Migração

A questão dos refugiados também desperta uma escola que respira Europa

Eurodeputados José Manuel Fernandes e Sandra Pereira debateram questões migratórias numa escola de Famalicão. Social-democrata defendeu que países devem fazer uma selecção de imigrantes para evitar ascensão da extrema-direita e eurodeputada da CDU recusou a ideia lembrando que refugiados fogem à “guerra e à fome”.

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A questão migratória com que a União Europeia se debate, principalmente desde 2015, levou os eurodeputados José Manuel Fernandes e Sandra Pereira a Famalicão para apresentarem as suas posições e contarem experiências pessoais alusivas à situação, algumas de tirar o sono. A sessão decorreu na Escola Secundária Camilo Castelo Branco, que se tem distinguido pelas iniciativas dos alunos sobre a Europa.

Apesar das visões diferentes, os eurodeputados José Manuel Fernandes e Sandra Pereira concordaram que a União Europeia (UE) poderia fazer mais e melhor para solucionar ou, pelo menos, atenuar uma crise migratória que levou o número de pedidos de asilo a ultrapassar os 1,2 milhões, nos anos de 2015 e de 2016, segundo dados do Eurostat. A situação continua a povoar algumas zonas de países como a Jordânia, a Turquia e a Grécia com campos de refugiados, como acontece em Samos, e a causar a morte a quem tenta chegar à Europa.

As intervenções decorreram nesta sexta-feira à noite, em Vila Nova de Famalicão, numa sessão do Chá Europeu, iniciativa organizada desde 2019 pelo Clube Europeu da Escola Secundária Camilo Castelo Branco, um dos 25 estabelecimentos nacionais que integra o projecto Escola Embaixadora do Parlamento Europeu.

Diante de uma plateia distribuída por várias mesas redondas num espaço polivalente da escola, a rondar uma centena de pessoas, entre alunos, ex-alunos e outros cidadãos, o eurodeputado do Partido Popular Europeu sublinhou que “não é fácil adormecer” após visitas a campos de refugiados na Grécia, na Turquia, no Líbano e na Jordânia, com pessoas, algumas delas qualificadas profissionalmente, a sobreviverem em tendas sem condições, jovens impedidos de estudar e famílias a quererem voltar para casa. “Na Jordânia, houve uma situação em que o Canadá dava o visto a uma família, mas a avó dessa família recusou, porque achava que nunca mais voltaria à Síria”, contou o deputado filiado no PSD, membro do hemiciclo europeu desde 2009.

José Manuel Fernandes enalteceu o “projecto de paz” que a União constitui, mas admitiu falhas na resposta à questão migratória, tendo atribuído as culpas a certos “egoísmos nacionais” aproveitados para a promoção de comportamentos populistas, em Estados como a Polónia e a Hungria, e aos problemas na delimitação das responsabilidades nacionais e europeias. “Se a UE não faz nada, está a ser desumana. Mas, quando faz, é várias vezes acusada de interferir com a soberania nacional”, descreveu.

“Política comum para a mão-de-obra”

A União, acrescentou o eurodeputado, deveria adoptar uma “política comum para a mão-de-obra” e assim aproveitar os migrantes e os refugiados para revitalizar a sua indústria. José Manuel Fernandes rejeitou, porém, o acolhimento de todos os migrantes e refugiados de uma assentada, sem selecção. Alegou até que esse tipo de solução poderia desequilibrar a Europa e catalisar a ascensão da extrema-direita, algo que, no seu entender, agradaria ao líder russo, Vladimir Putin. “Angela Merkel acolheu refugiados para rejuvenescer a indústria da Alemanha, mas pagou a factura da subida da extrema-direita”, descreveu.

Foi precisamente na selecção dos migrantes e dos refugiados a acolher que a discordância entre os eurodeputados aflorou. Após ter lido o poema Casa, de Warsan Shire, autora britânica filha de pais somalis, para evocar os dramas vividos por um refugiado, Sandra Pereira lembrou que as pessoas envolvidas nesta crise só deixam a sua residência por causa da “guerra e da fome” e criticou a “xenofobia e o racismo” associados a eventuais processos de selecção no acolhimento de migrantes. A eurodeputada pertencente ao grupo Esquerda Unitária Europeia-Esquerda Verde Nórdica (GUE-NGL) considerou, aliás, que a UE tem responsabilidades na “desestabilização dos territórios” de onde provêm os migrantes e está, por isso, a falhar-lhes duplamente quando não concede asilo.

