A Herdade, de Tiago Guedes, compete na 76.ª edição de Veneza

Na selecção, apresentada em Roma, figuram os novos filmes de Roman Polanski, Steven Soderbergh, Todd Phillips ou James Gray. E há uma curta portuguesa na selecção Horizontes, Cães Que Ladram aos Pássaros, de Leonor Teles.

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Albano Jerónimo em A Herdade
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Tiago Guedes, um realizador poruguês na competição principal de Veneza
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Jean Dujardin em J'Accuse: Roman Polanski filma o "caso Dreyfus" a pensar no seu caso
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Joker, de Todd Phillips
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: Brad Pitt, astronauta no novo filme de James Gray
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Ema: Pablo Larraín "incendiário"
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La mafia non è più quella di una volta, de Franco Maresco
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Gong Li em Saturday Fiction
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The New Pope: Jude Law na série de Paolo Sorrentino

A saga de uma família de proprietários de uma das maiores herdades da Europa, a sul do Tejo, um fresco sobre Portugal na segunda metade do século XX, A Herdade, de Tiago Guedes, vai competir na 76.ª edição do Festival de Veneza. Na selecção, apresentada hoje em Roma, figuram filmes de Roman Polanski, Steven Soderbergh, Todd Phillips, Hirokazu Kore-eda ou James Gray.

A Herdade é uma produção de Paulo Branco, com guião do escritor Rui Cardoso Martins e Tiago Guedes (e ainda a participação de Gilles Taurand). Tem como intérprete principal Albano Jerónimo. Albert Barbera, director da mostra, falou dele como “uma espécie de 1900 português” (referência, para italiano ver, ao filme de Bernardo Bertolucci, descontando as diferenças de dimensão produtiva). E salientou algo que considerou uma raridade no cinema português, a vocação internacional de A Herdade. Que depois de Veneza vai ao Festival de Toronto e tem estreia marcada para Setembro.

Não acontece isto, um filme português na competição principal do Lido, desde 2005, desde O Fatalista, de João Botelho. Depois de ter sido um festival que deu um Leão de Ouro de carreira a Manoel de Oliveira em 2004 e que seleccionou para o concurso César Monteiro (Leão de Prata a Recordações da Casa Amarela, em 1989), Pedro Costa (Prémio de Melhor Fotografia a Ossos, em 1997), Teresa Villaverde ou João Pedro Rodrigues (O Fantasma confundiu magnificamente o Lido em 2000), Veneza vem-se fazendo caro aos filmes portugueses na competição. Parecendo querer distanciar-se dessa história e desinteressando-se de se actualizar em relação aos seus desenvolvimentos, o que passou a ser, por exemplo, narrativa do Festival de Locarno, que este ano tem três realizadores portugueses na competição principal. Mesmo São Jorge, de Marco Martins, em 2016, foi premiado na secção paralela Horizontes.

Mas este ano, para além da competição principal de longas, há ainda uma curta portuguesa a competir, precisamente, na secção Horizontes, Cães Que Ladram aos Pássaros, de Leonor Teles. E mais ainda... o glorioso Francisca, de Manoel de Oliveira, produção de Paulo Branco, em versão restaurada pela Cinemateca Portuguesa, na secção Venice Classics.

The Truth, do japonês Hirokazu Kore-eda, abre, a 28 de Agosto, o festival. Exibido em competição, é o primeiro filme do cineasta que não é rodado em japonês (diálogos em inglês e em francês) e tem um “elenco de prestígio”, como se diz, encabeçado por Catherine Deneuve e Juliette Binoche, que são mãe e filha. É o filme de Kore-eda que se segue à Palma de Ouro de Cannes por Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões (2018). O encerramento, a 7 de Setembro, caberá a The Burnt Orange Heresy, de Giuseppe Capotondi.

