Análise

As “sardinhas” desafiam Salvini

O movimento das “sardinhas” demorou um mês a tornar-se num facto político nacional em Itália. O paradoxo é que em vez de contestarem o poder, atacam a oposição, que é a Liga de Salvini.

Na Europa de hoje, as ideias rodam à velocidade das modas. Volto a visitar o laboratório italiano, o que mais aceleradamente inova. O facto de 48% dos italianos declararem desejar “um homem forte no poder”, que não tenha de se preocupar com eleições e parlamentos, criou algum alarme. O fenómeno não é exclusivo da Itália e faz despertar velhos fantasmas.

Façamos, no entanto, um exercício de memória. Há pouco mais de dois anos, em Março de 2017, o Movimento 5 Estrelas (M5S) ganhou as eleições italianas. Nessa altura era moda jurar pela democracia directa e por Rousseau. Os seus mentores, Beppe Grillo e Davide Casaleggio, anunciavam o advento da nova era em que os cidadãos “em rede” de tudo decidiriam. “A democracia representativa – a política entregue a representantes – está gradualmente a perder significado”, dizia Casaleggio ao Washington Post.

O Parlamento continuaria a funcionar durante um período de transição, em que os cidadãos elaborarão projectos de lei que submeteriam a referendo. Dizia Grillo que quem é capaz de gerir a economia doméstica será capaz de decidir o orçamento. Já Lenine tinha dito algo parecido sobre uma célebre cozinheira (em O Estado e a Revolução).

Para alcançar a maioria absoluta e governar, o M5S aliou-se com a Liga, de Matteo Salvini. Era o primeiro governo populista na Europa Ocidental e, precisamente, uma aliança entre populismos, de esquerda e direita. O resultado é conhecido. Subiu a cotação popular da Liga, desceu a do M5S. Salvini vai tornar-se no modelo do “homem forte”, enquanto os chamados “grillini” se convertiam ao mais radical parlamentarismo.

Hoje, governa uma frágil aliança entre o M5S e o Partido Democrático (PD, centro-esquerda). A Liga continua a liderar as sondagens. Aposta nas eleições regionais de Janeiro, designadamente na Emília-Romanha (capital Bolonha), antigo “baluarte vermelho”. Salvini quer provocar eleições. Calcula que se “libertar Bolonha da esquerda”, a coligação governamental rebentará.

Higiene da linguagem

Passemos a outro tópico. Beppe Grillo está arrependido dos seus excessos de linguagem e do vaffanculo com que durante anos bombardeou os adversários e o “sistema”. Publicou esta semana um post no seu blogue sobre o movimento das “sardinhas”, a que fiz alusão na crónica anterior: “As sardinhas são um movimento higiénico-sanitário”. Porquê? “Apenas reclamam a higiene da palavra. Reclamam uma vigorosa convalescença das línguas e das mentes”, em contraponto com as “ameaçadoras fanfarronadas de um chefe de bando.” É uma referência a Salvini.

Terá chegado à Itália a moda da linguagem “educada”? Estarão os italianos cansados da grosseria? Grillo confessa: “Também nós no passado exagerámos um bocado. Mas agora já não o fazemos.” E faz votos de que as “sardinhas continuem a desinfectar”.

As “sardinhas” nasceram em Bolonha no dia 14 de Novembro. Foi inicialmente uma espécie de flash mob lançado por quatro jovens para contestar Salvini, em campanha eleitoral na cidade. Apelavam a uma mobilização superior à da Liga, com as pessoas “apertadas como sardinhas”. E “sem nenhuma bandeira, nenhum partido, nenhum insulto”. Nenhum insulto a Salvini. Foi um sucesso que contagiou outras cidades e mobilizou no sábado dezenas de milhares de pessoas em Roma. No prazo de um mês, o movimento “tornou-se num facto político de dimensão nacional”, resumiu o Corriere della Sera.

Recusam transformar-se em partido. Não têm um programa. Contestam Salvini, o “homem forte”, a Liga, o soberanismo, o racismo e a xenofobia. Têm uma identidade vincadamente de esquerda. Cantam o hino italiano, Fratelli d’Italia, e o Bella Ciao, da Resistência. O fascínio que imediatamente provocaram têm a ver com uma coisa simples: a esquerda perdeu para a direita de Salvini a presença nas ruas. Subitamente, as “sardinhas” reinventam a mobilização e reapropriam-se das praças. Atraem especialmente os jovens.

Observa o correspondente do Guardian que o “estilo local” do movimento pode triunfar onde falhou a esquerda, “incapaz de encontrar o vocabulário e as ideias para desafiar a retórica fracturante e até violenta de personagens como Salvini e Marine Le Pen. A ajuda está ao alcance da mão, sob a forma de um florescente movimento de base e que se inspira no símbolo de um peixe.”

A receita é original. Por um lado, denunciam a antipolítica, defendem os partidos, exigem que os políticos façam política dentro das instituições e cumpram os mandatos que assumiram. A única bandeira é a Constituição. Propõem que a violência verbal seja equiparada à violência física. Contra o populismo, denunciam as promessas do “pensamento simples” e defendem “a complexidade”. São “a dieta moderada” que a Itália parece apreciar, escreve La Repubblica. Têm uma palavra de ordem sedutora: “Antes no azeite que no ódio”. E que soa melhor em italiano: “Meglio sott’olio che sott’odio.” 

Oposição à oposição

O paradoxo é evidente: mobilizam-se, não contra o poder, mas contra a oposição. Será também o seu ponto fraco, observa o politólogo Giovanni Orsina. O que os une é a oposição a Salvini. E aqui não são originais. “Neste tempo, a política é sempre ‘contra’. O M5S era contra o establishment e o PD. A Liga contra a Europa e os europeístas. As ‘sardinhas’ contra os soberanistas. Quando se começa a ser a favor de qualquer coisa, os apoios caiem imediatamente, porque é difícil dizer coisas que agradem a todos.”

Outro aparente paradoxo é assinalado no Corriere della Sera pelo colunista Paolo Franchi: “É um movimento animado pelos filhos (cultos) das classes médias urbanas (cultas) que no passado foram a força propulsora do centro-esquerda italiano.” E contestam Salvini, o líder que seduz os sectores mais modestos das mesmas classes médias. “O seu papel foi despertar uma esquerda resignada a dar por perdida a ‘Emilia rossa’. Em política nada é impensável.”

“Os italianos cansam-se muito rapidamente e procuram rostos novos e posições novas”, diz Orsina. Mas não é apenas volubilidade. O laboratório político italiano funciona em alta rotação. A Itália inventou o eurocomunismo, as “togas vermelhas” da Operação Mãos Limpas, o populismo mediático de Berlusconi e depois o de Beppe Grillo. 

Se a Itália gosta de ser precursora, ensina também a ser prudente: o que hoje parece avassalador pode amanhã estar fora de moda. Tempos incertos.

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