Morreu José Mário Branco, um dos nomes maiores da canção portuguesa

“É enorme. É um dos artistas mais importantes da música portuguesa do século XX e do século XXI”, diz Camané ao PÚBLICO. “Um homem da revolução”, recorda José Fanha. O músico tinha 77 anos.

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José Mário Branco Manuel Roberto

Morreu José Mário Branco, um dos nomes maiores da canção portuguesa, confirmou ao PÚBLICO a sua editora Warner Portugal e o seu manager, Paulo Salgado. José Mário Branco tinha 77 anos e morreu durante a noite de segunda para terça-feira após um acidente vascular cerebral (AVC). O seu percurso tocou desde a música de intervenção e a canção de Abril até ao fado. “É enorme. É um dos artistas mais importantes da música portuguesa do século XX e do século XXI”, disse ao PÚBLICO o músico Camané, que José Mário Branco produziu. 

José Mário Monteiro Guedes Branco nasceu no Porto em 1942 e estudou História nas Universidades de Coimbra e do Porto, curso que nunca terminaria. Filho de professores, foi militante do Partido Comunista Português (PCP) e a ditadura obrigá-lo-ia a exilar-se em França, para onde viajou em 1963. Só voltaria a Portugal em 1974. É autor do emblemático álbum Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (1971), de Margem de Certa Maneira (1973), A Mãe (1978), do duplo Ser solidário (1982), A Noite (1985), Correspondências (1990) ou Resistir é Vencer (2004). 

“Ele é um dos artistas mais importantes da música portuguesa, como produtor, como intérprete, como compositor, letrista”, enumera Camané ao telefone. “Tem uma importância e influência extrema tanto na música portuguesa mais moderna quanto na música mais antiga”, prossegue o cantor, que foi apresentado a José Mário Branco por Carlos do Carmo nos anos 1990, “na divulgação, na estética e nos vários estilos musicais. É um músico extraordinário, com bom gosto e que nunca abdicou dos valores e da qualidade em função de nada”. Cláudia Guerreiro, baixista dos Linda Martini, banda que é exemplo da influência de Branco nas gerações de músicos que se lhe seguiram, resume: “Não está só presente na música dele, mas na música de tanta gente”. 

“Para os Linda Martini foi das primeiras coisas em que pegámos para trabalhar, temos uma música que é o Partir para ficar com um sample do FMI”, recorda a música ao PÚBLICO, que detalha a sua admiração pela arte de José Mário Branco em pegar nas coisas populares e dar-lhes uma volta, torná-las intervenção, para falar de questões de trabalho, do povo, de pessoas em dificuldades”.

Na mente do fadista Camané está esta terça-feira, como tem estado nos últimos tempos, a canção Emigrantes da quarta dimensão (Carta a J.C.) (1990). E cita-a ao telefone com o PÚBLICO: “‘Dá-me uma ajuda, ó médico das almas/ Para escolher em que combate combater / Quem condeno eu à vida / Quem condeno eu à morte / Que me podes tu dizer / Encostado à árvore do tempo / Folhas vivas, folhas mortas, estações’… Estou a lembrar-me da música extraordinária para essa letra, é das que mais me impressionaram dos últimos 20 anos da carreira do José Mário”. 

O contributo de José Mário Branco para a música popular portuguesa dos anos 1970 residia, como escrevia em 2017 o crítico do PÚBLICO Nuno Pacheco, nos “contornos do som e das ambiências” que gerariam “novos paradigmas, como a importância da encenação sonora, num tempo em que ela ameaçava estiolar na balada. Não se tratava de recorrer a guitarras eléctricas (o ié-ié já o fazia) ou a orquestrações (também as havia na chamada música ligeira), mas de usar recursos vindos de vários géneros musicais (o cancioneiro popular, a arte coral, a clássica, o rock, o jazz, a música francesa ou a anglo-saxónica) para dar à música portuguesa uma nova atmosfera. E foi isso que ele fez, e até hoje o distinguiu, não só nas suas próprias obras, mas em trabalhos de outros músicos, como José Afonso (Cantigas do Maio e Venham mais Cinco têm a sua marca).”

