“Autópsias” planetárias sugerem que mundos como a Terra são comuns no cosmo

O interior de alguns exoplanetas tem uma geoquímica parecida com a do nosso planeta, segundo confirmação de equipa dos EUA.

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Imagem artística de uma anã branca a sugar material rochoso de exoplanetas Universidade da Califórnia em Los Angeles/Mark Garlick

Uma nova forma de estudar planetas noutros sistemas solares mostra que mundos rochosos com geoquímicas semelhantes às da Terra poderão ser comuns no cosmo. De acordo com um artigo científico publicado esta sexta-feira na revista Science, percebeu-se que certas rochas extra-solares têm níveis de oxidação parecidos com os das rochas do nosso sistema solar. Neste trabalho elaborado por cientistas dos Estados Unidos fez-se uma espécie de autópsia a destroços de planetas devorados estrelas anãs-brancas.

Através de observações espectroscópicas, os investigadores estudaram seis anãs-brancas que, devido à sua forte força gravitacional, sugaram pedaços de planetas e outros corpos rochosos que estavam na sua órbita. A equipa percebeu que este material era muito parecido com o que existe actualmente em planetas rochosos como a Terra e Marte. Como a Terra alberga vida, estes resultados são assim a prova científica mais recente de que planetas semelhantes capazes de albergar vida existem em grande número além do nosso sistema solar.

“Quanto mais encontramos semelhanças entre os planetas do nosso sistema solar e os que circundam outras estrelas, mais aumentam as probabilidades de que é Terra não é assim tão invulgar”, afirmou Edward Young, um geoquímico e especialista em química do cosmo na Universidade da Califórnia em Los Angeles (nos Estados Unidos) e um dos autores do estudo. “Quanto mais planetas parecidos com a Terra existirem, maior é a possibilidade para a existência de vida [noutros sistemas solares] tal como a entendemos.”

O primeiro exoplaneta foi descoberto em 1995, por Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra (Suíça), que este ano receberam o Prémio Nobel da Física, juntamente com James Peebles. Actualmente, já se detectaram mais de 4000 exoplanetas. Contudo, continua a ser difícil para os cientistas determinar a sua composição. Estudar anãs-brancas abre assim novas possibilidades para mais descobertas.

Uma anã-branca é um núcleo de uma estrela com a massa equivalente à do Sol onde já não ocorrem reacções nucleares. Na agonia da sua morte, a camada mais exterior dessa estrela explode e a restante matéria entra em colapso, tornando-se extremamente densa e relativamente pequena. Desta forma, torna-se uma das formas de matéria mais densas do Universo, sendo apenas ultrapassada pelas estrelas de neutrões e pelos buracos negros.

Os planetas e outros objectos que outrora orbitaram essas estrelas podem ser ejectados para o espaço interestelar. Mas, se ficarem a vaguear perto do seu enorme campo gravitacional, esses planetas “serão triturados em poeira e essa poeira começará a cair para dentro da estrela”, disse Alexandra Doyle, estudante de Geoquímica da Universidade da Califórnia e primeira autora do estudo.

“Foi daqui que surgiu a ideia da ‘autópsia’ para este trabalho”, acrescentou, salientando que foi através da observação das assinaturas dos elementos dos planetas “massacrados” e de outros objectos que caíram dentro das anãs-brancas que se conseguiu perceber a composição desses outros mundos. Os investigadores observaram uma característica fundamental das rochas: o seu estado de oxidação. A quantidade de oxigénio presente durante a formação dessas rochas era elevada, tal como aconteceu durante a formação do material rochoso do nosso sistema solar.

Das seis anãs-brancas estudadas, a mais próxima de nós está a 200 anos-luz de distância e a mais longínqua a 665 anos-luz.