Os rohingyas “lutam diariamente contra a morte”

KM Asad
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Para o multipremiado fotógrafo bengalês KM Asad, o tema do êxodo do povo rohingya da Birmânia não é algo de novo. Afinal, o primeiro contacto que teve com esta realidade foi em 2012. “Foi nessa altura, através de um canal noticioso, que percebi que o povo muçulmano rohingya estava a ser perseguido e torturado pelo grupo étnico rakhain e pelo exército da Birmânia”, explicou ao P3, em entrevista por email. “Percebi que os rohingyas estavam em fuga em direcção ao Bangladesh, que se dirigiam para a fronteira de Teknaf, cruzando o rio Naaf.” KM Asad fez as malas e decidiu testemunhar, com os próprios olhos e uma câmara fotográfica, o que estaria a acontecer junto à divisão entre os dois países. “Pareceu-me imperativo revelar os rostos que estão por detrás desta tragédia humana. Foi isso que me levou lá, dar um rosto a estas pessoas que, como cada um de nós, tem o direito a viver de forma livre, em paz e segurança.”

Após 2012, a situação abrandou. A protecção ao campo de refugiados impediu o acesso do colaborador da Getty e Zuma Press a Cox's Bazar. “Passei muito tempo sem poder visitar o campo. Mas em 2017 e 2018, quando a situação se agudizou, dei início, imediatamente, à cobertura dos acontecimentos. Mantenho-me no terreno até ao presente, constamentemente a trabalhar este tema. É um projecto que se mantém em aberto e que considero importante desenvolver, do ponto de vista pessoal.” 

Os rohingyas “lutam diariamente contra a morte”, assegura o fotógrafo. KM Asad destaca um episódio particularmente chocante, de entre todos aqueles que presenciou, o da morte de Jamal Hossain, um menino de seis meses que não resistiu à difícil travessia de 20 dias entre a sua aldeia e a fronteira com o Bangladesh. “Quando vi o bebé, fiquei sem palavras. Chocou-me profundamente ver uma criança tão bonita cheia de frio, com fome, sem roupas quentes. E vi-o partir.” Nesse momento, KM Asad tomou consciência da dor de uma mãe perante a morte de um filho. “As mães rohingyas estão constantemente expostas a esta dor. Por momentos, fez-me pensar na minha própria mãe e como a notícia da minha morte a poderia abalar, como iria partir-lhe o coração.” Asad pousou a câmara. “Falhei enquanto fotógrafo”, assume. Mais tarde conheceu a história desta mãe de luto. A sua aldeia foi atacada pelo exército birmanês, o marido e dois dos filhos foram mortos. “Ela disse que não se lembrava de como tinha chegado ao Bangladesh e que nem sequer tinha interesse em recuperar essa memória. Gostaria até de esquecer o que a empurrou para a fronteira. Sabe apenas que, quando chegou, restava já pouco tempo de vida ao único filho, cuja jornada terminaria cedo demais.”

Cada refugiado rohingya tem uma história pessoal trágica e KM Asad quer partilhar pelo menos algumas com o mundo, através das imagens de Exodus, o projecto premiado e destacado, em 2018, pelos concursos IPA, POY, NPPA, Prix de la Photographie, Sony Awards e Nikon Photo Contest, entre outros de igual relevância no panorama fotográfico internacional. “Não é fácil para mim trabalhar sobre este tema, mas irei continuar. Porque esta situação não deve cair no esquecimento.”

“O maior medo desta minoria é ter de voltar a conviver com a maioria budista da Birmânia, a mesma que foi acusada de cometer actos genocidas contra os rohingyas”, sublinha. Nenhum refugiado se voluntariou para regressar ao país de origem, no dia em que estava agendado um repatriamento, em Novembro de 2018. Todos preferiram permanecer nos campos. “Eles sentem-se seguros no Bangladesh, já não temem pelas suas vidas.” Permanece a incógnita sobre o que poderá acontecer a esta minoria a longo prazo. Qual o futuro dos rohingyas?

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