Kiribati reconhece Pequim e deixa Taipé com apenas 15 aliados diplomáticos

Pequim considerou que “reconhecer o princípio ‘uma só China’” e romper os laços diplomáticos com Taiwan é a confirmação “da irresistível tendência desta era”.

Xi Jinping
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Xi Jinping, Presidente da China Nuno Ferreira Santos

Taiwan vê-se cada vez mais isolada no palco internacional e esta semana sofreu dois duros golpes na sua aspiração em ser reconhecida como Estado. O Kiribati e as Ilhas Salomão viraram-lhe costas para reconhecerem a China. Taipé está reduzida a 15 aliados.

Em retaliação pela decisão de Kiribati, o Governo taiwanês anunciou esta sexta-feira o encerramento da sua embaixada na pequena ilha do Pacífico. “O Governo da República da China lamenta profundamente e condena veementemente a decisão do Governo do Kiribati que desvaloriza a assistência multifacetada e a amizade sincera estendida por Taiwan a Kiribati ao longo dos anos”, disse em conferência de imprensa o ministro dos Negócios Estrangeiros taiwanês, Joseph Wu.

Pequim considerou que “reconhecer o princípio ‘uma só China’” e romper os laços diplomáticos com Taiwan é a confirmação “da irresistível tendência desta era”.

As autoridades taiwanesas acusam Pequim de a querer isolar diplomaticamente ao prometer empréstimos e investimentos chineses em troca de os países romperem os laços diplomáticos com Taipé. E o Kiribati não foi excepção, garantiu Wu. “De acordo com informação obtida por Taiwan, o Governo chinês já prometeu dar fundos para a compra de vários aviões e navios comerciais, aliciando o Kiribati para mudar de relações diplomáticas”, disse o ministro.

Pequim argumenta que Taiwan  é uma província chinesa e, por isso, não tem direito a estabelecer relações diplomáticas com estados. Esta decisão de Kiribati acontece a dez dias da comemoração do 70.º aniversário da fundação da República Popular da China, em 1949.

Quatro dias antes da decisão do Kiribati, o Governo das Ilhas Salomão votou a favor do corte de relações diplomáticas com Taipé para passar a apoiar Pequim. Há 36 anos que mantinham relações diplomáticas e o Governo taiwanês acusou as Ilhas Salomão de trair a sua amizade e lealdade.

De acordo com a imprensa internacional, Pequim prometeu ajuda financeira às Ilhas Salomão na ordem dos 500 milhões de dólares (452 milhões de euros), ultrapassando em muito a capacidade financeira de Taiwan.

Taipé vê-se agora reduzida a 15 aliados. Taiwan é reconhecido por quatro nas ilhas do Pacífico – Ilhas Marshall, Nauru, Palau e Tuvalu – e nove nas Caraíbas e América Latina. Em África apenas tem um, a Suazilândia, e na Europa só o Vaticano a reconhece. O grande pilar internacional de Taiwan são os Estados Unidos - que porém não reconhecem o país - e o seu principal garante de defesa em caso de agressão militar chinesa.

A perda de reconhecimento cria um obstáculos a Taipé: não poder entrar nas organizações internacionais mais importante do sistema internacional. Por exemplo, Taiwan não foi já por três vezes convidada a participar na Assembleia-Geral da Organização Mundial de Saúde em Genebra, na Suíça.

A China vê Taiwan como província rebelde, fruto da guerra civil que opôs comunistas a nacionalistas, e o Presidente chinês, Xi Jinping, tem-se esforçado para que, internacionalmente, seja tratada como tal. Os exercícios militares chineses nas águas próximas da ilha têm sido recorrentes desde que a Presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, do Partido Progressista Democrático (PPD), chegou, em 2016, ao poder com uma agenda soberanista.

“Enquanto o PPD estiver no poder, mais cedo ou mais tarde Taiwan vai deixar de ter aliados diplomáticos”, escreveu o Diário do Povo, o órgão oficial do Partido Comunista Chinês. “Só com confiança entre o estreito pode Taiwan alargar o seu ‘espaço internacional’. Se o Governo de Tsai continuar a recusar o bom senso, virão mais ‘crises diplomáticas’”.

Um crescente isolamento que ia fazendo uma baixa de peso no Executivo de Taipé. Pouco depois de se saber da viragem diplomática das Ilhas Salomão, o ministro dos Negócios estrangeiros taiwanês apresentou a demissão à Presidente Tsai, que recusou argumentando que o único culpado pela diluição do peso diplomáticas de Taiwan é Pequim.

Taiwan realiza eleições presidenciais em 2020 e Tsai está em dificuldades perante o candidato do Kuomintang, Han Kuo-yu, o muito popular presidente da câmara de Kaohsiung. O Governo taiwanês acusou o regime comunista de tentar influenciar as eleições com jogadas diplomáticas que prejudicam o partido de Tsai. “É absolutamente evidente que a China, através deste caso, tenta deliberadamente influenciar as eleições presidenciais e legislativas que aí vêm”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros de Taiwan.