“As pessoas ficam retidas em campos, enquanto as respostas aos pedidos de asilo podem demorar anos. E muitas delas estão sujeitas a condições dignas de um campo de concentração”, disse a eurodeputada do PCP, criticando ainda a interferência da Frontex, agência da UE para o patrulhamento de fronteiras, na soberania dos Estados e também a forma como Estados-membros como a Croácia tentam empurrar migrantes para países vizinhos.

Alvo de algumas questões do público sobre integração de refugiados e ainda sobre coexistência e respeito entre diferentes culturas, o painel contou ainda com as intervenções de José António Salcedo, engenheiro e empresário que defendeu o acolhimento dos refugiados que possam acrescentar mais conhecimento e valor à sociedade portuguesa, do vice-presidente do agrupamento de escolas, Pedro Oliveira, e ainda do vereador da Câmara Municipal de Famalicão, Augusto Lima. A autarquia, frisou o responsável pelos assuntos económicos, tem beneficiado da chegada de imigrantes – eram 1386, de 62 países, no final de 2018 – para rejuvenescer a indústria de um concelho que, no ano passado, ultrapassou os dois mil milhões de euros de exportações e apresentou uma taxa de desemprego de 3,2%.

Trabalhar para a Europa fora da sala de aula

Além das intervenções sobre a questão dos refugiados, quem se deslocou à Escola Secundária Camilo Castelo Branco pôde também tomar um chá ou ouvir a música apresentada pela orquestra do agrupamento de escolas, entre os discursos. A preparação da quarta sessão do Chá Europeu sobre a UE começou assim na tarde de sexta-feira, com vários alunos a reunirem-se para prepararem o sistema de som, para deslocarem e organizarem mesas e para decorarem o espaço com cartazes informativos e símbolos europeus; havia várias estrelas distribuídas pelo salão no dia em que uma delas caiu – o “Brexit” concretizou-se às 23h de sexta-feira. “O evento foi semelhante aos anteriores e é sempre preenchido”, resumiu André Nogueira, o elemento mais antigo do Clube Europeu da escola, actualmente no 12.º ano de Línguas e Humanidades.

Após a discussão de temas como o programa Erasmus e as alterações climáticas, o Chá Europeu prossegue em Março, mas a iniciativa desse grupo criado no ano lectivo 2017/18, que reúne hoje cerca de 80 estudantes, vai mais além. O facto de terem vencido o concurso nacional das Escolas Embaixadoras do Parlamento Europeu em 2018 e viajado a Estrasburgo, cidade francesa que reparte a sede do Parlamento Europeu com Bruxelas, motivou os alunos a aprofundarem o trabalho desenvolvido no clube sobre a Europa. “A possibilidade de uma recompensa como esta é uma óptima forma de cativar os alunos para temas políticos, relacionados com a União Europeia”, salientou o aluno, tendo ainda defendido que a aprendizagem “informal” de “temas formais” é mais desafiante do que o ensino em contexto de sala de aula.

Impossibilitada de participar no concurso nacional de 2019, a Escola Camilo Castelo Branco venceu o de 2020, em Janeiro, e tem nova viagem a Estrasburgo marcada para 11 de Abril. Aluna do 12.º ano de Ciências Socioeconómicas, Débora Sá, frisou que os concursos a têm levado a compreender melhor a política da UE e a “trabalhar mais arduamente”, mesmo no contexto curricular. Há menos tempo no clube, Maria Azevedo, do 11.º ano de Ciências e Tecnologias, salientou que o clube se reúne todas as semanas, com temas estudados em contexto informal, como o ambiente, que nunca seriam tratados na sala de aula.

À frente deste grupo de alunos que respira Europa, está Carla Machado, professora de Inglês que substituiu, neste ano, a professora Elisa Costa na liderança do projecto. Há dois anos a leccionar naquela escola, a docente considerou que os alunos do Clube Europeu são mais interessados do que a média. “Temos uma relação muito próxima, de muito humor, de muito conhecimento, algo difícil de ver numa turma de sala de aula. Estes alunos têm um espírito aberto a novas experiências e desafios”, descreveu.