Huawei convida aplicações portuguesas para a sua loja

A empresa está a contactar os criadores das 100 aplicações mais descarregadas em Portugal a fazer parte da sua loja, numa tentativa de contornar as consequências da disputa comercial entre os EUA e a China.

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A empresa chinesa tem cerca de 29% do mercado em Portugal Reuters/Hannibal Hanschke

A Huawei está a contactar criadores de aplicações portuguesas para que estas sejam disponibilizadas na Huawei App Gallery. É a alternativa da empresa chinesa ao Google Play, a popular loja de aplicações do Google que este ano foi barrada dos novos produtos da Huawei devido às sanções impostas pelos EUA.

Para já, o objectivo é ter as 100 aplicações grátis mais populares em Portugal, incluindo as aplicações dos vários órgãos de comunicações, na loja de aplicações dos novos telemóveis da Huawei. Mas a empresa também quer convencer programadores a utilizarem os seus serviços para desenvolverem novas aplicações. O objectivo é contornar a ausência da loja do Google nos novos modelos da marca, procurando evitar que se tornem menos apelativos aos consumidores. 

“Estamos à procura de programadores para desenvolverem as suas aplicações ou novas apps com o Huawei Mobile Service,” disse fonte oficial da Huawei ao PÚBLICO.

O convite inicial é feito num email (que o PÚBLICO também recebeu) em que a empresa lembra que os seus telemóveis incluem tecnologia que permite desenvolver aplicações com realidade aumentada e inteligência artificial (por exemplo, assistentes digitais). A mensagem refere ainda que a marca está presente em mais de 170 países e que já foram descarregadas mais de um milhão de aplicações da Huawei App Gallery fora da China. 

Em Portugal, o Fogos.pt – uma aplicação que fornece informação em tempo real sobre incêndios activos no país – foi uma das várias contactadas nos últimos meses. Têm cerca de mil utilizadores activos nas aplicações para Android e iOS. “Recebemos um convite para nos registarmos na loja e depois marcámos uma reunião de vídeo sobre o processo”, explica ao PÚBLICO o criador da aplicação, João Pina, mais conhecido como @tomahock, o nome de utilizador no Twitter. “Aceitar foi uma decisão fácil porque queremos chegar ao maior número de pessoas e grande parte dos nossos utilizadores têm telemóveis Android.”

A Huawei argumenta que o “processo será simples”, visto que a empresa está a optar por utilizar uma versão em código aberto do sistema operativo Android nos seus novos telemóveis. Embora seja desenvolvido pelo Google, a base daquele sistema operativo está disponível para qualquer pessoa ou empresa a utilizar. Ou seja, aplicações criadas originalmente para o sistema da Google não precisarão de grandes modificações para funcionar nos novos telemóveis Huawei. Ainda assim, serão necessárias algumas.

“A aplicação do Fogos.pt será igual, mas poderão existir algumas funcionalidades incompatíveis numa fase inicial”, avançou João Pina. “Por exemplo, sabemos que no começo o Fogos não terá notificações na Huawei porque o serviço que utilizamos para as enviar, o Firebase, é do Google.”

Este ano, a empresa chinesa foi apanhada no meio de uma guerra comercial entre os EUA e China quando a administração de Trump incluiu a Huawei numa espécie de “lista negra” de entidades a quem as empresas americanas não podem fornecer produtos. O argumento dos EUA, é que as empresas da lista representam um risco de segurança nacional

Falhar em atrair aplicações populares para a Huawei App Gallery, ou oferecer aplicações com menos funcionalidades, pode ameaçar o sucesso da Huawei junto dos consumidores ocidentais. Há dois anos, a Microsoft desistiu de desenvolver o seu sistema operativo para telemóveis, o Windows Phone, devido à falta de oferta de aplicações para a plataforma. Lançado em 2010, o sistema da Microsoft chegou tarde de mais, com o Android e o iOS a dominar o mercado.

Não é só em Portugal que a Huawei está a tentar recrutar programadores para a sua loja. Desde Junho que circulam relatos de convites em inglês da marca chinesa e o processo de juntar as 100 aplicações mais populares para a loja repete-se noutros países europeus.

Além de contactar as aplicações mais populares para Android na Europa, a Huawei está a disponibilizar um fundo de mil milhões de dólares (mais de 903 milhões de euros) para incentivar programadores a criarem novas aplicações para os telemóveis da marca. 

Segundo dados da IDC, entre Julho e Outubro de 2019, a Huawei enviou 66,6 milhões de telemóveis para retalho. Foram mais 14,6 milhões de unidades do que nos mesmos meses de 2018, representando um aumento de 28,2%. Em Portugal, a quantidade de telemóveis enviados para retalho no terceiro trimestre de 2019 foi ligeiramente menor que no ano anterior (-2,4%), mas a empresa, com 28,8% da quota de mercado, mantém-se no segundo lugar, depois da Samsung.