Semi Permanent, teve lugar em Sydney, em 2003, mas durante os meses que lhe antecederam Murray Bell não sabia o que esperar. “Reservámos um espaço e pagámos os bilhetes de avião dos convidados”, recorda. E aguardaram. O veredicto chegou no dia em que os bilhetes foram colocados à venda e não podia ter sido mais positivo. A cada refresh que fazia nas caixas de correio electrónico, recebia notificações a avisá-lo de que um novo ingresso tinha sido vendido, tendo chegado a um total de “três mil participantes”. A estes números não serão alheias as presenças de figuras como Banksy ou Shepard Fairey, artista que, depois do projecto Obey, assinou anos mais tarde (2008) um dos mais icónicos retratos de Barack Obama.

Para o fundador do Semi Permanent, o sucesso alcançado na primeira edição do evento foi um dos factores que fixou a plataforma no mapa deste tipo de eventos. Mas se a adesão da comunidade artística foi importante, Murray também não esquece quem está do outro lado: as marcas, a quem se aliou desde o início para criar uma dinâmica de “troca de valor” que, entende, favorece todos os envolvidos. Se, por um lado, “os participantes ficam a saber o que é trabalhar numa grande empresa ou o que é ter os recursos necessários para desenvolver tecnologias ou produtos que interessam”, por outro é importante para as empresas ouvirem os artistas porque eles sabem de design, sabem o que pode ter utilidade”, ao contrário dos que nelas “trabalham e estão fechados nos escritórios sem pensar na comunidade”.

Dezassete anos volvidos desde a primeira edição, o Semi Permanent já não é “apenas uma conferência, em que um orador fala e os presentes se limitam a ouvir”. O modelo tradicional de partilha de informação e experiências foi substituído por “workshops de pequena escala, laboratórios de inovação e pequenos de espaços de discussão” que convivem com “instalações artísticas, experiências interactivas e festas”. Tudo para promover uma atmosfera de “aprendizagem e crescimento”, a mesma que o australiano quer ver ganhar vida no Centro de Congressos da Alfândega do Porto.

Portugal, o novo hub do design na Europa? 

Na hora de eleger a “casa europeia” para o projecto que criou há mais de duas décadas, Murray admite que o “Porto não foi a escolha mais óbvia” – sê-lo-iam “Londres ou Paris”. Mas a vontade de dar a conhecer a “nova Europa”, a que ainda “não está saturada”, levou-o a escolher o Norte de Portugal, onde confessa ter encontrado um “bonito equilíbrio” entre “artistas, criadores, história e cultura”.

No Porto, cidade em que garante ver arte até na toponímia e nos posters que decoram as ruas, será o anfitrião de nomes como Scott Dadich, criador da série Abstract e antigo editor-chefe da Wired, Ajaz Ahmed, CEO da agência criativa AKQA, Karin Fong, motion designer com dois Emmys na estante, Rosário Costa, directora criativa sénior do grupo Lego, o chef José Avillez, entre outros, para uma série de debates e conversas que prometem desafiar os limites planetários do design e das restantes artes criativas. “Questões como a sustentabilidade e a diversidade são muito importantes e devem ser abordadas, assim como o design em grande escala, não só na Terra, mas também noutros planetas”, diz. A programação completa ainda não foi desvendada, mas sabe-se ainda que inclui The Panic Office, uma retrospectiva de arte dos Radiohead.

Ainda assim, Murray Bell promete não ficar por aqui no que a projectos no Porto diz respeito. Não esconde, inclusive, a sua ambição de ver o namoro entre a cidade e o Semi Permanent resultar num casamento duradouro e vantajoso para as duas partes e com implicações directas na comunidade de criativos que ali trabalham. “Queremos apoiá-la e ajudá-la a crescer, nomeadamente através de workspaces ou eventos mais pequenos mas regulares. A plataforma pode ser um elo de ligação entre pessoas, convidar designers de todo o mundo para virem a Portugal trabalhar com os artistas locais, criar negócio e, consequentemente, mais arte”.

“O novo hub do design na Europa” — é assim que o australiano imagina Portugal no futuro e, garante, não encontra razões para que tal não aconteça. Segundo o próprio, os requisitos que fazem de uma criação uma obra verdadeiramente “poderosa” (“sinceridade, autenticidade e sinceridade”) estão preenchidos numa cidade como o Porto, onde os artistas não trabalham “pela fama ou pelo dinheiro”, mas porque “sentem que aprenderam algo sobre eles próprios durante o processo de criação” e, acima de tudo, “pelo amor à pela arte”.

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