“Podemos ter nova tecnologia, mas não temos novos valores”, avisa Vestager

Os efeitos perversos da inovação tecnológica foram um tema quente numa Web Summit que é cada vez mais um palco para discussão (e luta) política.

Fórum de Toyama International Conference Center Otemachi
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Francisco Romão Pereira
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Foi a última intervenção antes do encerramento de quatro dias de discussão sobre o impacto da tecnologia. E era uma das intervenções mais aguardadas no recinto da Web Summit. A comissária europeia Margrethe Vestager subiu ao palco principal para defender que as empresas tecnológicas devem cumprir regras e estar ao serviço das democracias – e para lembrar os riscos de deixar multinacionais como o Google, o Facebook ou a Apple com rédea solta. 

“Podemos ter nova tecnologia, mas não temos novos valores. A dignidade, integridade, humanidade, igualdade – isso mantém-se”, afirmou Vestager, que será vice-presidente executiva com a pasta da Concorrência na próxima Comissão e que ganhou notoriedade nos últimos quatro anos por ter tido mão pesada com as multinacionais americanas

“Temos de chegar ao nível adequado de ter a democracia a enquadrar a tecnologia e a dizer: ‘É assim que devem servir-nos’”, defendeu a comissária. “Temos discutido a fundo, no mundo real, o que queremos aceitar e o que não vamos aceitar. Simplesmente não percebo por que não é da mesma forma no mundo digital”, acrescentou. Referindo-se a fenómenos como os anúncios políticos nas redes sociais, argumentou existir “o risco de que minemos por completo as nossas democracias”. 

Vestager é um rosto habitual na Web Summit. Foi apresentada pelo fundador do evento, Paddy Cosgrave, como “uma das mulheres mais influentes na tecnologia”, num sinal de que o poder das grandes empresas tecnológicas é um tema quente no sector, mas também num reflexo da vertente cada vez mais política da Web Summit, que nasceu como um evento para promover startups e se transformou num fórum para debate de ideias. 

A quarta edição da Web Summit em Lisboa foi encerrada pelo Presidente da República, que sublinhou a dimensão política do evento. Numa intervenção em inglês, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que “num certo sentido, a Web Summit antecipou as mudanças-chave da revolução tecnológica”. Recordando edições passadas, o Presidente enumerou os temas que foram levados ao palco desde 2016: a privacidade, as mudanças climáticas, as guerras comerciais, a necessidade de multilateralismo político, o papel da Europa no mundo, as manipulações por parte de poderes políticos e económicos. “Portugal mudou com a Web Summit e o mundo está a mudar com a Web Summit”, disse. “Não temos problemas em abordar todos os temas, de forma livre.”

A toada política foi uma constante no Altice Arena ao longo da semana. Pouco antes da cerimónia de encerramento tinha estado em palco o principal conselheiro de Donald Trump para a tecnologia, Michael Kratsios, que teceu críticas ao que classificou como práticas de espionagem por parte da China e da Huawei. Defendeu também uma postura de pouca regulação do mercado, em contraste com as inclinações das entidades europeias.

A Huawei, por seu lado, foi este ano uma das principais patrocinadoras da Web Summit. A empresa tem o negócio de telemóveis ameaçado pelas sanções americanas, que a impedem de usar os serviços do Google, essenciais para muitos consumidores no ocidente. No dia da abertura do evento, o presidente do conselho de administração da Huawei, Guo Ping, subiu ao palco para promover o papel da empresa na construção das infraestruturas de 5G – precisamente o papel que os EUA se têm esforçado por diminuir, pressionando outros países (incluindo na Europa) a não recorrerem à tecnologia chinesa devido ao que a Administração de Donald Trump diz serem receios de segurança.

Pelo palco passou ainda a futura vice-presidente da Comissão Europeia para os Valores e Transparência, Vera Jourová, que se mostrou preocupada com o alcance de empresas americanas. A comissária sublinhou a estratégia europeia de forçar estas multinacionais a cumprirem as regras comunitárias, notando que dividi-las em várias empresas seria uma “bomba atómica” de último recurso.

Já o arranque de segunda-feira tinha tido como convidado principal Edward Snowden, o ex-informático da CIA que denunciou práticas de cibervigilância por parte das entidades americanas. Snowden, que está exilado na Rússia e falou por videoconferência, traçou um cenário sombrio sobre o poder que as tecnologias de informação dão a governos e a multinacionais. “O que se faz quando as mais poderosas instituições da sociedade são as menos responsabilizáveis?”, questionou, numa intervenção muito aplaudida pela plateia de milhares de entusiastas da tecnologia.