Itália tem um “acordo político” para um novo governo de Conte

Di Maio disse ao presidente Mattarella que o 5 Estrelas e o PD têm uma maioria para governar. Salvini chama “indecoroso espectáculo” à negociação entre os dois partidos mais votados da eleição de 2018.

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Sergio Mattarella com a delegação do 5 Estrelas liderada por Luigi Di Maio Reuters

“Há um acordo político com o Partido Democrático (PD) com o fim de que Giuseppe Conte receba de novo o encargo de ser presidente do conselho [primeiro-ministro] e de tentar formar um governo de longo prazo”, disse Luigi di Maio, o líder do Movimento 5 Estrelas, depois da audiência com o Presidente italiano, Sergio Mattarella.

Di Maio, que está à frente do partido mais votado nas eleições de Março de 2018, concluiu o segundo período de audiências levado a cabo pelo chefe de Estado para encontrar uma solução para a crise política desencadeada pela demissão de Conte, forçada por uma moção de desconfiança apresentada pelo ministro do Interior e líder da Liga, Matteo Salvini.

As garantias dadas por Di Maio, depois de Nicola Zingaretti, líder do PD, ter afirmado ao Presidente que o seu partido está disposto a governar em coligação com o M5S, permitem agora a Mattarella convidar Giuseppe Conte para formar um novo governo – o que acontecerá esta quinta-feira. Muitos chamam-lhe “Conte 2”, continuação de que o PD procura distanciar-se a todo o custo.

“Não temos nenhuma estafeta para correr e não há nenhum testemunho para receber, antes um novo desafio para começar”, sublinhou Zingaretti à saída do seu encontro com o chefe de Estado.

O líder do PD insistiu na necessidade de delinear um programa de governo que seja de mudança e descontinuidade. “Amamos Itália e acreditamos que vale a pena tentar esta experiência”, acrescentou.

“Em tempos complicados como os de hoje, abstrair-se da responsabilidade da coragem de tentar é a única coisa a que não podemos e nem queremos permitir-nos. Pretendemos acabar com o tempo do ódio, do rancor e do medo”, sublinhou Zingaretti.

Para o 5 Estrelas, que fez finca-pé da continuação de Conte à frente do executivo, mesmo não tendo este qualquer vínculo formal com o partido, a presença do primeiro-ministro “dá garantias” de que as políticas da formação populista serão levadas a cabo.

Di Maio afirmou, na conferência de imprensa, ter recebido o convite do PD para assumir funções de primeiro-ministro, mas preferiu declinar a oferta, tecendo rasgados elogios ao homem que poucos conheciam em 2018 quando assumiu funções. “Há mais de um ano, depois de ganhar as eleições, abdiquei do papel de primeiro-ministro e, graças a essa escolha, a Itália conheceu Conte”, disse Di Maio, elogiando o chefe do Governo demissionário como “um homem de grande coragem que demonstrou a vontade de servir o país com espírito desinteressado e de abnegação”.

Uma escolha difícil de engolir para alguns no PD, como o senador Matteo Richetti, o único que votou contra essa intenção na reunião da cúpula directiva. “Já não reconheço o meu partido. O documento que [o eurodeputado Carlo] Calenda escreveu dizia não ao 5 Estrelas e agora vamos com o M5S. Éramos contra Conte e hoje assumimos que ele é o primeiro-ministro”, dizia o senador à saída da reunião da direcção do PD. “Queria um governo generoso em que as forças políticas dessem um passo atrás. Estou cansado de mandatos que tiram a dignidade aos militantes do PD”, exclamou.

O autor do documento, Carlo Calenda, por seu lado, anunciou a sua decisão de abandonar o PD por causa do primeiro-ministro. “Falámos de descontinuidade com o Governo de Conte e agora aceitamos Conte como primeiro-ministro. Como é que pedimos a Conte que desfaça aquilo que já fez?”, questionou o eurodeputado.

Salvini, também recebido por Mattarella esta quarta-feira, disse: “Os italianos assistem desconcertados ao indecoroso espectáculo e teatro, esse da guerra das poltronas, a que assistimos nos últimos dias – 60 milhões de italianos são reféns de 100 parlamentares que têm medo de perder a sua poltrona.”

Para o líder da extrema-direita, é muito simples, o M5S e o PD podem ter maioria no Parlamento, mas estão em minoria no país. Até porque, não deixou de comentar, “o PD perdeu todas as eleições que podia ter perdido nos últimos anos”, logo não devia ter legitimidade política para entrar no executivo.

Silvio Berlusconi, líder da Força Itália – um dos partidos que se coligariam com a Liga, em caso de eleições antecipadas –, transmitiu a Mattarella a sua “preocupação” com uma situação que considerou “perigosa”.

“Mais uma vez expressámos ao presidente Mattarella a necessidade de dar novamente a palavra aos italianos, expressámos a nossa preocupação com o cenário que está a surgir. O governo PD-M5S é uma solução politicamente errada, inadequada para resolver os problemas deixados pelo governo”, explicou o antigo primeiro-ministro, hoje eurodeputado.

Obstáculos

As negociações da coligação ainda estão longe de terminadas e podem mesmo ser postas em causa pela exigência do 5 Estrelas de que o acordo seja referendado digitalmente pelos militantes do movimento. Di Maio quer que os seguidores inscritos na plataforma Rousseau tenham a última palavra a dizer sobre o acordo de coligação com o PD.

Outro problema apresentado é a questão do vice-primeiro-ministro. O M5S queria manter a estrutura que tinha até agora no Governo com a Liga, Conte como primeiro-ministro e duas vice-lideranças, uma para cada um dos partidos: Di Maio e Salvini. Zingaretti não quer essa repetição, considerando até que essa bicefalia foi uma das razões para a queda do executivo.

O PD propôs, por isso, que haja apenas um vice-primeiro-ministro e que esse seja ocupado por uma pessoa indicada pelo seu partido. A justificação é simples: se o 5 Estrelas escolheu o primeiro-ministro, é justo que seja o partido de centro-esquerda a ficar com o número dois.

Em relação ao Ministério do Interior, que o PD referiu durante esta quarta-feira que havia sido exigido por Di Maio para si, o 5 Estrelas negou a existência dessa proposta e negou que o seu líder pretenda suceder a Salvini nesse ministério.

A princípio ficou a saber-se também que Beppe Grillo, um dos fundadores do movimento e sua máxima referência, defende a criação de um governo sem membros dos partidos políticos, com figuras respeitadas nas suas áreas sem vínculos partidários. Resta saber se essa ideia é partilhada pela liderança actual do M5S.