Tenente da Guarda Costeira dos EUA condenado por planear ataques terroristas

O tenente Christopher Hasson, de 50 anos, tinha um arsenal de guerra em casa, escreveu um manifesto e tinha uma lista de alvos com os nomes de políticos democratas, jornalistas e juízes. O seu caso mostra as dificuldades que os procuradores enfrentam na barra nos tribunais.

Guarda Costeira dos Estados Unidos
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O tenente foi acumulando armas em sua casa ao longo de meses Procuradoria do distrito de Maryland

Armazenou um arsenal de guerra em casa, leu manuais de guerra biológica e de tiro de precisão, escreveu um manifesto e preparava-se para levar a cabo ataques contra políticos do Partido Democrata, jornalistas, professores e juízes quando foi detido pelo FBI. Christopher Hasson, tenente na Guarda Costeira americana de 50 anos, foi esta sexta-feira condenado a 13 anos de prisão por um tribunal federal do estado de Maryland, nos Estados Unidos. 

O juiz federal George Hazel considerou que o homem, apontado pelos agentes federais como supremacista branco, estava a preparar um “ataque para causar muitas vítimas por causa das suas perspectivas nacionalistas”. Embora não tivesse cometido nenhum atentado, justificou o juiz, “a necessidade de proteger as pessoas é de grande importância”, disse o juiz.

Os agentes federais detiveram Hasson por ter armas de fogo e droga em sua casa e acusaram-no de estar a preparar ataques com motivações racistas contra uma lista de pessoas, entre as quais proeminentes políticos democratas. O tenente, na Guarda Costeira desde 1996, declarou-se culpado de posse de armas e droga, mas negou estar a preparar actos violentos, indo a julgamento.

No ano passado, um juiz de Maryland aceitou os argumentos dos advogados de defesa e ordenou a sua libertação, considerando que a acusação de estar a preparar atentados “não estava de acordo com os factos”. Mas outro juiz reverteu a decisão, por considerar que Hasson representava um risco para a sociedade. O militar da Guarda Costeira continuou detido e foi a julgamento.

O caso de Hasson é ilustrativo das dificuldades que os procuradores enfrentam na barra dos tribunais quando as autoridades policiais agem contra suspeitos de prepararem ataques terroristas domésticos nos EUA, normalmente de extrema-direita. Os investigadores podem classificar o suspeito “terrorista doméstico”, mas, diz o Washington Post, a lei federal não classifica o terrorismo doméstico como crime diferenciado e com sentenças próprias.

Assim, quando as autoridades dos EUA detêm uma pessoa suspeita de ser um terrorista doméstico antes de um ataque, a lista de acusações criminais possíveis não está necessariamente relacionada com terrorismo, como acontece com a posse ilegal de armas. O procurador é então obrigado a convencer o juiz de que o arguido pretendia realmente praticar actos terroristas.

Lista de alvos a abater

Mas, neste caso, as provas à disposição das autoridades eram sólidas. Quando o tenente foi detido, o FBI encontrou 15 armas de fogo (espingardas de assalto e pistolas) e outras armas, mais de mil munições, granadas de fumo, equipamento táctico, uma lista de alvos, livros militares práticos e um manifesto remetido para si próprio.

“Por favor, envia-me a tua violência para que a possa libertar nas suas cabeças. Guia o meu ódio para deixar uma última impressão neste mundo”, lê-se no documento. “Tenho de olhar com seriedade para os alvos individuais, para criar o maior impacto possível. Professores, políticos, juízes, esquerdistas em geral”.

Hasson referia-se a uma lista que tinha criado no Excel com os nomes de 12 políticos do Partido Democrata, entre os quais a líder da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, e a senadora Elizabeth Warren (pré-candidata às eleições presidenciais de Novembro) e jornalistas da CNN e da MSNBC. Além disso, os agentes federais encontraram ainda 30 doses de esteróides que, segundo o FBI, tinham como objectivo “aumentar a sua capacidade de conduzir os ataques”.

“Christopher Hasson pretendia causar violência com base nas suas crenças racistas e odiosas”, disse o procurador Robert Hur, pedindo uma pena de 25 anos de prisão para o militar. “Enquanto os extremistas continuarem a tentar prejudicar pessoas inocentes, continuaremos a usar todos os meios ao nosso dispor para o evitar”, disse o procurador, deixando claro que se o FBI não tivesse actuado “estar-se-ia agora a contar os cadáveres das vítimas do arguido em vez de anos de prisão”.

O tenente declarou-se inocente e afirmou nunca ter tido a intenção de “magoar alguém em toda a sua vida”. “Não estava a planear um ataque de alguma forma ou feitio”, disse Hasson, alegando ter renunciado entretanto aos seus escritos e que agora pensava que todas as pessoas devem ser tratadas de forma igual, independentemente da sua etnia, crença religiosa ou ideias políticas.

O supremacista branco tinha estudado formas de fabricar bombas artesanais e manuais práticos de tiro de precisão. E, na sua casa em Washington, foi encontrado ainda o manifesto do terrorista de extrema-direita norueguês Anders Breivik, responsável pela morte de oito pessoas num atentado bombista em Oslo e de 69 pessoas num ataque a um acampamento da juventude do Partido Trabalhista norueguês, em 2011.

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