Entre um dia e outro haverá: Polanski e o caso Dreyfus, J'Accuse, que Barbera diz ir para o grupo dos grandes Polanski, pela dimensão da reconstituição do escândalo político judicial que sacudiu a França no final do século XIX e princípio do século XX, a fraudulenta condenação por traição de um oficial do exército francês — nota Barbera que o cineasta está na verdade a filmar a actualidade e coloca algo da sua experiência, do seu caso, não sendo por isso de admirar que já se vaticina recepção polémica no Lido; Ad Astra, a ficção científica de James Gray, com Brad Pitt como astronauta a aventurar-se pelos limites do sistema solar (e em busca do pai); Ema, de Pablo Larraín, “retrato incendiário de uma mulher”, o que, segundo o director da mostra, é para levar em sentido literal e metafórico (será uma das narrativas deste festival, segundo os programadores, o retrato do feminino); Marriage Story, de Noah Baumbach, e Guest of Honor, de Atom Egoyan, o casal e o inferno da separação, os pais e os filhos e a culpa, respectivamente; Joker, de Todd Phillips, que, segundo Barbera, “tanto pode ser um spin off de Batman como uma prequela de Dark Knight, ainda mais dark, mas não é nada disso, é um grande filme sobre as contradições das metrópoles contemporâneas” que uma major americana, a Warner, aceitou, o que hoje é raro, submeter a concurso num festival europeu.

E ainda, a completar os títulos a concurso, The Perfect Candidate, de Haifaa Al-MansourBabyteeth, de Shannon Murphy, uma primeira-obra (Haifaa Al-Mansour, da Arábia Saudita, e a australiana Murphy são as duas cineastas da competição), About Endlessness, Roy Andersson (o regresso, depois do Leão de Ouro em 2014 a A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence, e continuando a melancolia), Wasp Network, de Olivier Assayas, Gloria Mundi, de Robert Guédiguian, Waiting for the Barbarians, de Ciro Guerra, Saturday Fiction, de Lou Ye (Gong Li, outro regresso, como espia e actriz na Xangai dos anos 40, coisa bigger than life e a preto e branco), Martin Eden, de Pietro Marcello, La mafia non è più quella di una volta, de Franco Maresco (continuando o levantamento antropológico da Sicília, de Palermo), The Painted Bird, de Vaclav Marhoul, The Mayor of the Rione Sanità, de Mario Martone, The Laundromat, de Steven Soderbergh (com o filme de Noah Baumbach a dupla Netflix em concurso) e a animação No. 7 Cherry Lane, de Yonfan.

Assim a quente, dir-se-ia que depois da ferocidade com que Veneza se apresentou o ano passado, parecendo estar a querer ir à luta para se impor a Cannes, aproveitando os favores de uma lua-de-mel com as produções americanas, com o sortilégio dos Óscares e com o braço de ferro entre a Netflix e o festival francês, esta edição aparece com uma intencionalidade bélica nitidamente moderada. Barbera, aliás, comentava em conferência de imprensa “que o ano passado foi excepcional” — querendo justificar o facto de este ano tudo parecer mais regular. Sobre a competição com a Croisette, até diz que na verdade não há: há filmes que vão para um festival ou para outro consoante estejam terminados ou não, explica. Scorsese, por exemplo, não aparece no line up porque The Irishman não está ainda acabado.

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Kubrick e Irreversível em sessões especiais

Há uma série de “acontecimentos”, são mesmo sessões especiais, a povoar o programa do festival fora de concurso. Por exemplo, uma nova versão que Gaspar Noé montou de Irreversível: agora cronológica, e não “da frente para trás”, como a versão lançada comercialmente, o que, a acreditar nos programadores, é não só surpreendente como mais assustadora (as duas versões, a que escandalizou Cannes em 2002 e esta nova serão lançadas em França em Setembro). Vai regressar-se a Eyes Wide Shut, de Kubrick, filme que abriu e gelou Veneza em 1999 (mas é hoje um “outro” filme, não é?), acompanhado do documentário Never Just a Dream: Stanley Kubrick and Eyes Wide Shut, de Matt Wells. E haverá episódios da série The New Pope, de Paolo Sorrentino, que continua The Young Pope, e que tem Jude Law como o Papa Pio XIII.

Roger Waters irá apresentar o filme concerto Roger Waters Us + Them. State Funeral de Sergei Loznitsa, é mais um mergulho épico nos arquivos da ex-URSS: material documental nunca visto, porque nem sequer tinha sido montado, dos três dias de funeral de Estaline. Citizen K, de Alex Gibney, é um olhar sobre a Rússia de Putin. E de Tim Robbins veremos a sua experiência, com o seu grupo de teatro, por prisões americans: 45 Seconds of Laughter.