Apesar de ser um dos fundadores do Grupo de Acção Cultural — Vozes na Luta (GAC) com Fausto, Afonso Dias e Tino Flores e dele ter saído A Cantiga é Uma Arma (1975), entre muitos outros exemplos do trabalho mais político de José Mário Branco, o músico não gostava de ser reduzido a esse período criativo. Camané comenta como “essa música tinha tanta qualidade que ultrapassou tudo isso. Por um lado é evidente que se ligou muito à música de intervenção, mas a verdade é também que essa música estava muito para além do simples cantor de intervenção”.

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Concerto de Camané e José Mário Branco no Castelo de São Jorge em 2008 Pedro Elias

Emoção na voz

José Fanha recorda a criação do GAC como algo de “extraordinário": “Ele juntou uma quantidade enorme de músicos, uns 30 ou 40, de imensa qualidade, que ele dirigiu, incentivou.” Para este poeta e escritor de literatura infanto-juvenil, que se assume “um bocadinho mais novo do que esta geração de músicos que revolucionaram a música no nosso país”, José Mário Branco “é um grandíssimo artista, um grandíssimo intelectual e um homem da revolução... Um dos homens que ajudaram, na sua maneira, a que a revolução do 25 de Abril acontecesse, a que as coisas mudassem em Portugal. Talvez não da maneira como sonhávamos mas a verdade é que mudaram, a caminho da democracia.”

A notícia da morte de José Mário Branco “atingiu-nos como um trovão”, disse o guitarrista Rui Carvalho, aliás Filho da Mãe, esta terça-feira. O guitarrista descreve-o como “um herói. Um herói que nunca conheci”. Como outros portugueses nascidos nos anos 1970, cresceu a ouvir a música de José Mário Branco. “Está-me nos ossos​.” Mais do que o importantíssimo legado musical, o que lhe fica do músico é “o feitio – um feitio de estátua, uma espécie de farol, daquelas coisas que não mudam e cuja vontade parece que não quebra. Tem um valor poético que ultrapassa a política”. 

“É uma pessoa com uma emoção na voz fora do normal, que vem com uma força – o próprio ar dele, a austeridade, a ironia, o sarcasmo”, prossegue Rui Carvalho. “Alguém que parece que passou pelo deserto. Não estava à espera que se fosse embora. Não estava pronto para isto. Acho que ele não tinha esse direito, sinceramente.”

Mesmo sendo de uma geração anterior à de Filho da Mãe, Rui Júnior, compositor e letrista, também sempre olhou para José Mário Branco como uma referência — na música e na vida. É o que deve acontecer com os irmãos mais velhos e era precisamente isso que lhe chamava. Separavam-nos 14 anos. “Eu era ‘o puto dos tambores’ e eles eram já aqueles músicos… O Zé Mário, o Zeca [José Afonso]… Lembro-me de reuniões com ele e com o [Álvaro] Cunhal e a Natércia Campos. Sempre com aquela força. Sei que isto é um lugar-comum, mas sinto que se foi uma parte de mim, que me morreu um irmão. Mas também sinto que ele foi com calma. Realizou-se, viveu bem, inspirou muita gente.”

Para o director do Projecto de Percussões “Tocá Rufar”, que tantas vezes subiu ao palco com José Mário Branco, o músico e produtor teve uma carreira riquíssima, coerente, íntegra, sem nunca abdicar do seu papel interventivo. “O Zé Mário nunca cedeu a modas, nunca comprometeu os seus princípios, nem na música, nem na vida. E soube acompanhar os tempos, envolvendo-se em movimentos políticos que considerava justos, mas sempre com grande independência. A cabeça do Zé Mário era só dele.”

Crítico, mas nunca agressivo; frontal, mas sempre amável, assim o descreve Rui Júnior. “Um revolucionário, não um revoltado. Um homem generoso que nos deixou obras-primas na música que fez para ele e na que fez para os outros.”

