“Manter a paz foi o meu maior sucesso”, diz Jean-Claude Juncker

Presidente da Comissão Europeia terá pelo menos mais um mês de mandato do que o previsto, mas já se despediu dos eurodeputados. Na hora do balanço, falou em “decepções” e “vitórias”, ignorou o “Brexit” a apelou à luta permanente contra os “nacionalismos estúpidos e limitados”. “É preciso cuidar da Europa”, avisou.

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O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, foi aplaudido de pé na despedida do Parlamento Europeu Reuters/VINCENT KESSLER

No mesmo dia em que, “exactamente há cinco anos”, o Parlamento Europeu manifestou a sua confiança na nova Comissão Europeia liderada por Jean-Claude Juncker, o presidente do executivo comunitário e toda a sua equipa apresentaram-se no plenário de Estrasburgo para uma sessão de despedida — apesar de, por decisão dos eurodeputados, terem de se manter em funções pelo menos um mês a mais do que o previsto.

O chumbo de três dos candidatos ao colégio de comissários da próxima legislatura impede a tomada de posse do novo executivo dirigido pela presidente eleita Ursula von der Leyen, que ainda aguarda pelas instruções da França, Hungria e Roménia para completar o processo de nomeações. Um mero detalhe que, na hora da saída, Juncker nem se deu ao trabalho de assinalar. À sua sucessora, deixou votos de boa sorte, e aos eurodeputados um pedido para a tratarem bem. “Ela é a pessoa certa para o cargo, mas creio que vai precisar do nosso encorajamento”, disse.

Crises sucessivas

Recuando à sua própria tomada de posse, em 2014, Jean-Claude Juncker evocou o contexto de uma Europa “em ruptura, fragilizada e mal-amada” que o levou a constituir uma equipa “política”, de comissários “eleitos” e conhecidos nos seus respectivos países. Depois passou em revista os cinco anos seguintes de “policrises”, para fazer uma avaliação “moderada” e sem “auto-satisfação” do trabalho da sua Comissão, designada como “da última hipótese” ou da “última oportunidade” para a Europa.

“Infelizmente o seu mandato ficou marcado por muitas crises. Mas perante esses desafios, respondeu garantindo que não desperdiçávamos oportunidade de fortalecer e melhorar a Europa, que é agora mais justa e mais próspera”, agradeceu o líder da bancada do Partido Popular Europeu, Manfred Weber, que descreveu Juncker como “um grande democrata cujo maior talento é encontrar compromissos”. Nem o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lhe conseguiu resistir, observou.

“Tentei com todas as minhas forças”, garantiu Juncker, que sem nostalgias, embaraços ou imodéstias se referiu às “decepções” que coleccionou, mas também às “vitórias” que saboreou no cargo de presidente da Comissão. Na primeira categoria, mencionou o facto de não ter conseguido avançar o dossier da reunificação cipriota, concluir um novo tratado com a Suíça ou completar a união bancária — uma “obrigação ardente” para a UE ser capaz de reagir ao próximo choque e que só não aconteceu por causa da oposição dos Estados membros.

Essa não foi a única farpa que Juncker deixou aos líderes europeus. O presidente da Comissão dedicou uma palavra especial à Grécia, congratulando-se pelo caminho que permitiu “devolver a dignidade ao povo grego”, mas não esquecendo os muitos telefonemas que atendeu de chefes de governo descontentes com os seus esforços para resolver a crise, aconselhando-o a ocupar-se de outros assuntos.

Também a chamada crise migratória poderia ter tudo um outro desfecho se os líderes europeus não tivessem decidido sobrepor a sua política interna à “mais elementar solidariedade”. “No que diz respeito aos refugiados, o balanço podia ser muito melhor se o Conselho tivesse feito como o Parlamento e seguido as nossas propostas” de relocalização e reforma do sistema de Dublin, criticou Juncker, creditando mesmo assim os esforços europeus que permitiram salvar 760 mil vidas no mar Mediterrâneo.

Para a líder da bancada socialista, Iratxe García, muitos dos fracassos enumerados por Juncker não são responsabilidade sua. “Muitas vezes ficámos pelo caminho não por culpa da Comissão mas dos Estados membros”, distinguiu. “Há cinco anos o senhor propôs-nos uma nova agenda, afastando-se da política de austeridade imposta pelo senhor Barroso. É certo que a tarefa era ambiciosa e não era fácil”, notou a eurodeputada espanhola, lembrando que Juncker se confrontou com “a pior crise económica, a crise migratória e a desagradável surpresa do ‘Brexit’” — que o presidente da comissão simplesmente ignorou no seu discurso de despedida.

"É preciso cuidar da Europa"

Na categoria dos sucessos, o presidente da Comissão Europeia colocou o chamado plano Juncker que gerou investimentos de mais de 439 milhões de euros e promoveu cerca de um milhão de novos postos de trabalho; a flexibilização das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento que levou a uma redução dos défices orçamentais de 6,6% para 0,7% ou ainda o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, “que preserva a dignidade dos trabalhadores”.

Ainda no mesmo capítulo, Juncker lembrou que no seu mandato assinou 15 novos tratados internacionais, e que agora a UE tem acordos comerciais com 72 países que reflectem 40% da riqueza global. E considerou que no momento em que os Estados Unidos viram as costas ao multilateralismo, é o compromisso da Europa com os princípios da liberalização comercial e a concorrência assente em regras que a distingue e fortalece.

“Mas o meu maior sucesso foi manter a paz”, considerou Jean-Claude Juncker, que aconselhou as gerações mais jovens a nunca tomar a paz como adquirida. “Hoje há 60 guerras em curso no mundo, mas nenhum conflito aberto no território europeu. O que se passa à nossa porta, com os nossos vizinhos, mostra como a situação pode ser frágil. A paz nunca é óbvia. É algo de que devemos ter orgulho”, considerou.

A terminar o balanço, o veterano estadista europeu pediu aos eurodeputados para nunca baixarem a guarda ou abandonarem a “luta contra os nacionalismos estúpidos e limitados”. “É preciso cuidar da Europa”, avisou. E como um antigo combatente, emocionou-se por “ter podido ser, durante algum tempo, uma pequena parte de algo muito maior e mais importante”. Viva a Europa, concluiu.