Ex-apoiante de Rio diz que líder tem de sair depois das legislativas

O líder da concelhia do PSD-Porto defende que Rui Rio “tem de sair” depois das legislativas. Carlos Carreiras diz que direcção não cumpre “serviços mínimos”.

,Luís Filipe Menezes
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Rui Rio está debaixo de fogo Paulo Pimenta

A um mês e meio das legislativas, Rui Rio perdeu o apoio de um dos dirigentes concelhios mais próximos: Hugo Neto, líder da secção do PSD-Porto. Num post no Facebook, Hugo Neto assumiu a “desilusão” com Rui Rio, defendeu que o presidente social-democrata “não tem rumo nem estratégia” e deixou um desafio: “tem de sair” depois das eleições de Outubro.

Apoiante e antigo colaborador do líder do PSD – foi adjunto na Câmara do Porto no tempo em que o autarca liderou o município – Hugo Neto critica a decisão de Rui Rio e do seu núcleo duro por terem tirado férias “a meio de uma crise” que “preocupa os portugueses”. “A ausência total de PSD, durante duas longas semanas num período político crítico é inaceitável e apresenta um odor demasiado forte a uma incompetente arrogância para que eu me consiga manter calado. O PSD é mais do que isto”, escreveu naquela rede social.

Hugo Neto fez referência a um artigo de opinião de Carlos Carreiras no jornal i, também publicado na quarta-feira, em que o presidente da Câmara de Cascais aludiu ao tema que está a dominar a actualidade para criticar o PSD de Rui Rio. “O PSD está há muito em greve de combate político. Claramente, não está a cumprir os serviços mínimos. Temo que a situação já só se componha com uma requisição civil convocada pelos militantes”, escreveu.

Contactado pelo PÚBLICO, Hugo Neto esclareceu que a sua tomada de posição é “um desabafo de quem está desiludido” mas escusou-se a acrescentar declarações ao que escreveu naquela rede social.

No mesmo post, o dirigente concelhio criticou fortemente o processo de elaboração das listas nacionais não só por causa da exclusão de certas figuras sociais-democratas mas também em relação às escolhas para o Porto. Uma das falhas tem a ver com a exclusão de uma figura social-democrata também de Cascais. Hugo Neto disse ter transmitido a Rui Rio “o quão grave e errado sinal seria deixar de parte um dos melhores do PSD, como Miguel Pinto Luz [vice-presidente de Carlos Carreiras na Câmara de Cascais], uma incompreensível injustiça vetar ou, de forma mais covarde e menos assumida, relegar para a ineligibilidade Maria Luís Albuquerque ou esquecer o contributo de trabalho de Emídio Guerreiro”.

Para o social-democrata, que foi administrador executivo da empresa municipal Porto Lazer entre 2011 e 2013, “Rui Rio conseguiu cometer cumulativamente todos estes erros e falhas graves na construção das listas nacionais”.

Já sobre a lista do Porto, o dirigente concelhio acusa Rio de ter imposto sete nomes e considera que as escolhas feitas, salvo algumas excepções, “não asseguram reforço de competências técnicas ao grupo parlamentar” e também “não representam as bases do partido, não garantem equilíbrio territorial e não cruzam verdadeiramente o partido com o melhor da nossa sociedade”.

Assumindo a desilusão com o líder do PSD, Hugo Neto considera que Rio é a “personificação máxima do Princípio de Peter” ao ter-se rodeado de rodeado de “gente sem qualidade” e ao ter-se tornado num presidente “sem rumo nem estratégia”. “E se é, hoje, quase unânime, que depois de tantos erros e passos em falso, Rio terá que sair depois de 6/10, escusava de ter escolhido a porta mais minúscula para essa mesma saída”, concluiu.

O silêncio da direcção do PSD nos últimos dias sobre a greve dos motoristas foi quebrado, na quarta-feira ao final da tarde, com uma conferência de imprensa do vice-presidente David Justino.

A posição de Hugo Neto e as críticas de Carlos Carreiras aconteceram no dia em que foi divulgada uma entrevista de Rui Rio ao jornal de campanha do PSD, disponibilizado no site do partido. O líder social-democrata apontou o “estilo e a ideologia” como os dois aspectos que o separam do primeiro-ministro.

“António Costa é muito mais à esquerda do que eu, ao ponto de se unir, sem qualquer constrangimento, à extrema-esquerda e governar com ela sem grandes problemas. Comigo isso seria impossível”, afirmou. O líder do PSD considera que o líder socialista “valoriza muito mais o curso prazo e os fenómenos tácticos e conjunturais”. Já o próprio diz preocupar-se “menos com o curso prazo” e focar-se “sempre mais no futuro, no médio e longo prazo”.

Questionado sobre quais as três falhas ou erros políticos que levem os portugueses a mudar de Governo, o líder do PSD apontou a “falta de investimento e de gestão dos serviços públicos, o abandono das pequenas e médias empresas e o tacticismo político”. Rui Rio critica ainda o PS por ter “batido o recorde histórico da carga fiscal em Portugal”. “Nunca os portugueses pagaram tantos impostos”, afirmou.