Escritora Regina Guimarães acusa direcção do Teatro Municipal do Porto de censura

O director do teatro, Tiago Guedes, disse que a não-publicação do texto da dramaturga teve a concordância do encenador do espectáculo Turismo, que esteve em cena no último fim-de-semana no Teatro do Campo Alegre.

Regina Guimarães numa manifestação no Porto, em 2007
Fotogaleria
Regina Guimarães numa manifestação no Porto, em 2007 FERNANDO VELUDO / PUBLICO
Fotogaleria
Tiago Guedes com Paulo Cunha e Silva, em 2014 Miguel Nogueira

A escritora Regina Guimarães acusou esta segunda-feira a direcção do Teatro Municipal do Porto (TMP) de ter censurado um texto da sua autoria no qual criticava a noção de “cidade líquida” de Paulo Cunha e Silva, ex-vereador da Cultura da autarquia portuense, que morreu em 2015.

O texto foi escrito para integrar a folha de sala – que não chegou a existir – do espectáculo Turismo, da Companhia A Turma, com texto original e encenação de Tiago Correia, que subiu ao palco nos dias 31 de Janeiro e 1 de Fevereiro no Teatro do Campo Alegre, no Porto. O texto também integrava o livro homónimo, editado pelas Edições Húmus e cuja venda no Teatro do Campo Alegre foi igualmente proibida, de acordo com Regina Guimarães.

“Penso que o próprio Tiago Correia, encenador desta peça, não sabe exactamente de onde é que vem a censura. O que é certo é que houve, de facto, censura”, disse Regina Guimarães em declarações à Lusa.

De acordo com escritora, o texto que alega ter sido censurado aborda a questão da “turistificação” e da noção de “cidade líquida”, rectificando o conceito que “foi apregoado pela cidade durante anos”, mas “não é um texto contra a Câmara Municipal do Porto”, sublinhou.

“Isto não cabe na cabeça de ninguém. Isto é um precedente muito grave, porque é evidente que a câmara é um elemento importantíssimo na vida cultural portuense. Isto é um pau de dois bicos, porque obviamente que eles fizeram a diferença toda ao tomarem em mãos um estado da cidade que era de grande desertificação cultural, mas ao mesmo tempo eles não podem arrogar-se de ser donos da criação, do pensamento e das opiniões”, defendeu Regina Guimarães.

“É surpreendente que seja uma trupe de artistas tão novos – com caminho percorrido e obra feita em sua dura flor da idade – a abraçarem este projecto que lança o seu olhar sobre o aqui e agora e, sobretudo, sobre o equívoco da cidade líquida de um modo tão indisfarçado”, lê-se no texto alegadamente censurado.

Numa nota de rodapé, a escritora refere depois que o antigo vereador Paulo Cunha e Silva inundou os portuenses de “discursos delirantes acerca da ‘cidade líquida’ inspirada em Zygmunt Bauman, no intuito de legitimar teoricamente as escolhas políticas na sua área de actuação, positivando, por ignorância ou descarada mentira, uma noção que, para o sociólogo inventor do conceito, consubstancia o horror contemporâneo da perda de laços”. E acrescenta que, “significativamente, o erro – propositado ou involuntário – de Paulo Cunha e Silva nunca foi publicamente denunciado pelos sociólogos da cidade e da sua academia”.

O alegado acto de censura do texto de Regina Guimarães levou diversas personalidades a mostrarem-se solidárias com a escritora, entre elas as actrizes Sara Barros Leitão e Diana Sá. Esta última escreveu na rede social Facebook: “Somos livres... Até certo (Porto)Ponto”. Já o director artístico da companhia Teatro da Didascália, Bruno Oliveira Martins, questiona: “A censura ter-se-á instalado no Teatro Municipal do Porto?”

Também na rede social Facebook, o deputado do Bloco de Esquerda José Soeiro partilha o texto cuja “divulgação foi proibida”, deixando toda a sua solidariedade a Regina Guimarães. “Fui ver a peça no sábado e estranhei não haver folha de sala. Afinal, não havia folha de sala porque ela foi censurada pelo Teatro Municipal da minha cidade”, lê-se na publicação.

Tiago Guedes justifica ausência do texto

Depois de num primeiro momento se ter escusado a prestar declarações, o director do TMP, Tiago Guedes, disse já esta terça-feira à Lusa que a não-publicação do texto de Regina Guimarães teve a concordância do encenador do espectáculo Turismo.

“A primeira coisa que fiz foi ligar para o encenador Tiago Correia, e perguntei-lhe se ele estava confortável com os conteúdos que estava a veicular para a folha de sala. Não tanto o texto da Regina Guimarães, mas uma nota de rodapé que não é acerca do seu espectáculo, mas é acerca do vereador da Cultura que faleceu e que, ainda para mais, é chamado mentiroso e ignorante”, explicou o director do TMP. Segundo Tiago Guedes, o encenador e director da companhia “pediu cinco minutos para falar com a sua equipa”, tendo ligado pouco depois a pedir desculpa, dando-lhe razão e concordando com a não-publicação da nota.

“Acho que o director do Teatro Municipal do Porto tem o direito de impedir que tal nota seja publicada numa folha de sala sobre um espectáculo. A Regina Guimarães não pode usar uma folha de sala de um espectáculo para veicular informação que ela legitimamente pode achar [relevante], mas não o pode fazer na folha de sala de um espectáculo”, defendeu.

A Lusa tentou ainda obter esclarecimentos por parte da Câmara Municipal do Porto, mas até ao momento sem sucesso.

Notícia actualizada com a declaração do director do Teatro Municipal do Porto, Tiago Guedes.

Sugerir correcção