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José Mário Branco com Sérgio Godinho e Fausto no Campo Pequeno em 2009 Raquel Esperança

Tirar as gorduras ao fado

Compositor, intérprete, letrista, arranjador e produtor de grande talento, José Mário Branco fez tudo o que havia para fazer na música, lembra David Ferreira, que foi director da EMI-Valentim de Carvalho e amigo do músico. “O Zé Mário chegou a ser editor, até, quando achou que aquilo que havia em Portugal não chegava.”

“Fundamental” na carreira de “muita gente importante” na música portuguesa — foi o produtor daquele que muitos consideram o melhor disco de José Afonso, Cantigas do Maio; esteve no lançamento da carreira de Sérgio Godinho, que escreveu letras para um dos seus primeiros discos; cruzou-se com o Carlos do Carmo, criou o GAC, depois de regressar do exílio, em 1974 —, José Mário Branco permanece um exemplo: de criatividade, mas também de entrega. “O Zé Mário faz tudo isto e, ao mesmo tempo, continua a querer mudar o mundo, sempre. É talvez estranho dizer isto, mas não me faz qualquer sentido que ele tenha morrido.”

Insistindo na qualidade e na extensão da intervenção artística e cívica do autor de Inquietação, A cantiga é uma arma ou FMI, o antigo editor da EMI destaca ainda a sua ligação ao fado, de que se apropria com grande originalidade. “Ele vai buscar e recria em termos de ambientes sonoros e de arranjos o que o fado tem de melhor, como, aliás, antes o tinha feito o Alain Oulman ao escrever para a Amália”, diz, atribuindo a Manuela de Freitas, mulher de José Mário Branco e “a maior letrista viva do fado”, a sua aproximação ao género.

É no trabalho do compositor e produtor com Camané que tantas vezes a sua maneira de entender o fado se revela, acrescenta David Ferreira: “Em estúdio, o Zé Mário corta as gorduras ao fado, combate os excessos dos instrumentistas. A guitarra portuguesa, por exemplo, deslumbra-se muitas vezes consigo própria e tem tendência a afastar-se da canção. Com ele não acontece. É talvez por isso que nos discos do Camané que o Zé Mário produz há momentos de quase silêncio, para respirar.”

Músico “inspiradíssimo” que nos habituou a “canções que arrepiam”, José Mário Branco “nunca sentiu necessidade de ser modernaço”, garante David Ferreira. A sua “energia vital” como homem e como artista transpira em temas como Mudar de vida, um “monólogo impressionante”, Queixa das almas jovens censuradas, em que musica um poema de Natália Correia, Casa comigo Marta, com letra de Sérgio Godinho, ou a abertura do seu primeiro disco a solo, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (1971), em que se ouvem os sons da Gare de Austerlitz. “Este não é só um disco fortíssimo contra o Estado Novo, é um disco em que acontecem coisas como esta abertura incrível, diferente de tudo o que se fazia na música portuguesa daquela altura.”

O seu “olhar eternamente apaixonado sobre o mundo” era também notório em canções como Aqui dentro de casa, “que é o Zé Mário a ser feminista em 1972”, As canseiras desta vida, Ventos adversos, Cada dia são cem, Mudar de vida, Fado Penélope, Fado tristeza ou Inquietação, “caramba, que composição”.

“Apetece escolher tudo e nunca deixar de o ouvir — com prazer, com respeito”, conclui David Ferreira, acrescentando um tema à playlist que o PÚBLICO o desafiou a fazer. “Falta De pé, uma homenagem a Antero de Quental, porque é uma grande canção, mas porque foi assim que o Zé Mário viveu — de pé.”

José Mário Branco integrou a companhia de teatro A Comuna e foi produtor de músicos como Carlos do Carmo ou Amélia Muge. Colaborou em trabalhos de Ana Moura, fez arranjos para Sérgio Godinho e fez a direcção musical e composição para filmes de Paulo Rocha, Jorge Silva Melo, João Canijo ou Luís Galvão Teles. Sobre a sua vida escreveu-se o livro O Canto da Inquietação, de Octávio Fonseca Silva (ed. Mundo da Canção, 2000) e existe também o DVD Mudar de Vida, de Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro (ed. Alambique, 2016). com Gonçalo Frota

Ouça aqui a conversa com o jornalista Nuno Pacheco: