Quatro linces-ibéricos mortos “às mãos de caçadores” desde o início do ano em Castilla-La Mancha

Outros quatro linces terão morrido atropelados na mesma região em 2019.

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Um dos linces mortos por caçadores ECOLOGISTAS EM ACÇÃO

Desde o início do ano já morreram pelo menos quatro linces-ibéricos “às mãos de caçadores” nos Montes de Toledo, na comunidade autónoma de Castilla-La Mancha, no Centro de Espanha, denunciou a organização espanhola Ecologistas em Acção (Ecologistas en Acción). Os animais faziam parte do programa de reintrodução da espécie LIFE+Iberlince em Portugal e Espanha.

As autoridades de Castilla-La Mancha confirmaram a morte dos quatro linces, acrescentando, segundo o diário El País, que morreram também outros quatro espécimes atropelados este ano. O que significa que, desde o início do ano, morreram naquela região oito linces.

Dos quatro que morreram devido à caça furtiva, dois foram baleados e outros dois foram vítimas de métodos ilegais de captura (como armadilhas).

A Junta de Castilla-La Mancha classifica, citada pelo El País, de “especialmente trágico o disparo à queima-roupa que causou a morte a uma fêmea reprodutora que tinha quatro crias, as quais presumivelmente não conseguiram sobreviver devido à sua tenra idade”.

A fêmea chamava-se Nenúfar. Tinha tido quatro filhotes em Abril passado e foi baleada à queima-roupa em Junho, explicou ao El País Miguel Hernández, porta-voz da Ecologistas em Acção. Os restantes três linces mortos por caçadores eram do sexo masculino e chamavam-se Planeta, Peñafiel e Mazapán.

Segundo Antonio Aranda, que pertence ao departamento de desenvolvimento sustentável do governo regional de Castilla-La Mancha, as crias de Nenúfar “eram demasiado pequenas para sobreviver” sem a mãe. Uma delas foi encontrada morta, adiantou o responsável, e as outras três foram dadas como desaparecidas. “Nunca tinha acontecido algo assim, mas não podemos criminalizar todos os caçadores, são factos pontuais”, sublinha Antonio Aranda.

Já Miguel Hernández acusa a administração regional de falta de transparência e garante que “desde que existem estatísticas sobre a mortalidade de linces relativas a este século, não tinha havido [ainda] um número tão elevado de mortes devido à caça ilegal de linces numa área tão específica e num tão curto espaço de tempo”.

O ambientalista critica o facto de estes casos não terem “vindo a público até agora” e lembra que as entidades que participam no projecto Iberlince “eram muito diligentes na hora de divulgar estas informações”.

Por outro lado, o governo regional de Castilla-La Mancha sublinha que está a ser feito “um grande esforço de investigação” para esclarecer os contornos destes casos e identificar os responsáveis, garantindo que já foram iniciados procedimentos para interromper a actividade em dois campos de caça nos próximos anos.

A Ecologistas em Acção afirma que, ao contrário “do que era suposto”, o lince-ibérico não está efectivamente protegido, “especialmente contra práticas legais [ou não] de caça, que ocorrem não apenas em Castilla-La Mancha, mas também na Estremadura e em Andaluzia”.

No total, segundo dados do governo regional, existem actualmente em Castilla-La Mancha mais de duas centenas de linces-ibéricos de diferentes idades.

O lince-ibérico passou de criticamente ameaçado para ameaçado de extinção e poderá perder o estatuto de ameaçado dentro de décadas, graças à reintrodução de exemplares na Península Ibérica, admitiu à Lusa, em Maio, Pedro Sarmento, especialista do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) que faz parte da equipa do Projecto de Recuperação da Distribuição Histórica do Lince-Ibérico em Espanha e Portugal LIFE+Iberlince.

Em Portugal, a população de lince-ibérico tem vindo a crescer. No início do mês de Junho, a população de lince-ibérico no vale do Guadiana registou mais dez crias confirmadas, grupo no qual se estima que 12 fêmeas possam ter-se reproduzido este ano. As previsões, segundo o Ministério do Ambiente, apontam para cerca de 30 nascimentos em 2019, “um ligeiro aumento” relativamente a 2018. Segundo o ICNF, tem-se “registado um interesse e envolvimento crescentes dos cidadãos pela conservação do lince-ibérico”. No entanto, estes animais continuam a ser vítimas de atropelamento, afogamento, envenenamento e outras causas de morte.