Editorial

Greve: o que ficámos a saber por estes dias

A captura da razão em favor da explosão de emoções, delineada por quem tinha responsabilidades especiais, foi demasiado grave e marcará com certeza, para o bem e para o mal, um “antes” e um “depois”

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Pedro Pardal Henriques LUSA/ANTónio Cotrim

Pode ser que o bom senso sobreviva ao Verão. Pode ser que a greve acabe depressa, os sindicatos e as empresas voltem às negociações, o “povo” socialista deixe de pensar que o famoso Pardal é o homem do Steve Bannon na Europa para destruir o único Governo de “esquerda unida” ou que - outra teoria da conspiração bastante ouvida por estes dias – o sr. Pardal é uma versão lusa e do século XXI daqueles que derrubaram Salvador Allende em 1973 no Chile.

Sabemos da íntima ligação da política às emoções – é disso que se alimentaram sempre os populismos de toda a ordem – mas a captura da razão em favor da explosão de emoções, delineada por quem tinha responsabilidades especiais, foi demasiado grave e marcará com certeza, para o bem e para o mal, um “antes” e um “depois”. Não sabemos ao certo qual será o resultado final. Ficámos a saber que o nosso sistema político ainda é muito jovem e muito frágil, que o maior partido da oposição jaz morto e arrefece, que o Partido Comunista Português aceita as greves desde que sejam dos seus sindicatos e quanto aos outros grevistas acusa-os – sim, aos grevistas – de serem responsáveis pelo facto de o Governo limitar o direito à greve. Ficámos a saber que o Bloco de Esquerda hesitou, hesitou, disse uma coisa baixinho e outra a média voz até, finalmente, Catarina Martins ter aparecido ontem a dizer qualquer coisa de esquerda, como no filme famoso de Nanni Moretti.

Ficámos a saber imensas coisas que preferíamos desconhecer – a ignorância às vezes é abençoada e o reino dos céus ou o reino do sossego também é de quem permanece na ignorância.

Ficámos a saber que os motoristas são obrigados a trabalhar mais de oito horas por dia (ontem o ministro do Ambiente fez questão de nos lembrar a todos que, de maneira nenhuma, os motoristas se podiam dar ao luxo de trabalhar oito horas por dia, como queriam fazer nesta greve, porque o que está no seu contrato de trabalho vai até às 60 horas por semana). Ficámos também a saber que os recibos que tanta gente, alegadamente de bem, colocou a circular na internet com 1800 euros correspondiam a horas e horas extraordinárias de trabalho que a maioria deles não quereria nem conseguiria humanamente fazer. Muitas dessas pessoas – alegadamente de bem – foram as mesmas que lutaram pela semana de 35 horas na Função Pública, uma reversão que o Governo de esquerda, e bem, conseguiu fazer.

Ficámos a saber os níveis de loucura colectiva quando a respeitável Sociedade Portuguesa de Autores vem pronunciar-se sobre a greve dos camionistas, em defesa do Governo contra o advogado Pardal, o autor de “radical acção sindical” para “obter problemático ganho político”. Parece que toda a gente, menos o sr. Pardal, tem direito a ter ganhos políticos. Não foram dias bonitos. Esperemos que as mentes acalmem depois do apelo de ontem do ministro Vieira da Silva ao regresso à mesa das negociações.