Editorial

Refugiados: menos conversa, mais acção

Uma coisa é o que se diz, mas a coisa certa, aquela que vale mesmo, é a que se faz.

Este é um governo amigo dos refugiados? Para muitos esta pergunta nem faz sentido. Afinal este é um executivo liderado por António Costa, que pouco tempo depois de ter iniciado funções como primeiro-ministro garantiu, na Cimeira Humanitária Global, que era sua vontade “não deixar ninguém para trás”, demarcando-se dos europeus que defendem o encerramento de fronteiras e sustentando que os fenómenos das migrações são “tão antigos quanto a humanidade”, razão pela qual não devem ser “demonizados”.

Num país em quebra demográfica, onde as percepções negativas em relação à vinda de imigrantes até têm vindo a descer, nem sequer é muito difícil ter esta posição, mesmo que o aparecimento de vozes de extrema-direita no Parlamento deva servir como alerta para a possibilidade de sentimentos de rejeição, antes reprimidos, poderem vir à luz do dia. Não se duvide que os oportunistas, se pressentirem a oportunidade, a vão agarrar com as duas mãos.

Só que, como em muitas outros assuntos, uma coisa é o que se diz, mas a coisa certa, aquela que vale mesmo, é a que se faz. Números de 2018 mostravam que Portugal, desde 2015, tinha recebido, ao abrigo dos programas de recolocação, reinstalação e acolhimento voluntário europeus, 1886 refugiados, o que correspondia a menos de metade da quota estabelecida para o país, de 4486 pessoas. A geografia e a condição económica do país serão boas justificações, mas o empenho político pode ser uma boa ferramenta para contrariar isso.

Muito mais complicado de encontrar justificação é quando um governo amigo dos imigrantes e refugiados não consegue encontrar forças para contrariar as burocracias e as limitações de serviços que fazem com que um pedido de nacionalidade demore três ou quatro anos para ser despachado. E nos píncaros do inexplicável está um governo que acolhe refugiados, mas depois permite que passem à situação de ilegais por completa ineficiência dos serviços que deviam tratar dos papéis sem os quais não podem ter uma vida activa. Que o Ministério da Administração Interna decida ignorar a situação só acrescenta absurdo ao inexplicável.

Como dizem os anglo-saxónicos: “Put your money, where you mouth is.” Ou de forma mais latina: “Já chega de conversa, precisamos é de acção.”

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