Editorial

Quando acabará a vergonha das notas inflacionadas?

Está na hora de acabar com a condescendência com que o Ministério da Educação ou do Ensino Superior têm gerido as escolas que inflacionam notas.

Lê-se e não se acredita: a direcção do Externato Ribadouro, no Porto, é alvo de um processo aberto pelo Ministério da Educação por suspeita de prática reiterada de inflação de notas nos anos cruciais que antecedem o acesso ao ensino superior. Se a inspecção em curso der como provado que o externato favoreceu os seus alunos, a directora do Ribadouro, diz-nos o Expresso deste fim-de-semana, pode ser penalizada com uma advertência ou, no máximo, com a “proibição definitiva do exercício de funções de direcção”. Num caso em que centenas de jovens podem ter sido gravemente prejudicados no seu esforço e na sua ambição, o eventual favorecimento intencional e deliberado do Ribadouro aos seus alunos é isto, apenas isto, que vale.

Está na hora de acabar com a condescendência com que o Ministério da Educação ou do Ensino Superior têm gerido as escolas que inflacionam notas. O que aqui está em causa é uma violação grave do princípio da igualdade no acesso ao ensino superior. O que a persistente inflação de notas nos sugere é que o favorecimento se tornou um negócio ao qual apenas os filhos das classes com mais rendimentos podem aceder. O que esta prática reiterada de favorecimento ilegítimo configura é um atentado e um insulto a todos os pais com filhos nas escolas onde o rigor e a exigência imperam. Quando se ouve um jovem do 11.º ou 12.º ano a dizer que quer ir para o Ribadouro porque as notas lá são melhores, todo o conjunto de valores que sustentam o mérito, o trabalho, a disciplina e a aprendizagem entra em ruptura.

Anos depois de os investigadores Gil Nata, Maria João Pereira e Tiago Neves darem conta desta vergonha, após o Ministério da Educação ter entrado em cena e confirmado os desmandos (e melhorado a situação), é inaceitável que 95% dos alunos do Ribadouro tenham sido premiados com notas de 19 ou 20 a Educação Física sem que nada aconteça. Este é um problema que tanto deve mobilizar a esquerda que vitupera as escolas privadas (embora muitos dos seus teóricos tenham lá inscritos os seus filhos), como a direita que tanto fala em igualdade de oportunidades. Nem se pode permitir que os alunos do público se sintam discriminados, nem tolerar que os que frequentam as escolas privadas livres destes abusos sejam tidos como privilegiados.

Um externato no qual a diferença entre as notas internas e os exames nacionais ultrapassa os 3,5 pontos (aconteceu em 2016) não entra nos eixos com multas ou suspensões: ou acaba com essa injustiça, ou deve perder o alvará que lhe deixa as portas abertas.