Explicar o coronavírus aos mais novos: arme-se de calma e de factos

Ainda não se sabe tudo sobre o vírus SARS-CoV-2, mas os mais novos já têm perguntas. E medos. Como conversar com crianças e adolescentes sobre o que foi já declarado como emergência de saúde pública de interesse internacional.

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Conhecer os factos é o primeiro passo para desconstruir as fake news Guglielmo Mangiapane/Reuters

Muitas perguntas sem resposta e notícias que, a cada instante, revêem em alta o número de vítimas — de momento, já foram contabilizados 86 mil casos confirmados e 2941 mortos.  Um cenário que tem tanto de preocupante como potencial para se tornar alarmista, causando assim ainda mais danos. De sublinhar que quase metade dos diagnósticos, mais precisamente 39.761, já não apresenta sintomas da doença Covid-19.

O novo coronavírus domina a actualidade, entra-me em casa diariamente pela televisão e pela rádio e, nos últimos dias, senta-se à mesa do jantar, com os miúdos preocupados que o vírus, de que toda a gente fala, esteja a vir a galope directamente ter com eles.

Entre uma garfada e outra, falamos sobre a origem de várias doenças, das diferenças entre bactérias e vírus, do que aconteceu noutros surtos, como em 2003, durante a epidemia da SARS. Conversamos sobre os vídeos que lhes vão surgindo em diferentes plataformas e que descrevem um cenário dantesco na cidade chinesa de Wuhan ou das teorias da conspiração que parecem saídas de um argumento de um filme de Hollywood.

O assunto é sério, e os três estão atentos às suspeitas da existência de casos em Portugal. A cada suspeita, as perguntas multiplicam-se. Até que, depois de os resultados das análises serem informados como negativos, se mostram mais relaxados.

Certo é que, sobretudo depois de a Organização Mundial de Saúde ter declarado emergência de saúde pública de interesse internacional, muitos pais, professores e restantes adultos passaram a ter de lidar, além de com o seu próprio medo, com as perguntas dos mais novos. E, num país como Portugal que, até à data, não tem nenhum caso identificado, não há nenhuma razão para puxar o assunto antes que eles perguntem. “É melhor esperar que a criança pergunte e, só depois, responder — com verdade”, considera a pedopsiquiatra Maria José Gonçalves, uma das criadoras do Instituto de Psicanálise, um órgão da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.

Sendo que o discurso dependerá da idade do menor e da sua capacidade de compreensão, uma coisa é certa: “A capacidade de acalmar a criança vai depender do estado de ansiedade dos pais.” Por isso, a primeira coisa a fazer passa por o próprio adulto evitar um estado alarmista, que poderá resultar numa criança com medo, e procurar que a conversa aconteça num “clima de tranquilidade”.

No entanto, não há problema em conhecer os factos que, caso seja necessário, são os melhores amigos para desconstruírem as fake news a que muitos miúdos, sobretudo em idade escolar e com um smartphone à mão, terão acesso.

Primeiro facto que poderá ajudar a combater o medo: não existe, até ao momento, nenhum caso diagnosticado no país (vale a pena repetir). Depois, aquele vídeo que terá sugerido que o vírus nasceu numa sopa de morcego não só não é de agora como foi filmado na Micronésia — por isso, se os miúdos chegarem a casa a dizer que não querem comer sopa para não apanharem o vírus, gabe-lhes a esperteza, mas desencoraje prontamente as crendices que têm vindo a ser promovidas em torno da doença.

Mas, mesmo mantendo alguma leveza, não valerá a pena embelezar a verdade caso surja a pergunta sobre o que se passa pelo mundo. Para já, o que se observa é que o vírus é muito contagioso, existindo 86 mil casos identificados, a maioria na China. Destes, quase 3000 não sobreviveram — o que representa, para já, uma taxa de mortalidade de 3,4%. No entanto, também há números animadores: quase 40 mil pessoas que apanharam o vírus já se livraram dele e apresentam-se totalmente recuperadas.

Seja como for, aproveite as perguntas para alimentar boas práticas — tão eficientes para este como para com qualquer outro vírus: lavar bem as mãos, com água e sabonete ou com uma solução própria (será uma boa altura para confirmar se as escolas os disponibilizam), evitar andar com as mãos pela cara (olhos, nariz, boca) e usar o antebraço para proteger os espirros ou a tosse.

PÚBLICO -
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Direcção-Geral de Saúde

(29/02/2020 - actualiza dados sobre o vírus, a doença e números de casos, óbitos e doentes recuperados)


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