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Um rohingya “apavorado” que chegou à capa da National Geographic

“Lembro-me de ver os grandes olhos da criança, que estava apavorada, e a forma como se agarrava à mãe.” O fotógrafo do Bangladesh K. M. Asad documenta esta crise humanitária desde 2012. “E continuarei a fazê-lo.”

Tão cedo, K. M. Asad não esquecerá o dia 14 de Setembro de 2017. Provavelmente nunca o esquecerá. “Lembro-me muito bem desse dia”, diz ao P3 o autor da fotografia que faz capa da edição de Agosto da National Geographic, cujo destaque é “O mundo em movimento” — e todos os migrantes que fazem parte da maior diáspora da história.

Uma mulher avança com água pelos joelhos com uma criança ao colo, que olha assustada na direcção contrária. “Uns dias antes, entre 25 e 30 crianças rohingyas tinham-se afogado no mar quando fugiam para o Bangladesh”, recorda o fotógrafo bengalês que dedicou parte dos últimos anos da sua carreira a contar a história trágica do povo rohingya, perseguido e torturado pelo grupo étnico rakhain e pelo Exército da Birmânia. Khandaker Mohammad Asad pegou no equipamento e foi directamente para Cox’s Bazar com outros jornalistas.

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O fotógrafo KM Asad

“Passámos várias horas à espera. Mas nada aconteceu. Nenhum barco chegou. Às 17h, os meus colegas queriam desistir e voltar. Eu disse: ‘Vamos esperar mais 15 minutos.’ Se nada acontecesse até então, iríamos. De repente, avistei um pequeno ponto preto no horizonte. Não ficou claro se era um barco de refugiados ou um barco de pesca. Por causa das ondas fortes, o barco aproximou-se de nós muito depressa. Então, depois de um alguns minutos, ficou claro que era mesmo um barco de refugiados. Corri para a água em direcção ao barco. Tenho muitas fotos desse barco e das pessoas que chegaram nele. E de repente, à minha esquerda, vi que algo se movia muito depressa. Virei-me rapidamente e vi que uma jovem levava um filho pequeno em braços. Lembro-me de ver os grandes olhos da criança, que estava apavorada, e a forma como se agarrava à mãe. Foi tudo muito rápido.”

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Lembra-se claramente que o mar estava “revolto”. E que as pessoas chegavam “em pânico” — o mesmo pânico que acompanha as fotografias de Exodus, o projecto multipremiado em que K. M. Asad procura contar as histórias pessoais trágicas dos rohingyas e partilhá-las com o mundo. “A mãe queria muito chegar à costa”, reforça o fotógrafo, que não conseguiu obter mais informações sobre a cena que fotografou e que o emocionou. “Ambos correram muito depressa”, explica, Asad, que corria na direcção contrária. “Temos de imaginar uma cena de pânico e de medo. As pessoas chegam e tentam-se salvar. Tentam pisar terra firme o mais depressa possível. Estavam entre 25 e 30 pessoas nesse barco, principalmente mulheres, crianças e idosos. Nem sequer me perguntei porque é que eu próprio estava a correr na água. Quanto mais perto o barco chegava, mais depressa eu corria. Queria fotografar as pessoas e o barco que os trouxe para a segurança.”

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KM Asad

Há sensivelmente três meses, o fotógrafo do Bangladesh foi contactado por uma editora da National Geographic que descobrira a foto no arquivo da agência Zuma Press. “Perguntou-me se a foto era minha. E eu perguntei se havia algo errado com a fotografia”, conta ao P3. A revista preparava a capa do tema de Agosto (“O mundo em movimento”) e a sua foto era uma das três finalistas. “Fiquei sem palavras”, conta K. M. Asad, que nunca desistiu de provar a autenticidade da sua fotografia, apesar das regras “extremamente rigorosas” da publicação internacional. “A National Geographic recebeu todas as minhas informações e os ficheiros originais desse dia de reportagem e tomou a sua decisão.”

Asad continua a voltar regularmente aos campos de Kutupalong, em Cox’s Bazar, e a fotografar a nova vida dos rohingyas. “A situação mudou definitivamente desde 2017, graças ao apoio de numerosas organizações internacionais. O número de refugiados que chegam também diminuiu”, sublinha o fotógrafo, que partilha muitas dessas histórias na sua conta de Instagram. “Todos os dias surgem novas dificuldades (como o crescente número de partos diários). Assim, a situação geral permanece grave.” Khandaker Mohammad Asad documenta esta crise humanitária desde 2012. “E continuarei a fazê-lo, porque sei que a situação deles é incerta. Esta é precisamente a pergunta que faço há anos: qual é o futuro dos rohingyas?”