Opinião

A virtude de saber esperar – uma competência “em vias de extinção”?

Treinando o “músculo da paciência”, teremos certamente adultos mais bem preparados para lidarem com os desafios que se lhes deparem.

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Picsea/Unsplash

Num mundo vivido a um ritmo cada vez mais acelerado, em que quase tudo está à distância de um click e em que os próprios adultos facilmente demonstram sinais de impaciência, como promover nas crianças a importante “arte de saber esperar”?

Os avanços tecnológicos das últimas décadas expõem cada vez mais as novas gerações a um ideal de gratificação imediata. Com frequência crescente assistimos a birras exuberantes e estados elevados de ansiedade nas crianças quando as suas necessidades não são satisfeitas no “aqui” e no “agora”. No entanto, este tipo de gratificação tão instantânea e frequente só é possível no “mundo virtual”. No “mundo real”, embora se afigure uma tarefa hercúlea, é fulcral ensinar as nossas crianças não só a esperar, como a estarem confortáveis com as esperas, a serem pacientes.

Mas, em boa verdade, quem gosta de esperar?

Esperar pode ser desconfortável, difícil, frustrante e até desencorajador, por vezes. Facto é, que é uma competência fundamental e transversal a vários contextos. Quando falamos em “esperar”, falamos em algo com o qual somos confrontados diariamente e um sem número de vezes ao dia. Apesar da cada vez maior imediatez das coisas, todos os dias temos que esperar, seja pela nossa vez na fila do supermercado ou que o semáforo fique verde, seja pelo download de um ficheiro ou pela abertura de um vídeo do YouTube. Quando pensamos em competências necessárias à prontidão escolar, por exemplo, o autocontrolo, a capacidade de persistência nas tarefas e a capacidade de esperar são certamente, algumas delas. Na escola, a criança tem que saber esperar pela sua vez de falar, esperar que a professora distribua as fichas para que possa começar a resolvê-las ou pela hora do recreio para ir brincar…

Estas não são competências inatas, mas podem (e devem) ser aprendidas e desenvolvidas através da prática. Vão sendo também desenvolvidas, progressivamente, com a idade e a maturação, numa dialéctica com o meio envolvente. As crianças não nascem naturalmente pacientes, um bebé precisa do que precisa, agora! Chora, esperando ser alimentado no momento em que está com fome e não percebe se lhe disserem para esperar. Desta forma, a criança numa fase inicial está mais dependente do input externo do adulto para a ajudar a regular-se, visto ainda não o conseguir fazer em autonomia. Esta necessidade de regulação externa é, com o crescimento, progressivamente substituída por um mecanismo interno em que a criança vai começando a conseguir regular-se sozinha.

O papel do adulto na aquisição desta competência é, por isso, fundamental. Contudo, hoje em dia, na ânsia de parar ou mesmo de antecipar uma birra, rapidamente entregamos aos nossos filhos um telemóvel ou um tablet na esperança de sobrevivermos (todos) ao momento. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra!... Mas a verdade é que esta deveria ser uma solução de recurso, de S.O.S. e não a regra, como o é, na maioria das vezes. As crianças que são, sistematicamente, entretidas pela tecnologia estão, por um lado, a perder oportunidades de aprenderem a entreter-se sozinhas, desenvolvendo as competências inerentes e, por outro, de desenvolverem competências de comunicação, construírem uma atenção sustentada e expandirem os seus interesses e criatividade.

Como podemos, então, ajudar as crianças a serem mais pacientes? De que formas podemos ajudá-las a aprenderem a esperar pelo que querem e a evitar/minimizar frustração e birras? Como podemos ensinar-lhes o valor da paciência – não só a esperar pelo que querem, mas a serem pacientes umas com as outras?

  • Modelando um comportamento paciente, num ambiente responsivo e de confiança e empatizando com a dificuldade (ajuda na regulação emocional, a manterem-se controlados quando têm de esperar);
  • Começando por tempos de espera curtos e ir aumentando progressivamente, de acordo com a idade/fase de desenvolvimento;
  • Criando manobras de diversão, quando os tempos de espera são inevitáveis (brinquedos, transforme a espera num jogo, invente uma história);
  • Promovendo actividades, cujos resultados não sejam imediatos (Ex.: fazer um bolo, plantar um feijoeiro...);
  • Fomentando o partilhar/alternar a vez – são competências sociais importantes, necessárias no dia-a-dia. Sem elas, têm muitas vezes dificuldades em fazer/manter amizades. Numa brincadeira ou conversa, por exemplo, têm de reconhecer quando a sua vez de falar acabou, têm de ouvir o outro e esperar que seja novamente a sua vez;
  • Dando-lhes tempo – as crianças necessitam de tempo para pensar, processar a informação e elaborar as suas ideias e respostas, o que vai ajudar na construção da sua confiança e independência; ao esperarmos que façam um pedido ou dêem uma resposta, por exemplo, estamos a criar a necessidade e a oportunidade para que comuniquem, desenvolvam a linguagem ou outro tipo de competência.

Se ao longo do desenvolvimento a criança for sempre prontamente atendida (sem que haja urgência), se não for criado um compasso mínimo de espera entre os seus desejos/pedidos e a concretização dos mesmos, ou se estes forem constantemente antecipados, podemos estar a negar-lhes a oportunidade de se frustrarem, de aprenderem a lidar com essa frustração e desenvolverem a tolerância e de pensarem em soluções para os seus problemas.

Treinando o “músculo da paciência”, teremos certamente adultos mais bem preparados para lidarem com os desafios que se lhes deparem.

Técnica superior de reabilitação psicomotora  no CADIn