Utentes de Alenquer queixam-se de “injustiças” nos passes apoiados

Comunidade do Oeste quer negociar com Lisboa passe único inter-regional à escala do distrito.

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Rui Gaudencio

Multas por utilização de dois passes distintos numa única ligação de autocarro e preços a dobrar para quem está à mesma distância de Lisboa só porque vive num concelho já situado fora da Área Metropolitana são algumas das principais queixas de utentes de transportes públicos residentes no concelho de Alenquer. Uma porta-voz de um grupo de utentes reclamou, esta segunda-feira, medidas da Câmara alenquerense e da Comunidade Intermunicipal do Oeste (Oeste CIM) e admite protestos mais visíveis já a partir de Setembro, se não forem eliminadas algumas das “injustiças” existentes. Problemas semelhantes vivem passageiros oriundos de outros concelhos do sul da região Oeste, como Torres Vedras, Arruda e Sobral de Monte Agraço.

Maria José Reis explicou que nasceu em Alenquer há 63 anos e que há 47 utiliza regularmente transportes públicos nas ligações entre esta vila e Lisboa. Mas considera que o serviço de transportes públicos rodoviários nesta área nunca esteve tão mau como está agora. “Nunca esteve tão mau e tão complicado como está agora. A situação a partir de Abril está até mais caricata. Não posso aceitar que uma pessoa que venha de Sesimbra ou de Palmela para Lisboa pague 40 euros de passe e eu que estou à mesma distância, só porque estou em Alenquer, fora da Área Metropolitana de Lisboa (AML), tenha que pagar 108 euros. É uma injustiça que vai contra os direitos das pessoas”, sustentou, explicando que fala também em nome de um grupo de pessoas do concelho de Alenquer que viaja diariamente para Lisboa.

Pedro Folgado, presidente da Câmara de Alenquer e da Oeste CIM, reconheceu que ainda há situações a corrigir, “até porque o Governo, quando pensou nesta medida, provavelmente pensou essencialmente em Lisboa e no Porto e, depois, teve que emendar a mão e alargá-la a todo o país. Mas o valor atribuído ao Oeste é manifestamente pouco e muito inferior ao da AML, que recebe 75 milhões de euros e o Oeste recebe apenas 1, 3 milhões do Programa de Apoio à Redução de Tarifas”, salientou o autarca do PS, referindo que o secretário de Estado da tutela já prometeu uma revisão destes valores no próximo Orçamento de Estado.

Mas Maria José Reis tem um rol longo de reclamações. A utente até admite que anteriormente pagava 156 euros mensais por um passe entre Alenquer e Lisboa e que, agora, gasta 108. O problema é que tem que comprar dois passes distintos e parar diariamente na Castanheira do Ribatejo (Norte do concelho de Vila Franca de Xira, já na AML, apenas a três quilómetros da fronteira com o concelho de Alenquer). Aí acaba por tomar o pequeno-almoço e por apanhar um segundo autocarro, porque só assim pode ter acesso ao Passe Metropolitano, num valor de 40 euros por mês. No entender desta utente, o novo sistema não tem atraído muito mais passageiros no concelho de Alenquer e a maioria das pessoas passou a deslocar-se de carro ou por outros meios até à Castanheira do Ribatejo para, a partir daí, utilizar o Passe Metropolitano.

“Eu até já cheguei a pagar 156 euros e agora pago 108, mas é uma questão de princípio e de igualdade de tratamento de todos os cidadãos. Não pode haver cidadãos de primeira e de segunda. Os residentes na AML pagavam 100 e mais euros e agora pagam 40. Os outros como eu, só porque vivo numa região diferente, pago 108. Eu até posso mudar na Castanheira e organizar assim a minha vida. Mas há muita gente que vem das freguesias do Norte do concelho de Alenquer que não pode mudar na Castanheira, porque os transportes são poucos e os horários estreitos”, critica Maria José Reis, explicando que até já lhe foi aplicada uma multa de 60 euros porque procurou utilizar uma carreira entre Alenquer e Lisboa e tem dois passes distintos para esse trajecto (Alenquer-Castanheira e Passe Metropolitano). “Isto é uma situação ridícula, obrigarem as pessoas a mudar de autocarro. Vou recorrer a todos os meios para não pagar esta multa, porque tenho os dois passes devidamente validados”, sublinhou.

Pedro Folgado reconheceu que o relato e os números apontados pela munícipe estão correctos e explicou que os municípios do Oeste têm procurado desenvolver um modelo o mais próximo possível do que vigora na AML, com passes concelhios a 30 euros e passes regionais a 40 euros. O problema, reconheceu o eleito do PS, são as viagens inter-regionais. “Neste momento, para além dos 1, 3 milhões de euros que recebemos, os municípios do Oeste já estão a suportar mais 600 mil para a implementação destas medidas. Já está previsto que em Setembro faremos uma avaliação dos primeiros meses com a AML e vamos perceber se Lisboa vai ou não juntar valores a este processo, para que baixem mais os preços, porque o objectivo também é que não entrem mais carros em Lisboa”, vincou Pedro Folgado, reconhecendo que o problema destas “discrepâncias” afecta sobretudo a população dos quatro concelhos do sul do Oeste (Alenquer, Arruda, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras), que tem, tradicionalmente, uma forte ligação com Lisboa. O autarca de Alenquer estranha, contudo, que as operadoras apliquem multas no caso da utilização de dois passes na mesma carreira, porque esse cenário teria ficado afastado nas reuniões desenvolvidas no início do ano.

“Aparecem uns fiscais e aplicam-nos coimas graves, como se fossemos uns meliantes”, lamenta Maria José Reis. Ernesto Ferreira, vereador da CDU, também conhece relatos desta actuação dos fiscais. Já Frederico Rogeiro, vereador da coligação liderada pelo PSD, considera que há um “desequilíbrio” evidente nesta situação e diz que não se pode aceitar que um morador do Carregado tenha que pagar 102 euros mensais para viajar de autocarro para Lisboa e que um habitante da Castanheira do Ribatejo, apenas quatro quilómetros a sul, pague 40 euros.

Pedro Folgado acrescenta que uma das questões que está em cima da mesa é a possibilidade de criar um passe único inter-regional que sirva a AML e o Oeste. “Estamos a negociar com a AML uma espécie de passe inter-regional para que as pessoas tenham só um passe em vez de terem que ter dois. No fundo, o que estamos a ver é recuperar um pouco a ideia do distrito e esse passe poderia vigorar para o distrito de Lisboa. Mas é uma situação que ainda não está resolvida. Queremos ver se em Setembro temos alguma novidades para resolver estes assuntos”, prevê o autarca de Alenquer.