Utentes do Oeste revoltados com “impasse” nos passes inter-regionais para Lisboa

Quem viver na área metropolitana paga 40 euros de passe. Se estiver um ou dois quilómetros fora, já paga 100.

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Rui Gaudencio

Utentes de transportes públicos residentes nos municípios do Oeste não se conformam com o “impasse” em que caiu a questão da criação de um passe inter-regional que reduza os custos das ligações com a Área Metropolitana de Lisboa (AML). Uma representante de parte dos utentes reuniu, na tarde de sexta-feira, com o secretário executivo da Comunidade Intermunicipal do Oeste (OesteCIM), mas Maria José Reis saiu preocupada com a indefinição que ainda rodeia o problema. Se os passes inter-regionais, prometidos em Setembro passado, não avançarem até Janeiro, Maria José Reis garante que os utentes vão procurar formas de dar mais visibilidade ao seu descontentamento.

Depois das alterações introduzidas em Abril, com a aplicação do PART (Programa de Apoio à Redução Tarifária), um utente de transportes públicos residente no concelho de Alenquer tem que pagar um pouco mais de 100 euros por dois passes que lhe garantam ligações com Lisboa. É o caso de Maria José Reis, professora na área da capital, que, por opção de vida, não utiliza carro próprio. Mas a utente não se conforma com as “injustiças” gritantes que ainda se mantêm neste domínio e defende que não pode haver portugueses de primeira e portugueses de segunda. Segundo relata, um utente residente no concelho de Vila Franca de Xira (integrado na AML) paga apenas um passe mensal de 40 euros. Mas quem residir um ou dois quilómetros mais à frente, já fora da AML, em concelhos como Alenquer, Arruda dos Vinhos ou Torres Vedras, tem que pagar mais de 100 euros. Por isso, tem reclamado sucessivamente em reuniões da Câmara de Alenquer.

No início de Outubro, Paulo Simões, secretário-executivo da OesteCIM revelou, numa das sessões camarária de Alenquer, que já existia um acordo em que a AML contribuiria com 200 mil euros para criar um passe inter-regional. O problema é que, passados dois meses e meio, este passe inter-regional para as ligações entre o Oeste e a AML ainda não existe. E, no dia 28, o Conselho Intermunicipal do Oeste aprovou um documento em que sustenta que a região precisa de um reforço de verbas do PART da ordem de 1, 5 milhões para conseguir criar esse passe inter-regional, uma vez que se estima que serão cerca de 5 mil os utentes beneficiários.

“Chegaram à conclusão de que vão precisar de 1, 5 milhões de euros por ano, dizem que não têm esse dinheiro e não sabem onde o vão arranjar. Estão à espera de um reforço do Orçamento de Estado, através do PART (Programa de Apoio à Redução Tarifária), mas não sabem se vai ser possível implementar esses passes inter-regionais em Janeiro”, sublinha Maria José Reis, em declarações ao PÚBLICO, já depois da reunião com o secretário-executivo da OesteCIM. A utente lamenta todos estes avanços e recuos e considera que tem havido alguma falta de “competência” e de “organização” em todo este processo.

“Não sabem como vão arranjar o dinheiro para esta questão e continua tudo na mesma. Disseram que havia 200 mil euros da AML para lançar os passes inter-regionais em Novembro e, agora, dizem que isso não avançou porque 200 mil euros são uma gota de água que não dá para nada. Parece que há imensos passes de pessoas que vão do Oeste para Lisboa, serão cerca de 5000 pessoas e está tudo na mesma. Deviam ter feito o trabalho de casa antes de terem criado esta expectativa”, critica Maria José Reis, explicando que, em Janeiro, se não houver evoluções deste processo, os utentes estão dispostos a organizar outras iniciativas que dêem mais visibilidade ao seu descontentamento.

“Estamos em Dezembro e ainda nada aconteceu, mas esta é uma situação de grande injustiça, não pode haver portugueses de primeira e portugueses de segunda. Por este andar, o problema só se resolve em 2021, que é quando os presidentes de câmara precisam de ser reeleitos”, sustenta Maria José Reis, que considera que a autoridade regional de transportes deveria ser mais exigente junto das operadoras e receia que os novos concursos para a concessão dos transportes públicos venham a complicar ainda mais a situação.