Rede neonazi italiana desmantelada tinha ligações a Mário Machado

Houve elementos da rede neonazi desmantelada esta quinta-feira em Itália que estiveram na conferência que a Nova Ordem Social organizou a 10 de Agosto, em Lisboa. Os neonazis italianos tinham um chat dedicado à organização de treino militar e disseram ter acesso a armas e explosivos.

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A Interpol alertou no seu relatório deste ano, referente a 2018, que o movimento neonazi português tem ligações internacionais MIGUEL MADEIRA/PÚBLICO/Arquivo

A polícia italiana desmantelou esta quinta-feira uma rede neonazi que se preparava para fundar um partido e dar treino militar aos seus militantes. Os membros da rede neonazi já tinham começado a fazer contactos internacionais e um deles foi com o Nova Ordem Social (NOS), fundado e liderado por Mário Machado. 

Os contactos foram feitos ao longo do tempo através da Internet, diz revista italiana Today, e concretizaram-se a 10 de Agosto, em Lisboa. Machado organizou uma conferência internacional de extrema-direita e houve italianos desta rede presentes – uma italiana, Francesca Rizzi, tinha uma tatuagem da Alemanha nacional-socialista nas costas. Também estiveram presentes militantes de extrema-direita espanhóis, polacos, búlgaros e alemães.

Os italianos queriam estabelecer uma rede internacional e, assim, obter credibilidade entre grupos da extrema-direita europeia mais agressiva, diz a revista italiana. A par dos contactos com o NOS, fomentaram ainda relações com os Aryan White Machie – C18, organização considerada terrorista por muitos países europeus e com raízes no grupo neonazi britânico Blood & Honor. 

O NOS e a filial portuguesa dos Blood & Honor, não esquecendo os Portugal Hammer Skins, são motivo de preocupação para a Europol, serviço europeu de polícia. “Em Portugal, os Blood & Honour, os Portugal Hammer Skins e o recém-criado movimento neonazi Nova Ordem Social estão activos tanto a nível nacional como internacional”, lê-se no relatório deste ano da Europol, referente a 2018. 

ONOS foi entretanto suspensa por Machado argumentando não ter encontrado ninguém com “vontade para o substituir” na liderança, que ocupava desde a fundação do partido, em 2014, e por ser “contraproducente” o “NOS, o PNR e o Chega” concorrerem “praticamente na mesma área. “Não faz sentido nenhum”, disse no vídeo publicado no Youtube em que anunciou a suspensão. 

No entanto, houve quem abandonasse o NOS para formar uma outra organização, a Nova Legião Portuguesa, acusando Machado de ser um “tirano" e de ter “quebrado a coluna vertebral” do movimento por si fundado, argumentando que a suspensão se deveu ao facto de Machado ter ficado sem militância. E denunciaram que a conferência em que os neonazis italianos participaram se “realizou debaixo de várias suspeitas de burla perante os seus activistas”. 

"Sombras negras” de Itália

A Itália é um dos epicentros da extrema-direita europeia e uma franja deste quadrante político preparava-se para fundar um novo partido chamado Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Italianos. O programa, claramente anti-semita e negacionista do Holocausto, já estava redigido e definidas as estruturas interna e territorial. Os militantes, espalhados por toda a Itália, tinham ainda um chat, apelidado “Milícia”, destinado à organização de treino militar.

Os 19 neonazis visados pela investigação das autoridades italianas, denominada “Sombras negras”, referiram ter acesso a armas e explosivos e um deles, proveniente da Calábria e ex-militar, estaria encarregado de dar o treino militar, diz o jornal La Repubblica

Outro dos seuspeitos é uma mulher com cerca de 50 anos. Faz parte do órgão executivo nacional do novo partido e responde pela alcunha “sargento major de Hitler”. É responsável por recrutar novos membros e divulgar a ideologia e propaganda do partido. Entre os suspeitos inclui-se ainda uma “mulher de 26 anos proveniente da Sicília que venceu um concurso online ‘Miss Hitler’ e que falou numa conferência de extrema-direita em Lisboa, em Agosto”, diz a agência italiana ANSA. 

Tudo aponta que a mulher de 26 anos seja Francesca Rizzi, que se candidatou a um concurso de beleza autoproclamando-se Miss Eva Braun (nome da companheira de Adolf Hitler), e que foi uma das principais oradoras da conferência do NOS. 

 Na conferência, Rizzi proferiu um discurso violentissímo contra os judeus e, quando acabou de falar, fez a saudação nazi, sendo acompanhada por vários elementos da plateia. 

A investigação durou dois anos e envolveu a Divisão Geral de Investigações e Operações Especiais da cidade de Enna, na Sicília, e o Serviço Interno de Antiterrorismo, dedicado à monitorização da extrema-direita.

As autoridades avançaram esta quinta-feira contra os elementos da rede neonazi por constituição e participação em associação subversiva e incitação a crimes, diz o La Repubblica. Fizeram buscas nas casas de 19 dos seus membros, onde encontram material neonazi, e a operação nacional envolveu as sedes destas duas agências em Siracusa, Milão, Monza Brianza, Bérgamo, Cremona, Génova, Impéria, Livorno, Messina Turim, Cuneo, Pádua, Verona, Vicenza e Nuoro.

Esta operação policial segue-se a uma outra em que as autoridades apreenderam um arsenal de guerra, incluindo um míssil ar-ar Matra de 1980, de fabrico francês, que tudo indica seria das Forças Armadas do Qatar. Estava operacional sem ter, no entanto, carga explosiva, com os detidos a terem-no tentado vender pela rede social WhatsApp - o míssil tem um valor de 500 mil euros. O arsenal de guerra era ainda composto por 26 armas automáticas, 20 baionetas, 306 partes de armas, incluindo silenciadores e 800 balas de vários calibres, provenientes da Áustria, Alemanha e Estados Unidos.

Foram detidas quatro pessoas, uma delas um ex-inspector de alfândega e militante do partido de extrema-direita italiana Forza Nuova. Foi até candidato a eleições pelo partido. 

Esta investigação foi a extensão de uma outra, desta vez sobre mercenários italianos que combateram na Ucrânia, ao lado do Regimento Azov, neonazi, contra os separatistas russos de Lugansk e Donetsk, no Leste do país. Os suspeitos movimentavam-se nas claques de futebol e recrutavam militantes de extrema-direita para irem combater na Ucrânia.