Opinião

Web Somítico

O que o empreendedorismo adora mesmo, pelos vistos, é não pagar salários.

Esta é aquela altura do ano e não é possível escapar. Jornais, televisões, rádios, todos se rendem ao frenesim que transforma o empreendedorismo em religião e o Parque das Nações na Meca da tecnologia. A Web Summit deste ano chegou ao fim.

O evento esgotou, mas esteve longe do fulgor e da novidade do passado. Contudo, há coisas que nunca mudam: o espetáculo de luz, cor e animação é construído num mar de voluntários. O que o empreendedorismo adora mesmo, pelos vistos, é não pagar salários.

Não é que a Web Summit não dê lucro. Dá e muito. Os lucros de Paddy Cosgrave aumentaram 16 vezes desde que começou a realizar o evento em Portugal. Só os 2700 voluntários é que não vêem um cêntimo desse dinheiro: têm direito ao almoço e a jornadas de trabalho que podem chegar às 18 horas por dia. Vá, já me esquecia, se correr bem poderão assistir a uma conferência. Empreendedorismo mãos largas!

E se entre o Governo e a Câmara de Lisboa a Web Summit custa 11 milhões de euros todos os anos, seria de esperar pelo menos uma palavrinha exigindo um mínimo de respeito pelo trabalho realizado. Mas não criem ilusões: António Costa comparou o trabalho grátis que dá milhões a Paddy Cosgrave ao voluntariado na Expo 98, para equiparar o que não é equiparável e relativizar a exploração atual. Já Marcelo Rebelo de Sousa tem pena de não ser jovem, senão garante que esse voluntariado não lhe escapava.  Depois deste networking com o organizador da Web Summit, não se vislumbra grande sucesso ao objetivo de “elevar o nível salarial dos jovens quadros qualificados”. Pode ser cool, mas não dá para comer. Eu, pelo menos, não quero esse futuro para os jovens do país.

Contudo, nem só do trabalho grátis se faz lucro com o voluntariado. É verdade que não seria pouco, contabiliza-se em quase um milhão de euros o valor desse trabalho não pago. Mas, como na Web Summit o espaço é dinheiro, mesmo que seja o das t-shirts dos voluntários, há aí mais oportunidades. Quem quiser comprar este espaço para publicidade paga 115 mil euros aos bolsos de Paddy Cosgrave. Ah, o altruísmo que ele tem com estes jovens a quem consegue proporcionar a experiência de uma vida… É natural que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa fiquem sensibilizados. O triste é mostrarem esta subalternidade do país a uma agenda tão desprovida de direitos.

E já sabem do negócio das camisolas? Houve um grande sururu sobre a venda de camisolas iguais às que Paddy Cosgrave vestiu. Julgava-se que era o negócio de uma start up que subiu a difícil rampa da meritocracia e, agarrando as oportunidades, conseguiu colocar à venda os seus produtos numa joint venture com a Web Summit. Quem sabe, poderia ser um futuro unicórnio! Vai-se a ver, o negócio até era mesmo familiar, mas da família de Paddy Cosgrave: as camisolas eram da empresa da esposa dele. Fica tudo em casa, claro, não houve foi a transparência para assumir isso desde o início. Afinal, isto do mérito tem muito que se lhe diga e olha bastante às famílias de onde se vem.

O que também escapou, no meio destes negócios todos, foi a vontade de ajudar os voluntários nos transportes ou com a estadia. É cada um por si, sem qualquer apoio, sem nenhuma ajuda, cada qual paga do seu bolso. O trabalho assume-se sem problemas, a responsabilidade social já custa muito mais a assumir. É certo que muitos dirão que estão satisfeitos, que repetiriam a experiência e não subscrevem nenhum dos reparos que aqui fiz. Esse é um dos méritos das ilusões que a Web Summit vende, tolda até o raciocínio mais óbvio.

Ora, a racionalidade mostra que não devemos viver bem com esta exploração de trabalho gratuito. Um exemplo bem recente prova como é possível bater o pé a Paddy Cosgrave, haja é vontade para isso. Ainda se lembra de quando o fundador da Web Summit não via qualquer mal em ter Marine Le Pen como uma das oradoras da edição do ano passado? Foi a indignação geral que obrigou Cosgrave a recuar e a retirar o convite feito a Le Pen. Se já o vencemos no passado, podemos vencer novamente. Haja a coragem de romper com a bajulação com que os poderes públicos o tratam.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico