Tiago Correia mostra as feridas abertas das cidades e dos que foram convidados a sair

Em Turismo, o encenador convida o público a reflectir sobre a identidade que ainda resta nas cidades assaltadas pelo fluxo turístico e sobre os destinos que ficaram por cumprir. Em cena no Teatro Campo Alegre, no Porto.

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PAULO PIMENTA
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As histórias repetiam-se, fazendo chamadas de capa nos jornais diários. Mudavam apenas os protagonistas, as caras, os nomes. Tiago Correia acompanhou o drama daqueles que se viram sem a casa de sempre quase da noite para o dia. O encenador e dramaturgo temeu, inclusive, que a incerteza lhe tocasse também: era uma “espécie de ameaça que estava a viver na pele”. “Se de repente a minha renda subisse para o triplo, como é que eu ia continuar a trabalhar numa companhia de teatro? Para onde é que ia morar? Era um medo meu, mas que não era só meu.”

Estávamos em 2017 e uma série de episódios ocorridos em cidades da Europa captaram a atenção do encenador. Nas paredes de Amesterdão ou de Veneza pintavam-se frases como “Tourists go home”, em Barcelona registavam-se os primeiros actos violentos contra visitantes estrangeiros. Turismo, a peça que se estreia esta sexta-feira no Teatro Campo Alegre, no Porto, “nasce um bocadinho a partir daí”. Mas não só. O incêndio que em Março de 2019 deflagrou junto ao Mercado do Bolhão e vitimou um homem de 55 anos representou aquilo que para Tiago Correia “é o limite”. “Aconteceu quando eu já estava em pesquisa e foi incontornável. Foi tão tocante que influenciou a escrita de tudo”, confessa ao PÚBLICO.

No processo de construção do argumento, Tiago estudou “os casos da Europa à distância”, mas também através de viagens, nomeadamente ao Sul de Itália. “Toda a minha vida se tornou uma pesquisa”, admite. Por cá, a cidade do Porto e a região do Algarve foram autênticos laboratórios de trabalho: “No Algarve a transformação já aconteceu há mais de 30 anos, enquanto em Lisboa e no Porto ainda estamos no início desse processo.”

Não é por isso de estranhar que em palco esteja presente “uma cidade que representa todas, sem ser nenhuma”. Nela vivem seis personagens: uma idosa doente, a quem o Alzheimer roubou qualquer possibilidade de independência; um polícia, que se esforça diariamente por manter a ordem no lugar onde nasceu mas que parece já não conhecer; uma aspirante a actriz que se mudou para estudar representação, mas que se vê obrigada a trabalhar no turismo para poder viver; uma sem-abrigo que culpa o fenómeno turístico pelo rumo da sua vida; um investidor sem escrúpulos para quem o dinheiro tudo compra; e um turista francês que parece confundir-se com tantos outros que deambulam pelos centros históricos de câmara fotográfica em riste.

É através dos laços entre estas personagens que a trama acaba por se desenvolver. Numa tentativa de assegurar um fim de vida digno para a mãe doente, o polícia decide arrendar a casa que esta possuía no centro da cidade e mudar-se para os subúrbios, onde o custo de vida é mais baixo. Na esperança de estar a tomar a decisão mais acertada, acaba por privá-la do seu último desejo: viver o fim da vida no único espaço a que conseguiu chamar casa. É lá que a jovem actriz habita, ainda que para assegurar o pagamento da renda se desdobre em múltiplos empregos que vão hipotecando o seu sonho de vingar na representação, motivo pelo qual se mudou para uma cidade totalmente desconhecida. Até à chegada do investidor que faz uso do seu capital para aliciar os que, por se encontrarem em situações fragilizadas, parecem ceder mais facilmente ao chamamento do dinheiro.

Tiago Correia rejeita a ideia de que a peça tenha a pretensão de fazer qualquer tipo de “julgamento” sobre as personagens. “Todos têm os seus motivos, não há condenações, nem bons ou maus. Cada um luta pela sua sobrevivência.” A personagem do turista francês serve para relembrar o público que “todos gostamos de viajar e quando o fazemos procuramos os voos mais baratos”. Na mesma linha, também há lugar para as mudanças positivas que o fluxo turístico veio trazer às cidades. O encenador sublinha, por isso, a intenção de que a peça seja “mais sobre relações humanas do que sobre o turismo propriamente dito”; daí que estejam representadas várias gerações, numa história que se desenrola em três dias.

Mas Turismo não é a única peça de Tiago Correia em cena por estes dias. Em Lisboa, Alma, outro texto da sua autoria, ocupa desde esta quinta-feira o Teatro Aberto, numa encenação de Cristina Carvalhal. É, diz o dramaturgo, uma consequência do Grande Prémio de Teatro da Sociedade Portuguesa de Autores, que já recebeu em duas ocasiões – em 2016 com Pela Água e em 2018 com Alma. Com eles, operou-se “uma viragem” na carreira de Tiago Correia: “Queria assumir-me como dramaturgo e encenador para os meus próprios textos.”

PÚBLICO -
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Tiago Correia paulo pimenta

Quase em simultâneo, A Turma – colectivo que co-fundou em 2008 e dirige desde 2018 - conseguiu um financiamento bianual da DGArtes, o que permitiu pensar o futuro da companhia a partir de uma base mais sólida depois de dez anos “conturbados”. “Agora começo a ter condições para fazer as coisas de forma mais assumida, um bocadinho melhor”, diz. Os próximos meses de 2020 serão igualmente preenchidos para o encenador de Tomar. Depois de Turismo, volta a subir ao palco com A Turma, desta feita para apresentar Alma no Teatro Nacional de São João, enquanto Pela Água continua em digressão pelo país. Tiago Correia atravessa, por isso, um “momento feliz” numa carreira em que, assegura, sempre teve o “privilégio e a dificuldade de ser independente”.

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